OPINIÃO

Panis et circenses

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Em nova época de endemia-pandemia aí estamos. Veio-me a epidemia da meningite dos anos 70, iniciada em São Paulo e que as autoridades esconderam da população; depois enfrentamos a influenza (do italiano influência), que um dia acreditamos ser do miasma, solto ao vento, antes que soubéssemos da transmissão via contágio espirros-tosse-mãos. O H1N1 (2 moléculas – hemaglutinina e neuraminidase) é uma variante que sabemos ser de 16 possibilidades da molécula H e 9 possibilidades da molécula N. Quando veio a gripe suína em 2009, a gente tinha tamiflu e vacina. Mas, o coronavírus é novo e desafiador, estamos criando imunidade contra ele. Por isso, infectologistas-virologistas diferem em alguns pontos e se essa leva de especialistas diverge é natural que a gente, os comuns, fique conflituado. Queríamos saber o tempo de quarentena, se há subnotificações, se morreremos, se é bom usar máscaras na rua, se é bom confinar todos ou confinar vertical, enfim.

Queremos o pão (panis), o pão que nos alimenta e cura. O pão não é somente o remédio ou vacina, o pão é a liberdade de ir e vir, de sentar em um restaurante, em dividir chimarrão, de assistir comunitariamente uma peça ou filme, de entrar em um estádio para torcer para o time ou assistir a um espetáculo musical. O pão depende de produção, depende da economia, do transporte e do comércio; e da economia vem os empregos e a manutenção das famílias, vem o bem-estar. Saúde e economia vêm juntas, saúde depende do pão. O comandante deve se preocupar com o pão e a saúde deve oferecer respostas adequadas para a retomada da normalidade. Em vez de pensarmos com a devida serenidade estamos entrando num terreno de circo (circenses). Nada pior para um governo que uma tragédia que paralisa um país; só que há os aproveitadores da desgraça, aqueles que vendem lenços em velórios.

O infectologista Stefan Cunha Ujvari, do Hospital Alemão Osvaldo Cruz, em seu excelente livro Pandemias – a Humanidade em Risco, de 2011, prefaciado pelo Dr Drauzio Varela, refere na página 47 o seguinte: “será importante determinar o momento exato que a epidemia se iniciou porque, em geral, permanece localizada nos primeiros 30 dias”. Se essa pandemia se iniciou na China e teve demora em sua contensão e informação à OMS estamos diante de um problema grave a ser discutido. Que tipo de falha? Estrutura, tirania, controle dos órgãos de imprensa?

Sendo da área da saúde há mais de 40 anos estou sensibilizado com a devoção profissional que os órgãos da imprensa analisam os óbitos dessa efeméride. Gostaria que tivessem o mesmo empenho na divulgação e ajuda no combate sobre os 150 mil óbitos que acontecem anualmente no Brasil em razão de politraumas; mesmo empenho sobre a estatística cruel das quase 4 mil mortes por assassinato de crianças e adolescentes por ano no país, estatística de todo o país com exceção do Rio, onde em 1 ano morreu apenas Mariele;  mesmo empenho em relação ao óbito de 1600 meninas pobres vítimas de abortamentos clandestinos e quase 200 mil internações ano pelas complicações do mesmo. Se isso não sensibiliza ninguém a pandemia talvez venha a alertar sobre a nossa pequenez, sobre a necessidade vital do pão e sobre o circo tão presente na vida desde que o homem é homem.

A gente fica olhando para o céu com medo de algum asteroide gigante que vá terminar com a vida na terra; devíamos olhar para dentro de nós mesmos, tal qual o lindo poema de Vinícius, O Poeta e a Rosa.

 

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