OPINIÃO

Green Book: um prêmio para o conformismo

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E a academia premiou Green Book no Oscar – o filme entrou em cartaz em Passo Fundo nessa semana. Depois de alguns anos apontando o dedo para uma nova direção, o número de ameaças ao establishment da indústria de cinema norte-americana foi demais para os membros da Academia e ela resolveu dar um recado a todos. Não é de hoje que produções independentes têm tirado os principais prêmios dos grandes estúdios, e as temáticas mais corajosas têm conquistado um espaço que não era comum no Oscar. Nesse ano, com a ascensão da Netflix e novas possibilidades de distribuição, a escolha dos membros foi pelo filme mais chapa branca aos interesses de Hollywood, inodoro e covarde da lista. No filme, Vigo Mortensen é um italiano racista, mas boa gente (afinal, é preciso que o público se identifique e goste dele) que aceita um trabalho temporário: ser motorista e auxiliar de um pianista negro (Mahershala Ali) que está prestes a embarcar em uma turnê no racista sul dos EUA em plenos anos 60. Ao longo do caminho, os dois se tornam  amigos e o pianista aprende a conhecer e entender sua condição, a enfrentar o racismo e aproximar-se das pessoas, graças aos conselhos e intervenções do seu motorista.

Green Book supostamente critica o racismo, mas tem sido muito criticado pelos negros, enquanto os brancos costumam ver poucos problemas e não entender. Ora, se em um filme sobre racismo as vítimas do tema encontram problemas, a atitude lógica é entender que há problema. No caso de Green Book, está na ideia geral passada pelo filme de que o negro, descontente com sua condição e desconhecedor dos seus “costumes”, precisa ser ensinado por um branco com histórico racista a gostar de ser negro. Tudo dentro de uma estrutura bonita, de boas atuações e momentos climáticos cativantes que levam grande parte do público a acharem uma história “edificante e bonita”. Mas a estrutura do filme de Peter Farrely já é covarde por, em primeiro lugar, optar por contar a história a partir do ponto de vista do personagem branco. Na estrutura de um filme, pode ser um problema quando o grande arco dramático – ou seja, o personagem que mais sofre transformações do início ao fim do filme, de forma resumida – está justamente em outro personagem. Resulta que, vendo o filme, nunca nos aproximamos realmente do personagem de Ali. Estamos sempre com  o motorista branco, e é pelos olhos dele que vemos tudo pelo que passa o negro. A própria condição de Vigo e Ali no Oscar reflete quem é ator principal e quem é coadjuvante (Mahershala Ali ganhou o Oscar de ator coadjuvante no domingo). Temos então um personagem branco narrando uma história em que a grande transformação acontece em outro personagem. Quando no meio dessa equação se coloca o tema do racismo e a cor dos personagens, a situação fica ainda mais complicada. 

O segundo problema é que o filme de Farrelly tenta levar toda a discussão para o lado ameno da comédia e do drama leve. As situações que ele cria ao longo da viagem, ele resolve rapidamente, e normalmente graças ás intervenções do motorista. De cidade em cidade, é como se fossem esquetes com problemas a surgirem e serem resolvidos, para que nada reste poluindo o desenvolvimento da trama. O motorista, aliás, é descrito como racista, mas isso é pouco trabalhado para não estragar o tom leve do filme e a empatia do público com ele, explorando sua relação com a esposa e a família. O resultado é um filme leve, que não ousa, se esconde em uma suposta simplicidade ao tratar um tema forte, principalmente nos EUA, e que para muita gente endossa uma posição de conformismo que reflete a forma de pensar de boa parte da sociedade norte-americana e, todos sabem, da própria Academia de cinema, ela mesma repleta de conservadores que estão mais interessados em fazer as pazes e agradar o grande público do que afrontá-lo com temas e filmes mais relevantes ou ousados. 

De certeza, podemos saber que, no próximo ano, um norte-americano deve ganhar o Oscar de melhor diretor, aconteça o que acontecer. Nos últimos seis prêmios, foram cinco oscars para diretores mexicanos. Já esgotou a cota autorizada, de tempos em tempos, para a ousadia da academia... 

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