OPINIÃO

Olha, gente

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Li, num fôlego, o livro que conta a história dos quarenta e cinco anos do Programa Sala de Redação da Rádio Gaúcha. Mais do que casos hilários e documentos do rádio esportivo gaúcho há um resgate emocional para quem, com quase sessenta anos, viveu intensamente o florescimento dos times gaúchos ao cenário nacional-internacional, para além do Mampituba. Quando adolescente, antes mesmo de ficar viciado em Hélio Ribeiro (Rádio Bandeirantes) era eu hipnotizado pela Guaíba, assim como meu pai. Ligava o rádio quando iniciava o programa Preliminar e somente desligava quando terminava a transmissão esportiva. Não perdia um programa de esportes e os comentários intercalavam Ruy Carlos Ostermann e Lauro quadros. Ruy, eclético, cerebral, metódico – “são doze minutos de jogo e o Grêmio vence por dois a zero; são somente 12 minutos de jogo e o Grêmio já vence por dois a zero”. Lauro era de casa, sem rodeios, sarcástico, inteligente, mordaz. Nem saberia dizer a quem admirava mais. Esses personagens, juntamente com os que se perderam na memória, como Élio Fagundes, Samuel Santos, Milton Jung, Willy Gonzer, Mendes Ribeiro, Luiz Carlos Prates, Armindo Ranzolim, Pedro Carneiro, Joabel Pereira, Lupi e Lasier Martins, João Carlos Belmonte, João Garcia, Antônio Augusto, Antônio Carlos Rezende – eles todos – enriqueceram o mundo de quem só tinha o rádio valvulado a sintonizá-los. Eles contaram o mundo, primeiro do Inter de Falcão, Figueroa e Valdomiro; depois o Inter de Mauro Galvão e Chico Spina. Aí, o grêmio de Espinosa, De León e Renato, depois o de Felipão e todos os seus guerreiros. Estava eu na escuta no dia em que Pedro Carneiro morreu carbonizado em Tarumã. Arnaldo apitava Inter e São Paulo, ele viu que os torcedores levantaram e aplaudiram algo e, instintivamente, paralisou o jogo e fez um minuto de silêncio. A Guaíba encerrou a transmissão e a Gaúcha entrou em cadeia para transmitir o jogo do Grêmio às dezoito horas que vencera a Desportiva com gol isolado de Tarciso. Entristecido, sintonizei a Rádio Planalto que não retransmitia futebol porque aquele dia não era de torcer, era de chorar e tocava Paul em My Love. O livro resgata muitas vivências e escancara como dependíamos do rádio. Ouvia Flávio Alcaraz Gomes, Sergio Jockymann, audições compartilhadas com meus pais, assim como também passou a acontecer quando descobri O Poder da Mensagem, a filosofia de comunicação de Hélio Ribeiro. Hoje a gente não compartilha rádio, TV com os filhos – eles são de outras tecnologias e eu... achei que o futuro nos aproximaria.
Lauro, com oitenta anos, bem que poderia continuar no rádio. Preferiu viver e tentar devolver a sua mulher todos os fins-de-semana sonegados. Iniciava seus comentários com a sacada – “olha, gente” – descascava, ere gremista, era colorado, vai saber. Ruy vive a aposentadoria forçada pelas limitações que a vida oferece privando-nos de sua imensa intelectualidade. Apreciador de vinhos malbec, comidas, poesias e imensas ponderações filosóficas muito estimulou a ler, de um simples jantar produzia uma obra literária. Esses dois gigantes, ao se aposentarem, aposentaram parte de nossas vidas que ficou mais pobre. O livro é admirável, mas, como todo grande livro, faltou uma perna, a perna do dia em que na década de oitenta Chico Anísio participou do Sala e deu uma aula de futebol, de tática e de conhecimento sobre a dupla grenal, parecia jornalista local, coisa de quem é antenado, coisa de quem sobrenada, coisa de quem é gênio. Saudades dos gênios das nossas vidas.

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