O 'ouro' da produção agrícola passo-fundense

Considerada durante décadas a variedade mais importante da agricultura gaúcha, trigo teve papel fundamental no desenvolvimento socioeconômico de Passo Fundo

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Canteiros da Avenida Brasil cobertos por plantação de trigo, 1957 (Foto: Revista Machete/Acervo digital IHPF)Canteiros da Avenida Brasil cobertos por plantação de trigo, 1957 (Foto: Revista Machete/Acervo digital IHPF)
Canteiros da Avenida Brasil cobertos por plantação de trigo, 1957 (Foto: Revista Machete/Acervo digital IHPF)

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A imagem da espiga de trigo que estampa o brasão de Passo Fundo, carregando o símbolo que representaria o futuro, denota a importância ocupada pela triticultura na história do município. Embora seja difícil precisar a data de chegada do trigo à região Norte do Rio Grande do Sul, obras como “Rememorações do Nosso Passado” (1949), de Francisco Antonino Xavier e Oliveira, reúnem registros que indicam a existência do cultivo do cereal em Passo Fundo desde a primeira estatística agrícola organizada pela Câmara Municipal, no ano de 1858. Aproximadamente cem anos depois, em 1957, durante a sétima edição da Festa Nacional do Trigo – promovida pelo Município entre um conjunto de eventos que celebravam o centenário de emancipação de Passo Fundo, naquele ano –, era essa mesma cultura que tomava conta dos canteiros centrais de duas das principais avenidas passo-fundenses e ganhava os versos cantados no hino do centenário da cidade.

A cultura do trigo projetou Passo Fundo no cenário nacional (Imagem: Museu Histórico Regional)

Reinando em absoluto nos campos que rodeavam o município, especialmente nos anos 50, a triticultura rendeu a Passo Fundo o título de Capital do Trigo e capitaneou o desenvolvimento agrícola, econômico e social da região. “Eu vejo que a triticultura foi altamente importante no desenvolvimento da região porque foi ela quem trouxe a agricultura para cá. A partir do trigo, surgiram cooperativas, incentivos à pesquisa e a criação de novos implementos. Hoje, temos a soja como a cultura mais importante do Estado, mas quem trouxe todos esses avanços foi o trigo”, pondera Ottoni Rosa Filho, diretor e melhorista da Biotrigo, empresa líder no desenvolvimento genético do trigo na América Latina, com sede em Passo Fundo. 

Assim, pouco a pouco, o aspecto promissor das riquezas do trigo abriu caminho para a chegada de iniciativas como a Embrapa Trigo, a Cooperativa Tritícola de Passo Fundo Ltda. (COPASSO), a Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo, a Associação dos Produtores e Comerciantes de Sementes e Mudas do RS (APASSUL), a Fundação Pró-Sementes de Apoio à Pesquisa e empresas do ramo de melhoramento genético. Dando peso ao nome da cidade, elas atraíam ainda o olhar de investidores externos, que enxergavam em Passo Fundo e, consequentemente, no trigo a imagem do sucesso.

A ciência e a tecnologia a favor do desenvolvimento agrícola

Devido à relevância do município para o cenário da triticultura, nos anos de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas, Passo Fundo foi escolhida para sediar a Estação Experimental do Trigo. A instalação fazia parte de um plano de expansão da pesquisa agrícola no país, com a criação de diversas estações experimentais pelo Governo Federal, via lei nº 470, de 9 de agosto de 1937, cuja finalidade era a de incentivar o cultivo do trigo no Brasil. Pesquisador da Embrapa Trigo desde 1989, Gilberto Cunha resgata que, à época de criação, a sede da estação ficava no distrito de Engenheiro Luiz Englert (hoje pertencente ao município de Sertão). No entanto, devido às limitações de localização e, especialmente, com o deslocamento das lavouras de trigo das áreas de mata para áreas de campo, em 1969, a estação experimental acabou sendo transferida para os arredores da cidade de Passo Fundo, sendo inaugurada em 1972 a “Nova Estação Experimental de Passo Fundo”.

Gilberto Cunha é pesquisador da Embrapa Trigo desde 1989

As instalações da Estação Experimental, localizadas às margens da Rodovia BR 285, km 294, serviriam ainda para sediar, a partir de 28 de outubro de 1974, o Centro Nacional de Pesquisa de Trigo (CNPT), com a “missão de executar e coordenar as atividades de pesquisa em todas as regiões tritícolas do país, objetivando aumentar a produção nacional de trigo”. A escolha de Passo Fundo como sede do Centro, ainda segundo Cunha, foi feito por um grupo de trabalho designado para preparar o anteprojeto de implantação do CNPT. “O grupo cogitou três locais para sediar esse centro de pesquisa: Ponta Grossa, Cruz Alta e Passo Fundo. Após uma série de entrevistas com técnicos que trabalhavam com trigo, a cidade de Passo Fundo foi a escolhida”, explica.

A inauguração do maior centro público de pesquisa do trigo do Brasil promoveria, a partir daí, o surgimento de diversas outras propostas propulsoras do desenvolvimento social e econômico de Passo Fundo e região. Juntas, elas catalisaram forças em prol do desenvolvimento agrícola pautado na inovação tecnológica e alçaram Passo Fundo ao patamar de cidade-referência para a cultura do trigo. Entre os principais marcos vindos no rastro do CNPT, Cunha cita a criação Copasso, da Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo e o desenvolvimento de diversas outras empresas de sementes, que contaram com o apoio do Serviço de Produção de Sementes Básicas da Embrapa e da APASSUL, ajudando na consolidação do Rio Grande do Sul como um estado líder no segmento de produção de sementes no Brasil. “[A Embrapa] também trabalhou ativamente para promover em Passo Fundo um polo industrial na área de mecanização agrícola para o Sistema Plantio Direto. Em melhoramento genético vegetal, ajudou a construir a imagem de Passo Fundo como município de referência por sediar, além da Embrapa, empresas que são elites no setor”, avalia.

Não há dúvidas, conforme o pesquisador, que era o trigo a cultura mais importante da região naquela época. A variedade ganhou outro especial impulso em meados dos anos 1960, quando um amplo programa de correção e sistematização de solos no Rio Grande do Sul, denominado “Operação Tatu”, atuou na correção da fertilidade e da acidez dos solos gaúchos e permitiu que o cultivo do trigo, até então semeado apenas em áreas de mata, fosse expandido para os solos de campo. A mudança estimulada pela operação concretizou-se especialmente em 1970, época na qual nem mesmo a soja, que começava a ganhar cada vez mais espaço nas lavouras gaúchas, era capaz de competir com a triticultura.

Conforme apontam dados oficiais disponíveis nas séries históricas da Emater, enquanto em 1970 a área de soja colhida no Estado era de 871.202 hectares, o trigo ocupava mais de 1,46 milhão de hectares e produzia cerca de 1,44 milhão de toneladas do grão. “O trigo gozava de incentivos governamentais para promover a produção do cereal no país. De certa forma, isso impulsionou o desenvolvimento das principais cooperativas agrícolas no Estado, justificando porque, até bem pouco tempo, a maioria delas trazia a palavra tritícola no nome. E, sem dúvida, a política de incentivo ao trigo também favoreceu a consolidação da soja, via a dobradinha trigo no inverno e soja no verão”, elucida o pesquisador da Embrapa Trigo.

Do trigo à sojicultura

Os avanços tecnológicos que permitiram o desenvolvimento e aperfeiçoamento das atividades agrícolas, naturalmente, não beneficiaram apenas o trigo. Com o passar do tempo, a triticultura foi perdendo espaço nas estruturas de produção do Estado e dando lugar à soja, que se consolidou como a principal alternativa para os agricultores. A antes protagonista e responsável por fomentar o desenvolvimento agrícola na região, tornou-se coadjuvante. A inversão fica elucidada nos dados compilados nas séries históricas da Emater. Eles mostram que, enquanto em 1970 o Estado registrava aproximadamente 871 mil hectares de área colhida de soja, a de trigo chegava a 1,46 milhão. Em contrapartida, em 2018 (ano mais recente a possuir dados disponibilizados), a área de soja colhida no Estado ficou estimada em 5,65 milhões de hectares, enquanto a de trigo não passou de 710 mil.

Especificamente no município de Passo Fundo, no ano de 2018, ainda conforme a Emater, o município registrou apenas 1.200 hectares de área plantada com trigo, enquanto a de soja chegou a 40 mil. Apesar de a redução da área de trigo ser um fato consolidado nas últimas décadas, Gilberto Cunha ressalta que, ao longo dos anos, Passo Fundo teve sua área rural desmembrada devido à emancipação de municípios que antes pertenciam à cidade, como Coxilha, Mato Castelhano e Ernestina, e que isso também influencia nos números da área agrícola considerada como pertencente ao território passo-fundense.

Para o chefe do Escritório Municipal da Emater/RS, Alessandro Davesac, a alternância do protagonismo do trigo para a soja pode ser atribuída, principalmente, a questões mercadológicas, frustrações climáticas e dificuldades de manejo que desestimularam o incentivo à triticultura. “Na minha percepção, a maior mudança foi a questão do preço. A remuneração pela saca da soja é muito mais vantajosa que a do trigo”, opina. O diretor da Biotrigo, Ottoni Rosa Filho, destaca ainda fatores como a produtividade e o clima favorável para cultivo da soja, que levaram o grão a ter uma grande área no Brasil, substituindo os incentivos ao trigo. “Ela se adaptou muito bem ao país. São poucos países que têm soja em áreas grandes, diferente do trigo, que está presente em grandes produções em diversos lugares do mundo. Quase todos os continentes plantam trigo, então é uma commodity um pouco diferente. Sem falar que a demanda de soja é gigante”, pontua.

Outro marco importante dentro do mercado agrícola, que levou muitos produtores a desistirem do cultivo do trigo nas últimas décadas, foi o término da compra estatal. Enquanto entre as décadas de 60 e 80, durante o regime militar, a compra e entrega do trigo aos moinhos era de responsabilidade do Estado, em 1991 essa intervenção foi extinta e os moinhos passaram a comprar direto dos agricultores, abrindo espaço para a importação. A qualidade do produto, antes pouco abordada pelo Estado, passou a ser determinante e o mercado tornou-se muito mais competitivo. “Foi, obviamente, um período difícil para a triticultura nacional, que não estava preparada para isso”, observa Ottoni.

A atual realidade da triticultura

Se, por um lado, a área de trigo diminuiu, por outro, a tecnologia ajudou a alavancar a qualidade do produto nacional. Ainda hoje, décadas após os anos de ouro da triticultura em Passo Fundo, o município se mantém como um dos principais centros de pesquisa avançada do trigo em todo o Brasil. Além de ainda sediar a Embrapa Trigo, a cidade também abriga importantes empresas privadas dedicadas ao estudo e desenvolvimento de novas cultivares, como a Biotrigo, que é hoje responsável por cerca de 85% de todo o trigo cultivado no Estado.

"O município se mantém como um dos principais centros de pesquisa avançada do trigo em todo o Brasil"


Através do trabalho de melhoramento genético, todos os anos, essas empresas lançam no mercado variedades mais resistentes às condições climáticas, menos vulneráveis a determinadas doenças e criadas especialmente de acordo com sua destinação. Para a produção de pães e massas, por exemplo, é necessário desenvolver cultivares cuja qualidade do produto final (a farinha) obedeça às exigências impostas pelos moinhos e indústrias. Graças a esse trabalho, o diretor e melhorista da Biotrigo considera que, embora o Brasil ainda importe cerca de metade do trigo que consome, hoje, o padrão do trigo nacional é superior ao do trigo importado. “Nós evoluímos muito em termos de qualidade, temos condições genéticas superiores às do trigo comprado de fora, ao meu ver. Além disso, há muita tecnologia à disposição do agricultor em termos de sementes, de fertilizantes, de conhecimento e de maquinário. Houve uma grande transformação em termos de qualidade, mas essa é uma percepção relativamente recente e difícil de perceber por quem vê de fora”, destaca Ottoni. 


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