De estação férrea a complexo gastronômico e cultural

Um dos principais patrimônios históricos de Passo Fundo, a Antiga Estação Férrea da Gare, abriga agora um complexo gastronômico com 11 restaurantes e uma galeria de artes visuais

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· 7 min de leitura

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No entorno dos trilhos que cortavam uma ainda jovem e pouco desenvolvida Passo Fundo, a Estação Férrea da Gare serviu de palco para uma centena de histórias que se misturavam entre os embarques e desembarques dos trens. Hoje, passados 121 anos desde a inauguração da Via Férrea que ligava Santa Maria a Passo Fundo, e pouco mais de 40 anos desde a desativação da Estação Ferroviária do município, novas histórias começam a ser construídas nas mesas dos onze restaurantes que formam a recém-inaugurada Gare Estação Gastronômica e nos cavaletes que compõem a Galeria Estação da Arte. Instalado exatamente no mesmo prédio onde historicamente funcionou a antiga estação, desde a noite dessa sexta-feira (19) o complexo gastronômico e cultural está com as portas abertas para receber a comunidade.

 

Localizado no coração da cidade, na Avenida Sete de Setembro, e tombado como patrimônio histórico e cultural de Passo Fundo, o prédio foi construído entre 1898 e 1920 para, originalmente, abrigar a estação de passageiros, o telégrafo e os escritórios pertencentes ao sistema de transporte ferroviário do município. Como resgata o mestre em História Ney Eduardo Possapp d’Avila, a edificação, que hoje é objeto de concessão à iniciativa privada, era somente uma unidade de outras diversas que formavam a Gare Ferroviária, conhecida, hoje, como Parque da Gare. Além da estação, conforme D’Ávila cita, o complexo sediava ainda armazéns, parque de manobras e residências de funcionários.

 

Foi especialmente a partir deste sistema ferroviário que Passo Fundo se desenvolveu. Como cita o mestre em História, a criação da Estrada de Ferro contribuiu como um elemento de suma importância para o desenvolvimento sócio-econômico de Passo Fundo. “A Via Férrea, inaugurada em 1898, garantiu que a cidade consolidasse sua posição de Polo Regional. Após a inauguração da ferrovia e sua subsequente ligação a São Paulo, o que ocorreu na década de 1910, a cidade de Passo Fundo viveu uma nova e significativa fase de desenvolvimento sócio-econômico. A Gare e Estação de Passageiros poderia haver sido localizada em outro local. O mais importante é a própria Ferrovia. Contudo, a localização da Gare e Estação de Passageiros marcou de forma indelével o desenvolvimento urbanístico da cidade”, admite. Em volta da estação foi construída, por exemplo, uma das principais vias da cidade e, ao longo dela, importantes iniciativas para o comércio, o agronegócio e a indústria passo-fundense.

 

A movimentação na antiga Estação Férrea cessou quando, em 1978, inaugurou-se uma nova ferrovia entre Passo Fundo e Porto Alegre. Concomitantemente, a Rede Federal decidiu transferir a estação para onde ela segue até hoje: no Bairro Petrópolis. Com isso, a Estação Ferroviária e a Gare acabaram desativadas e, dois anos depois, os trilhos em desuso que serpenteavam por dentro da cidade foram retirados, conforme resgata D’Ávila. “ As instalações [da Gare] foram abandonadas, sendo a seguir encampadas pela Prefeitura Municipal. O prédio objeto da concessão foi cedido à Associação dos Produtores que transformou o local em Feira do Produtor. Tendo sido construído o atual prédio de Feira do Produtor, para lá a feira transferiu-se, ficando o prédio da antiga Estação Ferroviária, já bastante degradado, deixado sem uso. Ele foi a seguir cedido para a Galeria de Artes com apoio da Secretaria Municipal de Cultura”.

 

A criação do complexo gastronômico e cultural

 

Em 2017, depois de servir por mais de dois anos como a sede da Galeria Estação da Arte e do coletivo Confraria das Artes, a antiga Estação Férrea da Gare foi objeto de um edital de licitação. Embora seja tombado como patrimônio por meio da Lei n° 2671, de 28 de agosto de 1991, o projeto de lei do Executivo de n° 5242/2017 viabilizou que o espaço fosse transformado em um local gastronômico e cultural, cedendo a concessão onerosa de uso do imóvel à iniciativa privada pelo período de 10 anos. Quem venceu a concorrência pública foi a Fazenda Vento Norte, de Barros Cassal, que ficou responsável por revitalizar o espaço. “A ideia era gerar ali atividades produtivas. Emprego e renda para a comunidade. Aproveitamos o fato de que o espaço fica no coração da cidade, em uma área muito movimentada e de fácil acesso à comunidade, para propor isso como alternativa de negócio. A iniciativa privada compreendeu e apostou na viabilidade desse projeto”, esclarece o prefeito Luciano Azevedo.

 

Durante meses de obra, o prédio da antiga viação férrea passou pela reforma e modernização interna. Na estrutura externa, no entanto, não perdeu suas características arquitetônicas originais – o respeito ao caráter histórico e cultural da edificação era, inclusive, uma das exigências do contrato concessão fixado pelo Município. Arquiteto e proprietário da Fazenda Vento Norte, Eduardo Dutra conta em tom de orgulho as transformações executadas pelo projeto de revitalização do edifício. “Eu acredito que para um arquiteto não existe nada mais importante que preservar justamente esse patrimônio em uma cidade. A história é muito importante e a gente tem sempre que preservar com muito cuidado prédios que são de caráter histórico. Nós tivemos um cuidado especial com a Gare porque ela tem um contexto diferenciado dentro do município. A gente tentou preservar ao máximo tudo que era tombado e tudo que existia dentro do prédio de relevante. Ao invés de esconder muitas coisas, por exemplo, a gente mostrou cada vez mais elas. Externamente, fizemos um estudo junto com o corpo técnico da Prefeitura para encontrar as melhores cores e a melhor combinação. Como é um prédio construído em pelo menos três etapas, conforme buscamos historicamente, a gente precisava ter uma harmonia na fachada”, explica.

 

Dutra compartilha, ainda, os esforços da iniciativa. Segundo ele, cem por cento do prédio foi refeito. “Nosso investimento aqui foi em recuperar o que existe de histórico e, infelizmente, ter que refazer muita coisa, porque o que a gente encontrou depois de fazer uma limpa no prédio foi uma situação de, pelo menos, três construções distintas. Também refizemos 100% da estrutura por causa de segurança ao público, como na questão elétrica e hidráulica”. O investimento total, de acordo com a empresa vencedora do edital, foi de aproximadamente R$ 1 milhão. A intenção é gerar cerca de 100 empregos diretos.

 

Variedade gastronômica

 

Com mais de 600 metros quadrados, a Gare Estação Gastronômica abriga 11 opções de restaurantes, que chamam a atenção pela sua variedade. Não somente na questão das inúmeras opções de pratos – que prometem agradar todos os gostos –, mas também na arquitetura de cada quiosque. Já no espaço como um todo, as características que Dutra tentou destacar em seu projeto arquitetônico foram o artesanato, a cultura indígena e a natureza, segundo ele. “O público que visita o espaço começa passando pelo Bar da Estação, que é responsável pelos refrigerantes, cervejas e todo o tipo de bebida industrializada. Depois, há o Hukilau, que é de pokes e saladas. O Basilico faz pizzas. O Hasu é especializado em comida oriental. A Drinkeria oferece drinques e vinhos. A Yellow Box traz aos consumidores cervejas artesanais. A Padeira é uma diferenciada panificação, com alimentos preparados com fermentação natural, por exemplo. O BW é o clássico hambúrguer americano. O Paisano apresenta cozinha mexicana. O Pippo, risotos e massas. E o Alabama, carnes especiais. Essas são as onze operações que temos aqui”, apresenta o proprietário.

 

“É uma novidade para Passo Fundo um negócio nessa modelagem. O prédio foi recuperado pelo Poder Público e depois melhorado pela iniciativa privada. Todos os investimentos dessa segunda etapa que está sendo entregue à comunidade são privados. São investimentos elevados. Nós teremos um espaço muito transformado e atrativo, que será realmente algo muito diferente, que Passo Fundo nunca teve”, destaca o prefeito.

 

O funcionamento do espaço nos primeiros 30 dias será de terça-feira a sábado, das 18h às 23h. No segundo mês, funcionará das 11h às 14h e das 18h às 23h.

 

Galeria Estação da Arte

 

A Galeria Estação da Arte, que já havia sido abrigada naquele espaço, retorna agora ao prédio histórico da Estação da Gare de cara nova. Desta vez em área reduzida, o ambiente é composto no conceito high-low, com formas, texturas, cores e épocas que têm contraste entre si. “Há obras de arte de alto valor agregado em composição com elementos simples de baixo custo, contemplando também a sustentabilidade”, indica a artista Lindiara Paz. O espaço público é dedicado à valorização das Artes Visuais, dos artistas locais e de atividades culturais e administrado e coordenado pela Secretaria de Cultura, em parceria com a Setorial de Artes Visuais e Conselho Municipal de Políticas Culturais.

 

Secretário de Cultura do município, Henrique Fonseca destaca a importância da decisão da Prefeitura de, mesmo com a concessão do prédio à iniciativa privada, preservar uma área pública para que a Galeria pudesse, novamente, ter uma sede. “Passo Fundo ganhou um novo espaço cultural, dentro de um lugar público e histórico. A partir dessa iniciativa de fazer um casamento entre a valorização e recuperação desse prédio histórico com a iniciativa privada, a gente estabeleceu um espaço semelhante ao que se encontra nos grandes centros mundiais, onde temos a união entre gastronomia, com vários pontos de operação, e a valorização da arte. As manifestações culturais de Passo Fundo não perderam um espaço, aqui. Elas ganharam um lugar valorizado. A Galeria Estação da Arte vai estar dentro do complexo gastronômico e um espaço complementa o outro. Tudo é cultura, tudo é história. Tanto que várias exposições estarão na Galeria Estação da Arte e outras estarão compondo o espaço da gastronomia. É um espaço que a população deve se apropriar”, salienta.

 

A Galeria Estação da Arte funcionará, nos primeiros meses, de terça a quinta-feira, das 14h às 17h, e de sexta a sábado, das 16h às 20h. A intenção é, nos próximos meses, ampliar o funcionamento também aos domingos. A entrada é gratuita.

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