OPINIÃO

Senescência

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Moacyr Scliar em Sonhos Tropicais (Editora Companhia das Letras -2004) romanceia a vida de Oswaldo Cruz e sua saga na microbiologia numa época em que a ciência descobria que as doenças podiam ser transmitidas pelo contágio. Oswaldo Cruz ingressou na faculdade aos 15 anos e logo estava estudando no Instituto Pasteur, em Paris. Numa aula um professor apresentou aos alunos o microscópio e telescópio. Um visualiza o que habita dentro de nós e outro o que mora fora. O mestre pretendia intuir a seus alunos o quanto era definir onde estavam os maiores mistérios, se dentro ou fora de nós, se em nossos corpos físicos ou no universo.
Francis Collins (diretor do Projeto Genoma) em A Linguagem de Deus - Editora Gente – 2006 - narra o encontro com a fé, ele que era agnóstico até os 27 anos. A decodificação do genoma mostra que ele é formado por todo o DNA de nossa espécie, é o código da hereditariedade. O texto apresentado ao Presidente Bill Clinton no salão Leste da Casa Branca pelo biólogo Collins apresenta 3 bilhões de letras, escrito num código estranho e enigmático composto de 4 letras. A complexidade das informações contidas em cada célula do corpo humano é tamanha e tão impressionante que ler uma letra por segundo desse código levaria 31 anos, dia e noite, ininterruptamente. Se imprimíssemos essas letras num tamanho de fonte regular, em etiquetas normais, e as uníssemos, teríamos como resultado uma torre do tamanho aproximado de um prédio de 53 andares. Cara, em cada célula de nosso corpo. Não deve ser coisa do acaso, pensou Collins, essa, definitivamente, é a linguagem de Deus.
Na senescência, envelhecimento gradual sem comprometimento cerebral, vem as inquietações compatíveis com a responsabilidade de quem tem cabelos brancos. De repente, alguém fará perguntas sobre as motivações de nossas escolhas pessoais, profissionais, sentimentais. E é bem provável que tentemos organizar nossas pastas e qualquer tentativa de organização se baseia em padrões (cor-tamanho-ordem alfabética-cronologia...). Na ausência de um não há como referendar responsavelmente nenhuma escolha, como boa ou ruim. Os senescentes tentarão encontrar explicações para o feito e o não feito. Então, perceberão que as boas ações aconteceram por motivações ou estimulações. Qual é a diferença? Motivação, aquilo que faz os olhos brilhar, aquilo que catapulta à altura inimaginável, aquilo que bate forte nos corações é uma porta que só abre de dentro para fora. Estimulação é vento que vem de fora, muitas vezes fugaz, fugidio, permutável. Oswaldo Cruz e Francis Collins tiveram mais do que estimulação; tiveram desiderato, vidas de significado. A gente, que não é cientista, deve tentar entender que o que deu extremamente certo só pode ser explicado pela motivação de cada um. É aí que mora a vida boa, a que poderíamos querer que fosse repetida, tipo: começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor.

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