OPINIÃO

Sobre perplexidades e certezas

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Veríssimo escreveu, certa feita, que aos quarenta anos perdemos a sensação da perplexidade e nada mais seria estranho.  Um matuto mastigava um naco de torresmo e ouvia maravilhas discorridas de um estudado sobre tecnologias e viagens interplanetárias. O matuto ouviu pacientemente e sem franzir o cenho declarou: depois que inventaram a máquina de “debuiá” milho não duvido mais de nada. Bem, o circo de horrores que atinge os poderes máximos de nossa república não estarrece a todos porque é do protagonismo do homem; e o homem é homem, menino é menino, macaco é macaco e não é santo; é falível e erra por humano que é, e é humano, demasiado humano. O que estarrece e causa perplexidade é a inércia da população que a tudo assiste anestesiada. Meirelles acena com novos impostos, alguns dos mais notórios gatunos ainda estão à solta, os beneficiados dos saques das estatais parecem receber o manto protetor de quem deveria zelar pela aplicação das leis. Vemos um desfile de egos inflados empulhando as pessoas comuns, como nós, que estamos prestes a ser assaltados novamente, como a todo ano, no final de março-abril quando entregaremos as declarações do imposto de renda. 

 

Além da perplexidade perdemos o sentimento da certeza. Ah, aquelas certezas que tínhamos na adolescência: amor eterno, amizades eternas, respeito infinito, solidariedade, humanidade e que com o tempo as coisas, todas elas, iriam melhorar. Eu tinha certeza de que o mundo era dividido assim: o mundo das formas (externo) e das ideias (o mundo de dentro da minha cabeça). Assim, então, para um cronista que se atreve semanalmente a invadir os lares das pessoas, o que deveria ser importante escrever?  Críticas políticas-sociais ou escrever impressões para aquilo que habita o nosso melhor e que é manifestado quando, por exemplo, sentamos à mesa de um bar com os amigos para falarmos dos bons tempos, aqueles em que nossas almas não estavam contaminadas pela realidade das iniquidades que nos conduzem ao que somos – seres contemplativos mesmo quando somos açoitados por “essa gente” detentoras dos poderes que delegamos e sobre as quais parece não termos força para arriar?

 

Poderia escrever sobre a carga tributária no Brasil e mundo; sobre os vazamentos da Lava Jato e as pérolas de Gilmar Mendes; sobre Janot e o segredo de justiça; sobre o porque de Temer não estar sendo investigado; sobre e a reforma trabalhista; sobre a reforma previdenciária e aposentadoria. Li bastante sobre isso mas, jornalistas bacanas especializados esmiúçam melhor  mas, poderiam alguns ser menos ideológicos-partidários e sectários. Então, melhor tergiversar sobre a condição humana e sobre o que nos assombra porque está mais perto do que imaginamos.

 

Um cara é morto num bar do centro, bar frequentado pelos nossos filhos tal qual aconteceu no bar Vereda Tropical em 1983 na Moron, lembram? O pessoal do BOE foi deslocado para o policiamento da capital, já que por aqui a coisa está tranquila; o aeroporto está daquele jeito; o desemprego assombra; o nosso EC Passo Fundo encabula os torcedores com performance nunca vista em que recebe um milhão de reais da federação para vencer um entre oito jogos; é o leite, e´ a carne e é o que falamos à boca pequena quase em sussurros.

 

Perplexidade é sobre a inércia do povo ordeiro e sonhador; e a certeza é que da minha geração  nada sairá, além de gritinhos esparsos e discursos vazios. Serão os nossos filhos que farão um país aprazível, país capaz até de acolher a senilidade de nossos corpos e mentes mesmo que não mereçamos.

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