OPINIÃO

Gente de Bem, ou O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde

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Em uma época em que se fala tanto em “gente de bem”, é impossível não lembrar de O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, ou O Médico e o Monstro, título pelo qual o conto é mais conhecido na língua portuguesa.

A história, publicada em 1887, e cuja ideia original surgiu em um pesadelo de Stevenson, trata da dualidade da natureza humana. Do bem e do mal que trazemos em nós. Dr. Jekyll, o médico, e Mr. Hyde, o ser humano monstruoso, são, na verdade, a mesma pessoa. Por ter-se em tão alta conta e julgar-se incapaz de fazer o mal – dentro dos critérios e padrões éticos da sociedade vitoriana inglesa, é importante ressaltar –Jekyll acaba por, às escondidas, perversamente liberar seu lado mais animalesco e vil.

É perverso porque não existe um “Mr. Hyde” que toma conta do corpo do “pobre” Dr. Jekyll, como uma possessão maligna. Edward Hyde é Henry Jekyll que, após a administração de uma substância que o “transforma”, dá a si mesmo licença para agir sem limites, de acordo com seus desejos e vontades mais obscuros e violentos. A narrativa é toda feita em primeira pessoa. Jekyll sabe muito bem o que está fazendo, mas não consegue admitir nem para si que seja capaz de atos tão terríveis e mundanos, então cria uma poção que lhe permite ser Hyde e expressar-se sem culpa e sem manchar seu nome e sua reputação.

Um ponto que precisa ser destacado nessa história e que pode ser trazido para análise do momento que estamos vivendo em nossa era de moralismo de redes sociais, é o de que Dr. Jekyll não é uma vítima. Ele QUER fazer as coisas que faz disfarçado de Mr. Hyde. Jekyll não é uma pessoa boa, mas também não é aparentemente uma pessoa má. Ele é um homem muito reprimido e contido por padrões de conduta rígidos. Seu problema está é em não querer assumir as consequências de seus próprios atos – tão parecido com muita “gente boa” que vemos atualmente.

Uma reflexão que talvez pudéssemos fazer antes de sair bradando injúrias e defendendo bandeiras equivocadas em nome da moral e dos bons costumes é: somos bons porque queremos ou porque não queremos ser punidos e perder privilégios?

A ideia do mal como residindo somente no outro que é diferente ou do mal que “toma conta de mim” é simplista, ignorante e irresponsável. E esse é o grande erro de Henry Jekyll. Hyde não é alguém que comete atrocidades em nome de Jekyll. Edward Hyde simplesmente não existe. Jekyll, o homem “de bem”, é o único responsável por suas próprias ações.

 

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