OPINIÃO

O monge no jardim

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Os monges da Ordem de Santo Agostinho podem ter vivido dias melhores na abadia de pedra no alto do morro, no centro de Brno (na atual República Tcheca), mas foi por terem caído em desgraça com o imperador José II, em 1783, ao serem transferidos para uma estrutura em ruinas na base do morro, na velha Brno, que efetivamente entraram para a história da ciência. No jardim do antigo monastério, que datava do século 14 e até então fora destinado a mulheres, Johann Mendel (que assumiu o nome de Gregor no meio dos agostinianos), ingressou, em 1834, na abadia onde realizaria os clássicos experimentos com ervilhas, que, post-mortem, lhe assegurariam a notoriedade como o “Pai da Genética”, pelo descobrimento das leis básicas da hereditariedade: as famosas Leis de Mendel sobre segregação e recombinação independente de genes.

Em um artigo de 44 páginas, publicado em 1866, a partir das duas conferências que realizara, no ano anterior, em dois encontros da Sociedade de História Natural de Brno, Mendel deixou expressa a sua magna contribuição, que, para estranhamento dos historiadores da ciência, até 1899, receberia apenas quatro citações, segundo alguns, ou, menos de 15, conforme outros.   Essa foi a sua derradeira e deveras relevante contribuição para a biologia, pois, em 1868, Mendel, tendo sido escolhido abade do mosteiro e, a partir de então, envolvido apenas com tarefas administrativas, abandonaria as pesquisas de vez, vivendo com discrição até a morte, ocorrida em 6 de janeiro de 1884.

Mendel, o obscuro monge agostiniano, que em vida fora ignorado pelos contemporâneos, teve o seu trabalho redescoberto, admite-se que de forma independente, apesar de pouco provável, via a publicação de três artigos, num prazo de três meses, em 1900, pelo holandês Hugo de Vries, pelo alemão Carl Correns e pelo austríaco Erich von Tschermak. Esses mencionados artigos convergiram para os mesmos resultados que haviam sido publicados por Mendel em 1866.  O episódio, que ficou conhecido como a “Redescoberta das Leis de Mendel”, determinaria o começo do reinado de Mendel na biologia moderna, que atravessou o século 20, não sem ataques, frise-se, e perdura até os nossos dias.

Mas, efetivamente, foi o proselitismo de William Bateson, que, em1905, inclusive, foi quem usou, pela primeira vez, a palavra Genética para definir a ciência que cuidava da hereditariedade, que se encarregaria da missão de que Mendel nunca mais fosse ignorado nas ciências biológicas.

De um lado, William Bateson, o “Buldogue de Mendel”, e do outro, Sir Ronald Aylmer Fisher, o “Doutor de Oxbridge”. Dois gigantes do pensamento científico do século 20 envolvidos em um debate cujo centro era Mendel. Um idolatrando e outro atacando. R. A. Fisher, renomado geneticista e estatístico de Rothamsted, que nos legou a técnica da análise da variância (ANOVA) para interpretação de dados experimentais, começou o ataque, em memorável conferência realizada na Universidade de Cambridge, em 1911, que depois aprofundaria em laudatório artigo publicado em 1936 (Has Mendel´s work been rediscovered?); dando início a um acirrado questionamento dos dados de Mendel, que levaria a um embate apaixonado nos meios científicos, que se estende até os nossos dias.

Segundo R. A. Fisher, os dados apresentados por Mendel se ajustam tão bem as razões esperadas – as clássicas relações 3:1 ou 9:3: 3:1; para um e dois caracteres e dominância completa – que são poucos críveis que tenham sido obtidos experimentalmente. Esses resultados, conforme Fisher, reproduzindo-se os experimentos de Mendel, somente seriam passiveis de obtenção três vezes a cada 100 mil tentativas (p ≤ 0,99997). Estava posta a dúvida: teria o bom monge agostiniano falseado os dados para ajustá-los às relações divulgadas? Ou, conforme supõe Fischer, um auxiliar prestimoso, apiedado de Mendel, se encarregou de produzir os dados para que não contrariassem aquilo que o mestre esperava?

Nem uma coisa e nem outra.  Mas, como o espaço acabou, retomaremos na próxima coluna. (...CONTINUA)

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