Por dentro de um clube de tiro

Para presidente da entidade, Vitor Hugo Mazzoca, mudança no decreto de armas é positiva

Por
· 7 min de leitura
Crédito:

Notamos que você gosta de ler nossas matérias.

Você já leu várias nas últimas horas, para continuar lendo gratuitamente, crie sua conta.

Ter uma Conta ON te da várias vantagens como:

  • Ler matérias sem limite;
  • Marcar matérias como lida;
  • Conteúdo inteligente.
Criar contaAcessar
Você prefere ouvir essa matéria?

"Você pode aguardar uns minutinhos enquanto eu termino de fazer a avaliação dele, por favor?" O pedi­do feito pelo policial rodoviário, Vitor Hugo Mazzoca, assim que chegamos ao Clube de Tiro e Caça de Passo Fundo (CTCPF) foi pontual. Orientando um senhor que se direcionou ao local para realizar a prova que o atestaria apto ou não para a compra legal de uma arma de fogo, o também vice-presidente do clube o guiou até a linha de tiro. Com o alvo à frente e os quadrantes que contabilizam a pontuação, conforme o local em que o postulante acerta os disparos, ele observa atento. "Ele reprovou", sentencia. "O critério fundamental é segurança e ele quebrou uma regra básica naquela hora em que eu pulei na arma", justi­fica, referindo-se ao momento em que, mesmo com a arma descarregada, o candidato abaixou-se para re­cuperar unta cápsula de bala que caiu ao chão apon­tando, involuntariamente, a arma para quem estava atrás. "Quem determina se uma pessoa é apta ou não para ter uma arma em casa são os avaliadores. Para ver como a coisa é séria. Quem compra unta arma tem que saber usar", explica.

 

As margens da BR-285, a sede do clube quase não é percebida por quem trafega em direção a Carazinho. Com um quadro de sócios estimado em 260 pesso­as, entre caçadores, atiradores e colecionadores, o local recebe competições a nível estadual e nacional de Tiro Esportivo. "São profissionais da área da saú­de, empresários. Em geral, pessoas de classe média a classe média alta porque é um esporte caro para manter", revela Mazzoca. Chamada de 'joia', de acordo com ele, a associação custa, em média, R$ 1.800,00. "Pode parcelar. Enquanto a pessoa estiver pagando a joia, não precisa pagar a mensalidade de R$ 60,00", continua.

 

Percorrendo o amplo gramado do clube, ele mostra a estrutura oferecida para os frequentadores. "Aqui na 'bala', conto costumamos chamar, é de duelo 4x20. Ele consiste em deixar o alvo exposto por 20 segun­dos, depois ele fica de perfil e o atirador não enxerga mais. São quatro vezes que ele vai abrir e serão dados 5 tiros por série, totalizando 20 tiros", menciona. Nos estandes circundados por pneus de caminhão preenchidos com materiais utilizados na construção civil, cuja função é "parar" os projéteis de diferentes calibres, assim que disparados pelos atiradores, Ma­zzoca esclarece que o armamento utilizado para a prática esportiva não é fornecido pelo clube. A arma utilizada para o teste de aptidão do homem que não atingiu o desempenho necessário, inclusive, era do vice-presidente. Segundo ele, cada indivíduo chega portando sua arma, conforme os calibres permitidos pela portaria federal. "Nós tratamos em questão de joule [elemento utilizado para medir a energia emi­tida pelos disparos]. Então, os calibres permitidos vão até o .44, mas não o Magnum. Os únicos que, já pela nova resolução, não entrarão conto permitidos serão o .44 Magnum, o 454 e os fuzis, sem dúvida, que já são calibres restritos", enumera.

 

O policial elenca, ainda, uma série de necessidade legais para frequentar o espaço e, de um modo geral, portar uma arma. Entre elas, o registro do armamen­to junto às Forças Armadas e ser um indivíduo "sem passagens pela Justiça", como menciona, são obriga­tórios e comuns a todos os membros. Pelo novo de­creto assinado pela Presidência da República, o re­gistro para os caçadores, atiradores e colecionadores (CACs) deve ser elevado de três para 10 anos. A com­pra de munições também deve subir. O teto passará de 50 cartuchos anuais, por arma, para 5 mil, e mil para as de uso restrito. "A compra de arma é rígida também para os atiradores. Eles têm de estar na li­nha", declara.

 

Com a mesma idade do clube que integra a gestão, Mazzoca conta que começou a praticar o esporte de tiro ainda na década de 70, associando-se quase dez anos depois. Os gastos mensais para manter o espaço com cerca de 5 estantes de tiro, segundo ele, gira em torno de R$ 8 a R$ 10 mil reais, distribuídos em im­postos, contas gerais e salários dos três colaborado­res que mantêm o lugar em funcionamento. Frequentado semanalmente, sobretudo, por ho­mens, Mazzoca revela que a presença das mulheres como praticantes de tiro tem sido uma crescente ao longo dos últimos anos. "Temos, inclusive, uma cam­peã brasileira da modalidade doble que treina aqui", orgulha-se. "Menina dos olhos" de todo atirador as­sociado ao Clube de Tiro e Caça de Passo Fundo, conforme informou, o estande fica na área superior, próximo a um local social com mesas de sinuca, larei­ra e churrasqueiras, utilizado às quartas-feiras para confraternização.

 

"O atirador dá um comando de voz e são lançados dois pratos ao mesmo tempo. Então, ele atira em um e busca o outro", indica. "As armas são caras para comprar aqui por causa das taxas de importação. Só a parte documental, para ter o regis­tro de posse, custa, em média, R$ 700. Tem armas que não consigo nem mensurar o valor", pondera. Utilizado também como local familiar, o clube de tiro, segundo ele, também possui uma área voltada aos menores de idade que, com o aval de um respon­sável, praticam a modalidade. "Com uma arma de ar, pode atirar. Não há nada que seja impeditivo. Agora, arma de fogo não porque o Estatuto da Criança e do Adolescente veta", menciona. "Temos uma moça de 16 anos que já é uma exímia atiradora", prossegue. Para ele, o novo decreto para a posse e porte de armas é visto de forma positiva. "Nós temos que ter o livre-arbítrio. E, no tocante a arma, nós não temos. Você pode comparar um caminhão, se quiser, mas não pode comprar um revólver. Por quê?", questiona "Não é arma que mata, ela é só um instrumento. Nos foi tirado o direito à proteção porque a arma é para proteger. 'Chore a mãe dele, mas não chore a minha', como diz o ditado. Mas, para matar não é necessário arma de fogo porque, quem quer matar, mata com um bastão ou com qualquer outra coisa", defende.

 

Flexibilização do porte de arma reacende discussão sobre segurança

Entre assinaturas, alterações nos textos e recuos, desde que o presidente da República, Jair Bolsonaro, sancionou o último de­creto de flexibilização da aquisição de armas de fogo e munições, em maio deste ano, a ampliação na circulação destes artefatos to­nificou os debates entre opositores e aliados sobre os reflexos que a resolução pode provocar quando for colocada em prática. Embora celebrado pelos apoiadores, o cumprimento de uma das principais promessas de campanha presidencial preocupa os especialistas em segurança pública. Com respaldo de outros estu­diosos da área, para o professor de Direito Penal da Universida­de de Passo Fundo (UPF), Luiz Fernando Pereira Neto, a medida pode intensificar o índice de violência no país. "Nunca se morreu e se matou tanto no Brasil como agora, antes mesmo dos decretos serem assinados", considera, recorrendo às estatísticas apontadas pelo Atlas da Violência, divulgado na quarta-feira (5) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), para embalar sua análise.

 

Segundo o relatório mencionado por Neto, o número de brasi­leiros mortos por arma de fogo cresceu 39% no período que com­preende os anos 2007 a 2017. Somente nesse último ano observa­do pelos pesquisadores, 72,4% dos homicídios registrados no país foram cometidos com a utilização do artefato. "Somos muito mais permissivos à posse de armas, só que tinha controle. Isso [o de­creto] flexibiliza esse controle", assegura o professor, esboçando um comparativo entre o Japão e os Estados Unidos. "O Japão adota uma tolerância zero enquanto que, nos Estados Unidos, a compra de armas não é tão restrita", pondera.

 

No último decreto presidencial, assinado em 22 de maio, além de vetar o porte de fuzis, carabinas e espingardas para o cidadão comum, o texto manteve a facilitação do porte de armas para al­gumas categorias profissionais, como caminhoneiros, jornalistas que cobrem o setor policial e advogados. O texto, publicado no Diário Oficial da União, as considera como "atividades profissio­nais de risco" e justifica a resolução para o uso permitido quando "o indivíduo esteja inserido em situação que ameace sua existên­cia ou sua integridade física em razão da possibilidade de ser ví­tima de delito que envolva violência ou grave ameaça", ratifica o parágrafo quinze do decreto.

 

"A segurança pública tem que ser prestada pelo Estado. A possi­bilidade ou não de uma complementação dela é outra coisa a ser debatida porque falar sobre armamento não é uma tarefa fácil", considera Pereira Neto. Para o professor de Direito Penal, essa res­ponsabilidade da União não pode ser transferida para o cidadão, porém é delegada por ele "não acreditar no Estado." "A nossa men­talidade é diferente. O brasileiro resolve, culturalmente, os seus problemas com violência, sendo legal ou não o porte", avalia. A fle­xibilização nas leis para as armas, questionada pelo especialista, sofre repúdio de uma ampla parcela da sociedade. De acordo com o levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 73% dos entrevistados são contra a medida pro­posta pelo Governo Federal enquanto 26% se mostraram favorá­veis. Realizada em março, a pesquisa apontou ainda que 61% são contrários à facilidade para possuir uma arma em casa. "Também é direito do cidadão cobrar do Estado uma segurança maior", ar­gumenta o professor de Direito Penal, Luiz Fernando Pereira Neto.

 

Gostou? Compartilhe