OPINIÃO

Sobre o doutor

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Estamos assistindo de camarote ao julgamento do que se chama “mensalão”, ou compra com o dinheiro público de apoios parlamentares para o que se chama “governabilidade”. Mais ou menos assim: se a gente não disponibilizar uma grana aos opositores o governo não consegue governar, mesmo que suas propostas tenham tudo a ver com o bem comum. É sobre as denúncias e provas sobre o modus operandi de grande parte de nossos homens públicos que brota a sensação de desânimo e desencanto para atividade tão importante em um sistema dito democrático. Talvez, é bem provável, que essa prática envolva gente de todos os partidos políticos porque não é uma agremiação que vá determinar características morais e éticas. Os partidos são constituídos de pessoas e pessoas têm suas unicidades e por isso mesmo são diferentes. Por esta razão não gosto de grupos porque não acredito em grupos porque grupos têm a diversidade. Nos camarotes assistimos acusações, provas e defesas dos envolvidos. Encanta, a mim pelo menos, a retórica, a dialética, a maiuêtica, a técnica sofismática das palavras, tão cheias de sentido que sempre deu vontade de a gente ser advogado. A argumentação pausada dá um grau de justiça e essa deveria pairar sobre a decisão subjetiva daquilo que é certo ou errado. 

A sociedade move-se por moral e moral é costume e se a moral está impregnada vira ética. Numa sociedade de ladrões, e nessa a moral ou o costume vigente é roubar, aquele não rouba é imoral e talvez até antiético. O Dr Levandovsky luta praticamente sozinho na defesa de Zé Dirceu, não sei se porque acredita na inocência ou na insuficiência de provas ou porque tem laços de amizade com o mesmo. Até acredito que o Dr. acredite na inocência de Zé Dirceu. Ele, o Dr é assim e não o culpo porque tenho essa característica comum, a de acreditar nas pessoas até que elas se mostrem claramente que não são dignas de confiança. Fui assim, meio tolo ou bem tolo, desde sempre e provavelmente morrerei com essa herança, vinda de meu pai, aquele que acreditava que todas as pessoas tinham um lado bom e que esse deveria ser valorizado.

Tive uma empresa chamada Samur e empregamos mais de cem pessoas, muitas delas são gente de qualidade superior, bem aquilo que é fundamental prá quem trabalha com a saúde dos outros. Algumas eu julgava que tinham valores inestimáveis. Quando a gente vendeu o serviço eu descobri que o valor inestimável era engano meu, erro de percepção. Sim, as pessoas tinham valor e era estimado, as pessoas tinham preço e o preço estava estampado ali, nas causas trabalhistas. Às vezes dizia: cara, descobri quanto tu vales, tu vales vinte ou trinta mil. Ainda assim, mesmo acionado judicialmente, ainda eu era capaz de conversar com os que me acionaram de modo descontraído, em nome dos velhos tempos.

Não posso achar muita culpa no comportamento do Dr Levandovsky por acreditar no cara que quase todos acreditam ser bandido. Talvez o Dr veja-o com a ternura que os outros não percebam, talvez o Dr seja daqueles que acreditam na máxima que diz que “é preciso saber discernir a verdade da mentira, mesmo que a mentira venha endossada por todas as vozes do mundo”. O Dr está ali, há o cadáver, há os cúmplices, há o objeto do crime, mas não se consegue clarear o assassino. Há quem acredite que nem houve crime. Há quem acredite que esse desvio de dinheiro público é crônico, é tácito, é deliberado porque é cultural: políticos roubariam. E se isso é mania, é costume, então é moral. Dessa forma estaríamos fantasiando e estabelecendo relações midiáticas, apenas e tão somente para atrapalhar os interessados nas eleições desse fim-de-semana. Talvez não dê em nada, talvez dê cadeia mesmo que ainda uma vez um inocente tipo Zé Dirceu vá preso, coisas de folhetim, coisas tão distantes e um país que sempre navegou em impunidades, principalmente para aqueles que dispõem de dinheiro, mesmo que obtido de maneira ilícita. Ser doutor é coisa muito séria, nem todos nasceram para sê-lo.


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