OPINIÃO

Toco cru...

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· 2 min de leitura

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Alguém escreveu e, achei interessante que, as nossas fases de vida podem ser classificadas tal como as estações do ano: primavera (das cores, das flores, das alegrias), verão (da força, da volúpia, dos hormônios), outono (da sisudez, dos compromissos com os filhos, do medo de ser despedido) e inverno (quando invariavelmente somos abandonados e ganhamos o Alzheimer). Boa parte de nós vive cada estação de forma fechada ou compartimentada, sem visitar outra. Alguns de nós, onde me incluo, vive visitando uma e outra enquanto o Alzheimer não vem. Vejo e ouço coisas - tipo trinta anos essa noite - e começo a perceber que quem é inquieto como eu quer, na verdade, buscar o autoconhecimento ou pelo menos tentar encontrar um significado, se não na existência, pelo menos nos atos que praticamos ou nos pensamentos que pensamos. Deve existir um nexo, nossas vidas não devem ser tão ao acaso assim. Então, o signatário viajando entre uma estação e outra se emociona com singelos acontecimentos na TV, busca a alegria das músicas sem se descuidar dos deveres de quem tem responsabilidades com os filhos. Apenas não visita o inverno do futuro, deixa ele vir se o destino estiver assim traçado.

Recebi ontem três livros que recomendo aos inquietos: Antecipe o Inevitável, de Frederico Porto que serve a qualquer profissão; Teletema , de Guilherme Bryan e Vincent Villari e As Sete Vidas de Nelson Motta. Esses dois últimos para completar a leitura de Noites Tropicais, também de Nelson Motta e porque, romântico e vileiro como tenho orgulho de autodesignar, minha vida foi marcada indelevelmente pela TV e pelas novelas. E delas vivi e extraí trilhas sonoras para quase todas as minhas vivências. Gosto da provocação perguntando: onde estava você em 1968 ou outro ano qualquer e canto um pedacinho de uma música qualquer com a minha sofrível voz. Talvez isso faça meu interlocutor voar ou permanecer, pela comiseração ou pela lembrança. Talvez, descubra tudo o que sou ou o que deveria ter sido visitando estações das quais jamais saí.

Descobri a música que marcou o fim da Jovem Guarda - Sentado à Beira do Caminho - quando Roberto Carlos voltou vitorioso do Festival de San Remo, afinadíssimo em Canzone per Te; descobri que quando alguém ía sair para fumar um baseado dizia: vou ver Cristina. Descobri o encanto musical de João Gilberto e porque Flavio Cavalcanti era o que era. As músicas de carnaval, quando havia os grandes bailes de salão eram escrachadas e os autores diziam o que queriam nas entrelinhas para driblar a censura. Flávio acabou por proibir a comercialização da música que dá título a essa crônica porque achou ofensa à moral da tradicional família brasileira: toco cru pegando fogo.

Sugiro a permanente busca das explicações para os nossos impulsos, sugiro a busca de nossas almas, sugiro a busca de autoconhecimento e o não-abandono de nossas essências. E toco cru pegando fogo é só uma música, não é curiosidade.

 

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