OPINIÃO

O super-homem

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José Nêumanne Pinto, poeta, escritor e jornalista, palestrou em santa Catarina na 42ª Convenção Nacional da Unimed e teve umas tiradas geniais. Entre elas destacou que notícia boa é notícia ruim. Notícia boa não vende jornal, o pessoal quer ver sangue. Também salientou que os proprietários dos grandes veículos de informação do Brasil estão substituindo os jornalistas de mais idade por jovens técnicos, na maioria, mal informados. Em bate-papo rápido que tive com ele, ao olhar meu crachá que me identificava como do Rio Grande, ele que é paraibano declarou entre gargalhadas: temos um ponto de identificação, vocês gaúchos e nós paraibanos; na revolução de 1930, nós paraibanos entramos com o cadáver (João Pessoa), os mineiros entraram com o dinheiro e vocês gaúchos entraram com o poder (Getúlio).

E, a seguir, contou que foi procurado por uma jovem jornalista que queria entrevistá-lo sobre a morte de Getúlio Vargas sem ter a dimensão que quem teria sido Getúlio. Então, ele ironizou: Getúlio morreu? Tem certeza disso? Suicidou? Como? Tomou veneno? Jogou-se de um prédio? Além dessas bazófias, Nêumanne lançou em agosto desse ano um livro intrigante sob o título “O que eu sei de Lula”, já que foram amigos e companheiros de muitas intimidades. O livro frustra um pouco porque o tudo que sabe de Lula não pode ser publicado porque” geraria processos, ou morte por assassinato”.  Revela que Lula nunca leu um livro na vida, mas que isso não importa porque o Brasil está cheio de gente que lê um monte e é incapaz. Lula lê através da leitura de outros. Ele interpreta, ouve, pondera e quando vai se pronunciar joga para a platéia.

Nêumanne considera Lula como o maior dos políticos que o Brasil já teve porque mesmo em disputa em segundo governo esteve com 80% de aprovação pela população. Supera Getúlio, segundo ele, porque este não teve aprovação igual e foi muito contestado. Getúlio não suportou a crise da Rua Toneleros, no atentado contra Carlos Lacerda em que o major Vaz foi morto. Por isso, muito menos do que é o escândalo do mensalão, Getúlio fincou-se uma bala no coração. Lula aparentemente surfou acima da tempestade da corrupção ativa e passiva, do manuseio de dinheiro público para garantir o que se chama de governabilidade de sua gestão. No início, Lula não tinha controle sobre um PT fragmentado. Zé Dirceu detinha esse controle. Lula seduziu Zé e depois, na crise, abandonou-o porque tinha um projeto chamado Palloci, segundo o livro.

O Brasil é um país do futuro, sempre se disse. Ou melhor, sempre dissemos isto de nós mesmos. Tem área gigante, riquezas naturais, clima tropical, miríade de culturas, o mundo inteiro cabe aqui dentro. Se falamos a mesma língua do Rio Grande até a Amazônia devemos a um de nossos super-homens, José Bonifácio de Andrada e Silva que convenceu Dom Pedro I a manter o Brasil sob o domínio central, não dando a chance de fragmentá-lo. Caso contrário, não falaríamos a mesma língua e não teríamos essa imensidão. José Bonifácio era abolicionista e quase cento e cinqüenta anos antes imaginava a capital Brasília onde ela está, mais ou menos no centro do país. O mundo pensa que o Brasil é o futuro porque é um país jovem sem grandes intrigas raciais, país cordial, onde há muito para ser feito, país receptivo e atrativo. Muitos nos vêem como paraíso, compram nossos terrenos, nossas matas e em pouco tempo seremos convivas dos estrangeiros.

Não fossem as trapalhadas dos governantes de ontem e de hoje...Metemos os pés pelas mãos, como fizemos recentemente em relação ao episódio do golpe no Paraguai, onde oficialmente fomos contra. Vociferamos, batemos na mesa, excluímos o Paraguai do Mercosul, mas...e os interesses dos milhares dos brasiguaios que plantam riquezas em zonas de fronteiras de interesse do Paraguai e que o ex-presidente Lugo queria rever a questão? Nesse paradigma e conflito de interesses, ficamos bloqueados e pagamos mico internacional. Afinal, apoiamos o golpe ou não?

Felizmente os super-heróis tipo Dom Pedro e José Bonifácio permanecem com representantes na atualidade. Depois de Airton Senna o nosso herói do momento é togado e é preto. Redime duas circunstantes: retoma a confiança no Poder Judiciário, no Supremo Tribunal, o que compensa um pouco o desencanto do jogo de interesses do Senado e engrandece a cor da pele que originou a todos nós. Nós, pretos, do Brasil, ainda vendemos cestos em estações rodoviáriais e mendigamos por aí. Nossos heróis da pele escura sempre foram ligados ao esporte e arte. Tesourinha, Everaldo, Dorinho, Claudiomiro, Valdomiro, Alcindo, Valdo, Ronaldinho, Ronaldo, Romário e Pelé só para citar alguns. Temos heróis sim, pretos e brancos, alemães e italianos, japoneses e poloneses, enfim aqui cabe o mundo. Para nosso orgulho, o herói da hora é o oposto ao herói sem caráter descrito por Mário de Andrade em Macunaíma. Nosso herói é bem brasileiro, nosso herói nos redime, nosso herói é Joaquim Barbosa, o ministro.

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