OPINIÃO

A Casa de Salomão

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Francis Bacon (1561-1624), com a publicação, postumamente, em 1626, da obra Nova Atlantis (Nova Atlântida), ao descrever a cidade ideal dos sábios, localizada na utópica ilha de Bensalém, e a fictícia instituição Casa de Salomão, na prática, vaticinou o modelo de organização de comunidade científica vigente nos tempos atuais.


O pragmatismo de Bacon, dando ênfase na experimentação e na observação, sob a perspectiva do método indutivo e a opção pela cooperação embasada na divisão racional do trabalho, colocou (ou intencionou colocar), via a famosa assertiva “conhecimento é poder”, a ciência a serviço do bem-estar da sociedade e da felicidade humana (ou parte dela, pelo menos), conferindo-lhe o domínio sobre a natureza. Fundamentou uma prática cientifica indutiva e experimental; de natureza utilitária e de base tecnológica; além de orientada para a busca de benefícios em prol da humanidade. Aliás, não é outra coisa que, hoje, as ditas ciências empíricas, a exemplo das agrárias e da saúde, em tese, praticam e buscam.


Francis Bacon, cuja obra Nova Atlantis serviu de inspiração para a fundação, em 1660, da mais prestimosa sociedade cientifica do Reino Unido, a Royal Society, seria reconhecido ad aeternum como o seu patrono. Para Bacon, não bastava uma sociedade ter um bom governo. Além de bom, tinha que ser um governo que incentivava a atividade científica visando ao bem comum.


Na Casa de Salomão, as especialidades e as funções das carreiras acadêmicas, exercidas pelos ofícios, são similares às encontradas em qualquer instituição científica atual, seja pública ou privada. Entre os ofícios, o dos “mercadores da luz” (merchants of light, na expressão original de Bacon), que, em número de 12, a cada dois anos, eram enviados, em dois navios, numa expedição pelo mundo, para recolher exemplares de livros e prospectar invenções e descobertas realizadas em países estrangeiros. Depois, seguiam os demais ofícios, sempre com três pessoas: os depredadores (recolhiam informações dos livros trazidos pelos mercadores da luz); os homens do mistério (reuniam o conhecimento sem aplicação tecnológica imediata); os pioneiros ou mineiros (buscavam outros conhecimentos úteis, além dos conhecidos); os compiladores (avaliavam e organizavam os trabalhos dos quatro cargos anteriores); os doadores ou benfeitores (buscavam extrair alguma utilidade para a vida humana a partir do trabalho feito pelos grupos anteriores); os luminares (orientavam os novos experimentos); os inoculadores (realizavam os experimentos sugeridos pelos luminares); e os intérpretes da natureza (sintetizavam as descobertas anteriores e faziam as competentes generalizações). A contrapartida desses papéis, nas atuais instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), pode ser encontrada, com relativa facilidade, por qualquer pessoa com o mínimo de familiaridade com o ambiente acadêmico de qualquer país do mundo. Então: viva Bacon!


Vivemos tempos de conectividade global. Então vale refletir: o modelo da Casa de Salomão, tal qual foi proposto por Bacon em 1626, mais ainda vigente, veladamente, nas organizações de CT&I, tem sustentabilidade ou pode migrar totalmente para o ciberespaço e funcionar disperso em nuvens pelo mundo? Seria a nova era da “circulação de cérebros” em vez da “fuga de cérebros”, representada pela migração dos melhores cientistas para as nações mais ricas em busca de recursos e construção de carreiras?


O mundo está pronto para trabalhar em rede e aproveitar as melhores ideias de onde quer que elas venham surgir. A era da mobilidade global, certamente, pode potencializar a inovação em ciência e tecnologia. Mas, as pessoas não necessariamente estão dispostas a permanecer ligadas apenas no ciberespaço e, por isso, optem por emigrarem para os chamados viveiros de alta tecnologia, caso do Vale do Silício nos EUA. O modelo da Casa de Salomão de Bacon, porém necessariamente com reformulações, ainda pode persistir por mais alguns anos nesse começo de século XXI.

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