OPINIÃO

Pedido ao mandachuva

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Nesta noite chuvosa de quinta, no meu plantão presencial de número 355, aqui no São Vicente submeti-me a uma regressão aos tempos de menino-adolescente. Mesmo porque iniciou a primavera e ouvi Tim Maia cantando a Primavera, música de Cassiano. Conheci Tim em 1970 em Azul da Cor do Mar, também de Cassiano, tempo em que passeava à casa de minha avós Adelaide e Iéia, ao som dançante dos Fevers – Cândida e Mar de Rosas. Em 1972, quando Tim gravou Primavera eu era esse menino-adolescente e aos 15 anos não queria saber de sofrimentos, era escravo da alegria. Melhor, nessa noite que chove que eu ,insone, retorne a essa vida, que na verdade, nunca me deixou. Se, futuramente, eu tiver um derrame cerebral e puder escolher uma etapa da vida para terminar meus tempos, bem que poderia escolher essa estação das flores, de Tim e Cassiano.

É que a semana que finda foi muito pesada. Participei do atendimento a dois jovens, 16 e 19 anos, que acabaram morrendo vítimas de acidentes com motocicletas em que tiveram trauma craniano grave e fraturas de bacia. O de 16, Victor, morreu na noite de sábado e tivemos que encarar a família para o nosso desespero e o deles. O de 19, Júnior, morreu na terça. Horas antes do falecimento encontrei seu pai no corredor do hospital e ele me disse eufórico que estava feliz, porque o filho amanhecera menos inchado. O pai ainda não sabia que seu filho estava com morte cerebral. Eles depositaram muita confiança em mim, no meu trabalho. Senti saudades dos Fevers.

O garoto havia saído na sexta-feira somente para levar sua namorada ao trabalho e que deu uma aceleradinha dentro da cidade e perdeu o controle da moto. Em segundos nada mais havia, fez a travessia, como refere Hermann Hesse, em Sidartha.

Nessa noite chuvosa, o menino Jorge, ainda com Tim, Cassiano e os Fevers, gostaria de encomendar, como fazia há quase quarenta anos, ao Pai maior o pedido de que na próxima missão em vida futura, mande-o, para outras missões, mas não como médico. Mas, se vier como médico, que não seja de trauma, ou oncologia, ou intensivista porque enchi o saco de dar notícias ruins, principalmente quando a maioria de nossos pacientes bem que poderia ser nossos filhos ou netos.

Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho muito prá contar, dizer que aprendi...

“ Em 1972, quando Tim gravou Primavera eu era esse menino-adolescente e aos 15 anos não queria saber de sofrimentos, era escravo da alegria.

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