OPINIÃO

Aquele abraço

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No dia 12 de fevereiro de 1970, final da manhã, Gilberto Gil caminhava pela avenida Rio Branco no Rio, que estava suja pelos confetes, serpentinas e tudo o mais porque era quarta de cinzas. Temporariamente liberto, preso que fora em 22 de dezembro de 1969, juntamente com Caetano por se manifestar contra o governo militar, sentiu muito a privação. Brotou-lhe naquela manhã Aquele Abraço (o Rio de Janeiro continua lindo...) e o abraço poderia se reportar ao inesquecível abraço que levou da polícia. Genial, há pouco havia musicado a letra de José Carlos Capinan – Soy loco por Tì America – composta exatamente no dia em que chegou a notícia da morte de Che. Capinan, Gil, Caetano, Zé Kéti entre tantos moravam no Solar da Fossa, em Botafogo. Aquele 8 de outubro mereceu bebida, cigarro e outras coisitas. Capinan, baiano, em parceria com Edu Lobo tinham produzido Ponteio e era um cara tipo Cassiano que emprestou suas músicas para Tim maia brilhar. A gente, que nada sabia, amava a boina e a frase sobre endurecimento sem perder a ternura, de Che – guerrilheiro, aventureiro, médico – a gente nada sabia sobre a ditadura cubana e nem de seus métodos de “desestimulação” às ideais contrárias ao ideal socialista. A gente pensava que a ilha era utópica, igual à obra de Thomas Morus. Morus descreveu um não-lugar (u-topia) onde tudo era respeitado e tudo o que não era respeitado era severamente punido. Morus bebeu água na cacimba de Platão, em A República. Cuba seria isso, onde tudo deslizaria facilmente, um lugar de ser feliz e porque não estendê-la para cá? Usaríamos boinas, falaríamos castelhano, dividiríamos tudo e repassaríamos ao menos favorecidos, mesmo que não trabalhassem. A gente seria praticamente “obrigado a ser feliz” como discorre Chico em João e Maria. Correríamos nossos militares e trocaríamos por outros. A maioria de nós não desejava revoluções, mortes e o escambau; queria-se simplesmente a preservação dos direitos humanos, liberdade de ir e vir, de emitir opiniões, liberdade de escolha.
O carnaval de 1970 foi por mim vivido nas tardes de domingo e terças porque eu tinha 12 anos. E era em Cruz Alta, no Grêmio dos Subtenentes e Sargentos, o clube dos militares, tal qual meu pai e seus amigos. No Rio, ano da Portela, a coisa fervia: Bandeira Branca (Max Nunes-Laercio Alves) na voz de Dalva, presença de Janis Joplin que tinha vindo para tentar se desintoxicar da heroína.
Em 12 de março abandonei Cruz Alta e vim morar na Vila Vera Cruz, travessa Cel. Sampaio (atual Arcildo Leidens). Gostava de Bandeira Branca, mas apreciava Ninguém Tasca (Pedrinho Rodrigues), continuei brincando carnaval infantil até atingir a idade que me permitisse ir aos sonhados bailes do Juvenil vigiado pelo sapateiro Tiezerin, Caixeiral do Serpa e Comercial de Berthier.
Gil anda doente, tem insuficiência renal, interna-se demais para meu gosto. Ao longo desses anos brindou a todos com magias musicais; diria que é tão insubstituível quanto tantos outros - Caetano, Vinícius, Tom, Chico, Marcos Valle... –O Rio de janeiro continua lindo mas, sinto saudade do Xodó, da Refazenda, da Geleia Geral; sinto saudade de Caymi, Bahia-Rio Vermelho, de Baiaco e Sapatão; sinto saudade de Raul e Paulinho e Baiano, saudade de meu irmão Caio que mora em Salvador. Que merda essa coisa de idade em que a gente sente saudade de tudo. Gil, faz o seguinte, cara: não vá embora, a gente vai chorar prá caralho!
Para não chorar, uma frase para sorrir do chargista francês Siné, em Ipanema, diante do humorista Jaguar há quase sessenta anos – se todos os velhos do mundo se dessem as mãos...seria ridículo!

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