OPINIÃO

Orgânicos versus Convencionais

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Negar que a atividade agrícola tem uma parcela substancial de culpa pela degradação ambiental que assola o mundo contemporâneo é, no mínimo, uma irresponsabilidade. Mas, colocar toda essa culpa sobre os agricultores, como alguns fazem, também não é uma irresponsabilidade menor. Ao se fazer isso, convenientemente, foca-se em um segmento e ignoram-se todos os demais braços do sistema mundial de alimentação, que antes e depois do campo, envolvendo desde a geração de tecnologias, passando pela indústria de insumos agrícolas e de processamento e distribuição e alimentos até o consumidor final, com suas atitudes de consumo consciente ou não e do destino que dá às embalagens que viram lixo doméstico, não há inocentes a priori; ainda que seja justa a reivindicação dessa presunção.

A solução, apontada por alguns e negada com veemência por outros, para o mundo atingir a segurança alimentar plena e de forma sustentável, seria a agricultura orgânica. Evidentemente, em tese; pois menos de 1% das terras atualmente usadas em agricultura no mundo poderiam ser enquadradas nos contornos dos rótulos dos produtos orgânicos encontráveis, com certificação, nas gôndolas dos supermercados. Isso significa que o sistema mundial de alimentação é, e vai continuar sendo ainda por um bom tempo, dependente da chamada agricultura convencional (essa que, pela via da exportação e produção de alimentos baratos, tem sido responsável por não piorar ainda mais o desempenho da economia brasileira). Mas, por outro lado, não há impedimentos para que muitas das boas práticas da agricultura orgânica não possam ser usadas na agricultura convencional, quer seja pelos benefícios trazidos para a saúde humana, por razões ecológicas ou por motivações meramente econômicas.

Eis um ponto de controvérsia: a agricultura orgânica seria a solução para a produção sustentável de alimentos no mundo, como apregoam os seus adeptos, ou não passa de um modelo retrógrado de produção alinhado com uma visão romântica de agricultura, que, pelo baixo desempenho produtivo, como insistem alguns críticos, em vez de soluções, espalharia fome pelo mundo e intensificaria a devastação ambiental? Uma questão aparentemente simples, mas que exige uma resposta complexa ou, pelo menos, para ir um pouco mais além do território das meras opiniões de ocasião, que seja, minimamente, fundamentada.

Luzes sobre essa discussão foram recentemente lançadas por Verena Seufert e Navin Ramankutty, da Universidade de Bristish Columbia/Canadá, em exaustiva revisão publicada na revisa Science Advances (edição de 10 de março de 2017), em que destacam que tanto os críticos quanto os defensores da agricultura orgânica, não raro, parecem que se referem a realidades distintas. Mesmo que há evidencias suportando os argumentos de ambos os lados, nenhum deles, pelas incertezas em muitas dimensões e os múltiplos contextos envolvidos, pode se alvoroçar como o detentor da razão.

São bem claros, mesmo que dependentes de contextos, os benefícios da agricultura orgânica. Sim, as práticas orgânicas promovem positivamente a biodiversidade local, podem trazer benefícios à saúde humana pelo menor uso de agrotóxicos e à qualidade das águas pelo menor aporte de contaminantes químicos (N e P, por exemplo) e ao produtor rural pelo prêmio que é pago adicionalmente, por um lado; mas, por outro lado, pairam dúvidas e possíveis malefícios relacionados com a contaminação de águas pelo tipo de adubo orgânico usado, a expansão de uso da terra pela menor intensificação da produção e o maior gasto em alimentação pelo adicional em preço pago pelo consumidor por produtos que ostentam o rótulo orgânico.

Indiscutivelmente, frisam Verena Seufert e Navin Ramankutty, a agricultura orgânica não é o Santo Graal para vencermos os desafios relacionados com a segurança alimentar sustentável no mundo. Mas, a integração de algumas práticas orgânicas, de reconhecido valor, nos modelos convencionais de produção, pode ser um passo importante.

 

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