Eduardo Otto Wentz, o empresário que transformou a Independência em referencial da noite passo-fundense

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Na manhã de quinta-feira, 20 de agosto, a Independência perdeu aquele que deu vida a mais badalada rua de Passo Fundo. Após um mês de hospitalização, o Edu do Boka não resistiu às consequências da Covid-19 e finalizou sua jornada. Foram 69 anos de vida, dos quais 48 dedicados com extremo zelo ao Boka Lanches. Icônico, Eduardo Otto Wentz transformou um lanche em referencial de Passo Fundo. Em um porão (hoje Bokinha) teve início um empreendimento que mudou o cenário noturno de Passo Fundo. A Independência e o Boka cresceram. O Edu ampliou seus negócios e a rua multiplicou o movimento. O Edu do Boka e o famoso xis do Boka assumiram uma condição de cartão de visitas. A repercussão da notícia da sua morte teve a mesma proporção transformadora, com emocionantes manifestações pelas redes sociais. À tarde, em cerimonial adaptado à pandemia, a despedida foi rápida e antecedeu a sua cremação no Memorial Vera Cruz. Eduardo deixa a esposa Isabel Cristina Carvalho e os filhos David, Roberto e Luã.


Eduardo Otto Wentz

Edu nasceu em Panambi em 26 de outubro de 1950, filho de Waldemar Wentz e Nelly Petry Wentz. Aos sete anos de idade, em 1957, chegou a Passo Fundo. Estudou no Colégio Protásio Alves, Escola Estadual Nicolau de Araújo Vergueiro - EENAV, Instituto Educacional - IE e Universidade de Passo Fundo - UPF. Foi presidente do GEENAV- Grêmio Estudantil da EENAV, quando sediou ao final dos anos 1960 a Olimpíada Estadual, sendo a entidade anfitriã responsável pela organização das disputas, alojamento e alimentação para mais de 300 estudantes-atletas vindos de todo Rio Grande do Sul.


Esportes e Grêmio

Desde jovem, Edu manteve forte vínculo com o esporte. Participou de muitas modalidades esportivas em competições estudantis, amadoras e oficiais. Disputou olimpíadas estudantis competindo por Passo Fundo em níveis estadual e nacional. Também integrou por um período o elenco de futsal do Grêmio Náutico Capinguí. Cursou até o último ano a Faculdade de Educação Física da UPF, que acabou não concluindo pela incompatibilidade de horários. Por muitos anos participou das disputas internas de futebol sete nos clubes Comercial e Caixeiral-Campestre. Como incentivador do esporte, em 1993, foi um dos idealizadores do o Campeonato Limão Brahma, evento que reascendeu o futsal em Passo Fundo. Mas a sua paixão pelo esporte vestia azul, preto e branco, na condição de um dos mais conhecidos gremistas de Passo Fundo.


O Boka

Em outubro de 1972, com um grupo de amigos, abriu as portas de um pequeno estabelecimento na Rua Independência, oferecendo um lanche que estava na moda: o hambúrguer. Era o início do Boka Lanches, em acanhado, porém acolhedor espaço e com um atendimento direto nos automóveis. Para enfrentar um concorrente qualificado da época, que recebia um pão produzido em Curitiba, teve que inovar e também buscar um produto diferenciado. A formulação do pão contou com a experiência do senhor Bruno Justi, então proprietário da Padaria Cruzeiro. Item importante que somado a outros detalhes deu fama ao xis do Boka. Além da qualidade do lanche, Edu usou outras estratégias para conquistar e multiplicar a sua clientela. Uma delas foi o horário diferenciado de atendimento. Às 18 horas, enquanto os outros fechavam, ele abria. E fechava a casa no amanhecer, quando os outros abriam as portas. Os produtos utilizados sempre mantiveram um padrão, respeitando origem, marca e apresentação. O manuseio da carne para elaboração própria dos hambúrgueres é um dos detalhes para garantir essa qualidade. O mesmo ocorre em relação à famosa maionese do Boka, um dos itens mais apreciados que é um referencial gastronômico de Passo Fundo.


Um novo Boka

O Boka ficou pequeno para tanta gente. Então Edu adquiriu um restaurante no outro lado da Independência, o Frangos & Fritas, quando diversificou o cardápio. Foi o ensaio que resultou na estrutura maior e mais arrojada: um novo Boka. Em 1993 surgiu o Boka que hoje conhecemos, enquanto no outro lado da Independência o velho Boka ganhou a carinhosa nomenclatura de Bokinha. O Boka chegou moderno e foi inaugurado em 26 de outubro de 1993, data em que Edu completava 43 anos idade. Não teve tempo sequer para comemorar. Se o Boka já monopolizava o movimento da cidade, imaginem com uma casa nova. Na noite em que abriu as portas lotou em poucos minutos. E a Independência literalmente parou. Era tanta gente que, por algumas horas, não passava sequer um veículos, pois as duas pistas da rua foram tomadas pelo público.


Referencial

O Boka passou a ser ponto obrigatório para visitantes ilustres, participantes de seminários ou de eventos como as Jornadas Literárias, Festival Internacional de Folclore e Expodireto. Virou referencial de Passo Fundo. Motivou charges, chegou às tirinhas do Radicci, páginas de jornal e reportagens de televisão. No centro do país, o xis do Boka teve várias referências onde até foi citado como “o melhor do mundo”. Com tamanho sucesso o novo Boka também ficou pequeno, foi ampliado e recebeu melhorias para oferecer cada vez mais conforto. O Bokinha também ganhou casa nova. A clientela é imensa. Edu tinha muito orgulho disso. “São clientes de todas as idades, pois numa noite passam pela casa três gerações de uma mesma família”, contava.


Trabalho e mais trabalho

O Edu do Boka era pura dedicação ao trabalho. Um trabalho sem horário em rotina recheada de imprevistos. Da aquisição das mercadorias ao produto que chega às mesas, são muitas etapas. E cada etapa necessita de atenção especial para manter aquilo que o exigente Eduardo Otto Wentz mais prezava: a qualidade. Da cozinha à burocracia, do balcão às mesas são muitas atividades. Mesmo assim, à tardinha, era cena comum ver o Edu varrendo a calçada e até mesmo a rua, para garantir um ambiente acolhedor aos seus clientes. Cuidados dentro e fora da casa. “É preciso ter uma maneira de sempre salvaguardar o cliente. É preciso ser o veludo entre os cristais, nunca criar atritos e sempre proteger”, dizia para interpretar a maneira como conduzia o estabelecimento.


Espelho da sociedade

Nesses 48 anos a história do Boka se confunde com a história da cidade. Muito da vida de Passo Fundo passou e passa pelo Boka. Edu conviveu com personalidades e personagens da cidade. Anos recheados de amizades e muitas histórias. E histórias divertidas não faltam, em fatia de alegria no bolo do exaustivo trabalho, tendo por cenário o luar das madrugadas passo-fundenses.

Tantos nomes, romances, brincadeiras e histórias que passam de geração para geração. É um desfile da sociedade passo-fundense, um espelho do nosso próprio meio. Um espetáculo da vida no palco do Boka, sob a direção artística do incansável Edu que agora descansa. A Independência perdeu o seu brilho e a cidade entristeceu.


Aprendizados e ensinamentos

"Uma vez, aprendi com um antigo comerciante de Passo Fundo, seu Teodoro Lago, que era dono de uma churrascaria, o seguinte: se um passarinho está habituado a todo dia tomar água em uma mesma fonte, se um dia ele chegar e não houver água, ele vai procurar outra fonte e talvez não volte mais lá. Então, você tem que estar aberto todo dia." Eduardo Otto Wentz




Talento para cultivar amigos

Impossibilitados de prestarem a última homenagem no velório, em razão dos protocolos de distanciamento, amigos que conviveram e dividiram muitas histórias ao lado de Edu, lembram das diversas facetas que o tornaram uma das pessoas mais conhecidas e admiradas em Passo Fundo.


Alcir Francisco Biazi, empresário

Amigo de Eduardo Wentz desde os anos 1980, Alcir Francisco Biazi relembra com o carinho o período em que se conheceram, quando o futebol era o principal elo entre os dois. “Nós nos conhecemos porque começamos a jogar futebol juntos. Um tempo depois, eu passei a organizar campeonatos e o Edu, por gostar muito de futebol, estava sempre conosco. Mesmo quando não jogava, ele era uma das pessoas que mais nos apoiava e patrocinava nossas partidas”, resgata com carinho.

A aproximação intermediada pelo esporte resultou, poucos anos depois, na divisão de um mesmo teto. Alcir conta que ele e o amigo Eduardo moraram juntos por seis anos, em um apartamento de dois quartos, ao lado do Bokinha. Neste período, não se recorda de uma única vez em que os dois tenham brigado. “Sempre fomos muito amigos e continuamos mesmo depois que eu casei e saí do apartamento. Ficávamos até amanhecer conversando. E eu me espelhei muito nele na minha vida, sempre falo isso. Porque além de ser uma pessoa sensacional, divertida, brincalhona, ele era uma das pessoas mais trabalhadoras de Passo Fundo. Não saía do Boka, estava sempre em função daquele lugar”, descreve.

A amizade cultivada através dos anos, no entanto, não pôde contar com uma despedida apropriada. “Eu sempre procurava notícias dele, para saber se estava melhor. Um dia, enquanto ele estava no hospital, eu liguei e disse ‘logo, logo sairemos dessa’. Infelizmente, não aconteceu. Recebi a notícia com muita tristeza, mas tenho certeza que ele vai ficar guardado no meu coração como a pessoa extremamente generosa que sempre foi”.


Antônio Clair de Almeida - Toninho, ex-gerente do Bokinha

Conhecido especialmente pelo seu trabalho à frente do Boka, Eduardo Wentz, naturalmente, cultivou muitas de suas amizades tendo a lanchonete como pano de fundo. Um de seus funcionários mais antigos, que entre idas e vindas acumula mais de quatro décadas de trabalho e cerca de 20 anos como gerente nos empreendimentos de Edu, Antônio Clair de Almeida compartilha a importância que o empresário teve em sua trajetória de vida, pessoal e profissionalmente.

Os dois se conheceram em meados de 1970. Toninho recorda que, antes de trabalhar para o empresário, era Edu quem ia até o bar onde ele trabalhava. “Eu trabalhava na noite, em um bar no Centro de Passo Fundo, e o Edu sempre ia nesse bar tomar um whisky depois que o Bokinha fechava. Um tempo depois, esse bar acabou fechando e eu estava no ramo, procurando emprego. Falei com alguém que trabalha no Bokinha e essa pessoa me encorajou a ir falar com o Edu. Eu fui, pedi emprego e no dia seguinte ele já me chamou para começar a trabalhar. Como eu era piá e não queria mais trabalhar no fim de semana, acabei pedindo demissão umas cinco ou seis vezes, mas o Edu sempre vinha atrás de mim e eu acabava voltando pra lá. Acabei ficando no Boka até me aposentar e, mesmo depois da aposentadoria, continuo trabalhando lá até hoje. Assim pretendo continuar, fazendo o que puder para ajudar a dar continuidade à ideia dele”, relata.

Por não ter estudos, Toninho conta que considera como cruciais as portas que Edu abriu para ele. “Ele me ensinou e me ajudou muito. É uma das pessoas que eu mais gosto na minha vida, alguém por quem eu tenho muita estima. Quando cair a ficha da perda dele, não sei como será”, admite. “Eu acredito que ele foi para Passo Fundo uma perda enorme. Da mesma forma que ele me ajudou, ele também empregou muitas outras pessoas. Era alguém que sempre fez o certo e nunca deixou brechas para que alguém pudesse falar mal dele. Tenho certeza que ele se vai como um homem honrado”.


Roberto Toson, diretor comercial

Outra figura que dividiu com Eduardo décadas de amizade é Roberto Toson. Amigo do empresário há cerca de 40 anos, graças às partidas de futebol que dividiam no antigo Centro Social da Santa Terezinha, Beto conta que os laços foram se estreitando de maneira natural. “Nós fomos cultivando essa amizade no clube, mas na verdade eu sempre frequentei o Bokinha desde a minha juventude. Então a amizade foi crescendo assim, entre os jogos e as idas ao Bokinha. E eu era o único amigo que não chamava ele de Edu e sim de Otto. Tanto que quando uma pessoa dizia para ele que tinha alguém procurando o Otto, ele sabia que era eu, porque só eu e o pai dele chamávamos ele assim”, conta.

As idas ao Boka, conforme conta Beto, passaram a ser um costume compartilhado entre as gerações da família. “Meus filhos também sempre frequentaram o Boka. Então o tempo foi passando, mas essa amizade se manteve. Lembro das vezes em que ficamos bebendo e conversando até de madrugada; de ele andando com uma tripa de salame para servir para os amigos; das canastras... São tantas lembranças que é difícil falar. E quero lembrar dele assim. Não vou nem falar do lado empreendedor dele, porque esse todos já conhecem. Eu quero lembrar dele pelo amigo e parceiro que ele era. Uma pessoa muito humilde, de poucos amigos, mas muita amizade. Posso dizer que perdi um irmão que a vida me deu. Vai deixar uma merca enorme no coração de todos que puderam conhecer o Otto”.


Luciano Azevedo, prefeito de Passo Fundo

Nas redes sociais, o prefeito Luciano Azevedo também demonstrou pesar pela partida de um dos mais marcantes empresários da cidade. “A morte do Edu, do Boka, é a perda de um pedaço da alma da nossa cidade. Nos últimos 40 anos o Edu viu a cidade mudar. No seu entorno, negócios abriram e fecharam, casais se formaram, amigos comemoraram, pessoas se conhecerem ou se aproximaram. Edu deu empregos, exemplos, conselhos e ajudou muita gente, em silêncio. Uma parte da memória da cidade se vai com ele. Obrigado por tudo! Vai fazer falta! Muita falta!”, escreveu.


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