OPINIÃO

O Oscar não gosta de cinema

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Há algum tempo já eu venho comentando sobre o Oscar, e sempre ressalto que, se ele ajuda a orientar muitas pessoas sobre os filmes mais badalados do ano, também colabora para esconder completamente os melhores, amplia a onipresença do cinema americano e, pasmem, não serve muito pra atestar qualidade, já que é um prêmio da própria indústria interessada que essa indústria, afinal, renda muita grana.

Na semana que passou, a Academia comunicou que a cerimônia será enxugada porque alguns prêmios serão entregues em cerimônias separadas exibidas ao público durante os intervalos. Serão incluídas nessa “cerimônia à parte” as categorias de melhor curta (porta de entrada de grande parte de diretores e profissionais no mundo do cinema), maquiagem (que já permitiu existirem personagens e filmes célebres, além de, por exemplo, permitir que gente como Gary Oldman e Christian Bale incorporasse celebridades como Churchill e Dick Chenney), edição e fotografia.

É assustador. A academia está negligenciando aos poucos os prêmios técnicos para priorizar aqueles prêmios em que desfilem diretores, atores e cantores, tentando garantir que o estilo tapete vermelho mantenha a audiência do Oscar. Afinal, o público não quer ver, por exemplo, Roger Deakins, um dos maiores profissionais do mundo da direção de fotografia. Ele quer ver a Lady Gaga no palco, cantando e recebendo seu prêmio, ou atores famosos desfilando junto ao microfone. O Oscar continuamente sabota a si mesmo quando afirma que certas categorias imprescindíveis não interessam na exibição com audiência de milhões – bilhão? – de pessoas.

Muita gente confunde FOTOGRAFIA em cinema como imagens bonitas. “A fotografia daquele filme é maravilhosa” dizem, quando aparece um pôr do sol ou paisagens deslumbrantes. A fotografia num filme não é isso. O diretor de fotografia, junto com o diretor, decidem aspectos essenciais ao ato de contar o filme. Onde fica a câmera, o que ela enquadra, quando e se ela se move, por onde, que tipo de lente usar, se haverá longa profundidade de campo (enxergamos tudo na tela) ou pouca profundidade (temos o fundo “desfocado” centrando a atenção nos personagens), se será usado algum filtro ou não, de que forma a cena será iluminada. Ou seja, o prêmio de fotografia é basicamente o reconhecimento a todas as decisões sobre como o filme foi visualmente planejado em termos de ações da câmera para com os atores e o cenário e como ele é iluminado. Ele é complementado, obviamente, pela direção de arte, pelo figurino, pelas interpretações, mas aqui se define o que se mostra e como se mostra.

Já a EDIÇÃO é uma falha de tradução no Brasil, o ideal seria “montagem”, que para os americanos se chama “editing”. Tradicionalmente, temos diferença entre edição (um processo “micro”, que define a duração dos planos, fusões e trabalhos num nível menor) de montagem (que pensa como o filme inteiro se comporta, se há criação de um sentido na relação entre os planos, como a narrativa é, literalmente, montada na decisão de como os planos se comportam uns com os outros e à criação de uma lógica para o filme). Esse processo é essencial no cinema. Um filme mal montado pode jogar para o espaço todo o trabalho de produção, anular a lógica de um filme, estragar seu ritmo, sabotar o próprio roteiro.

Pois a academia entende que premiar o diretor de fotografia e o montador do filme são parte de um processo que deve ir para segundo plano. Basicamente, os dois profissionais que são, depois do diretor e do roteirista, os maiores responsáveis pelo que vemos na tela, foram jogados pra escanteio e não farão mais parte da cerimônia principal.

E depois vocês ainda querem encontrar no Oscar uma referência de qualidade? 

O filme que eu mais gostei entre os indicados dessa cerimônia é um filme polonês chamado “Guerra Fria”. Surpreendeu concorrendo a três prêmios: melhor diretor, filme estrangeiro e fotografia. É uma história de amor à la “Doutor Jivago” com um casal se desencontrando ao longo dos anos logo após a Segunda Guerra Mundial, filmada com um apuro visual único: fotografado em preto e branco, tem em seus planos uma série de discursos – muitas vezes o que acontece ao fundo dos personagens traz um comentário adicional à história – e sua montagem tem cortes bruscos que rimam com a própria história do casal, com uma história de amor bruscamente interrompida diversas vezes.

Você não verá “Guerra Fria” nos cinemas de Passo Fundo. Se vencer o prêmio de fotografia, Lukasz Zal não subirá no palco principal e seu montador sequer foi indicado. Não, o Oscar pode ser pop, mas ele não gosta muito de cinema...

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