OPINIÃO

O lobo nosso de cada dia

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· 2 min de leitura

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Amo Chapeuzinho. Tenho um carinho imenso por aquela menina. Principalmente porque, lá dentro de seus olhos, no fundo de seu olhar, vejo todas as meninas.

Chapeuzinho Vermelho é uma das histórias mais queridas de todos os tempos – e mesmo assim poucos conhecem a versão que deu origem a todas as outras e que era contada na campanha francesa muito antes de Charles Perrault publicar sua versão em 1697. A versão original, chamada de O Conto da Avó, traz influências dos contos orientais da antiguidade, mas adaptou-se às tradições da França rural da Idade Média.

A protagonista de O Conto da Avó não usa capa vermelha, ou a touca vermelha, que foi um detalhe introduzido por Perrault. Tampouco conta com a ajuda do caçador, ideia dos Irmãos Grimm. Chapeuzinho Vermelho, como conhecemos hoje, é uma história moralista que alerta as crianças sobre os perigos da desobediência, mas o conto mais antigo é, na verdade, sobre o crescimento feminino.

Nesse conto antigo, quando Chapeuzinho encontra o Lobo, sabe muito bem quem ele é e, mesmo assim, o informa para onde está indo. O Lobo chega antes, devora a avó, mas guarda um pouco da carne e do sangue em um pote. Quando Chapeuzinho chega, ele a convida e jantar e, juntos, comem a carne e tomam o sangue da avó. Depois, ele se deita e a convida a deitar-se com ele. A menina concorda, mas quando percebe que pode virar jantar também, inventa uma desculpa para sair da cabana. Quando se vê do lado de fora, começa a correr e vê que o Lobo está logo atrás, em perseguição. Ao chegar à beira de um riacho de lavadeiras, pede ajuda às mulheres, que estendem um lençol, seguro nas quarto pontas, permitindo-lhe cruzar o riacho nessa ponte improvisada. Em seguida vem o Lobo, que pede a mesma coisa às mulheres. As mesmas estendem o lençol fingindo ajudar, mas quando o Lobo está passando pelo meio do riacho, elas soltam as pontas e ele se afoga.

O Lobo define Chapeuzinho, assim como a morte define a vida. É o que faz a história acontecer. Sem ele, ela seria como qualquer menina a caminho da casa de sua avó. É o Lobo que a põe à prova, que testa sua perspicácia, que a faz agir e procurar ajuda. O Lobo a faz crescer.

Mas o Lobo de Chapeuzinho não é só dela. Ele é todos os Lobos do mundo, das histórias, dos pesadelos, das ruas escuras e lugares arriscados. Ele é a pedra no meio do caminho, o obstáculo aos finais felizes, a boca monstruosa cheia de dentes afiados no final de cada projeto futuro. O Lobo é o ceifador do tempo, da juventude, da tranquilidade.

E Chapeuzinho?

Chapeuzinho fomos todas nós um dia, aprendendo a conviver com o Lobo, correndo pela floresta, apostando na vida e confiando nos lençois das lavadeiras.

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