OPINIÃO

Se é Pixar, não me importa a qualidade...

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· 3 min de leitura

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Sou suspeito para falar de filmes da Pixar. Sou da geração que cresceu na fase mais medonha da história da animação, os anos 70 e 80 em que a Disney mergulhou na sua pior crise. O interessante da Disney é que, mesmo nessa fase, ela ainda era referência. Nesses anos de crise criativa, após a morte de Walt, o estúdio entregou obras como “Robin Hood”, “O Cão e a Raposa”, “Bernardo e Bianca”, “Aristogatas” e “A espada era a lei”, que quase afundou o estúdio, e viu crescer a popularidade dos mangás, com obras-primas como “Akira”, ainda hoje uma referência cyberpunk que respinga em muitos filmes contemporâneos. Na metade dos anos 80, surgiu no  Japão o Studio Ghibli de Hayao Miyazaki, que já começou colocando o pé na porta com “O castelo no céu”, “Túmulo dos Vagalumes” e “Meu vizinho Totoro” – o Ghibli ainda hoje é uma referência de animações para crianças e adultos, com temas e abordagens sensíveis, inteligentes e cativantes, muitas vezes pouco comuns, como em “Ponyo”.

Pois mesmo com essa concorrência de peso, a Disney sobreviveu à época de vacas magras e voltou com tudo quando lançou “A Pequena Sereia”, em 1989 – e principalmente quando “A Bela e a Fera” se tornou a primeira animação indicada ao Oscar de melhor filme em 1991. O padrão de qualidade, o investimento na trilha, na qualidade gráfica mas, também, nos roteiros evidenciaram a nova fase do estúdio, cujo ápice para mim sempre será “O Rei Leão”, uma animação que emula movimentos de câmera live-action em uma trama shakespeariana. Tudo sob a batuta do talento e dos traços à mão livre dos artistas do estúdio.

Por isso torci o nariz quando veio a notícia de que estava estreando nos Estados Unidos, em 1995, a primeira animação toda feita por um computador. Estamos em 1995, onde a internet discada tinha a velocidade incrível de 28kbps e não existiam comunicadores instantâneos, e vídeos na web eram com no máximo 360pixels, travando a todo instante. Computadores com placa de som e CD eram “top de linha”. O mundo era diferente. Só isso já coloca “Toy Story” como um fenômeno além do seu tempo. A surpresa foi descobrir que ali havia uma abordagem incomum – e se brinquedos ganhassem vida quando os donos não estão perto? – em um resultado formal que estava longe de parecer engessado como se esperavam. De repente, era uma história emocionante, com ritmo ágil, envolvente e personagens “humanos” além da conta.

A surpresa com “Toy Story” não foi maior do que a sucessão de obras-primas da Pixar, criadora do filme, que mais tarde seria adquirida pela Disney (se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele). E se o monstro do armário tivesse mais medo de nós do que nós dele? E se o mundo fosse habitado por carros, e não humanos? Um peixe medroso em busca do filho numa odisséia pelos mares? E um velho que decide pendurar a casa em balões para voar para longe? Nossas emoções têm personalidade? Um robô habita o planeta abandonado, há centenas de anos limpando nossa sujeira deixada para trás? Onde isso se encaixaria como animações infantis antes da Pixar? 

Minto: não são animações infantis. A Pixar produz filmes para todas as idades. Numa animação da Pixar, a ideia mais esdrúxula se revela genial pelo cuidado com os detalhes em cada história, pela criação de cada personagem, pelo tratamento maduro a conflitos e demandas que surgem na narrativa. Em um filme da Pixar, você ri (demais), você se empolga (ele não cansa), e você chora (muito). Já assisti “Toy Story 3” pelo menos 20 vezes. Me emocionei no final de todas.

“Os Incríveis 2”, que estreia nesse final de semana, também faz parte das ideias incomuns. E se heróis tivessem que viver vidas comuns? O primeiro filme faz parte daquele rol de obras-primas em sequência, o que torna provável que a experiência valha a pena. O mais importante, porém, é que isso provavelmente não vai importar muito: o valor dos desenhos da Pixar está no simples fato de ser da Pixar. Esses bastardos já fazem parte da nossa vida. A maior prova do impacto da Pixar na vida deles meu filho mais velho me deu aos 3 anos: ele colocou vários bonecos que ele tinha – e nem eram dos filmes – enfileirados e, vagarosamente, saiu da sala. Esperou alguns segundos e, quieto, espiou por trás da estante. Queria ver se eles ganhariam vida e começariam a se mexer. Ficou assim por alguns segundos, até que desistiu e resolveu ele mesmo brincar. A Pixar está com ele desde os dois anos....

Coisas assim marcam a família pra sempre, mostram o impacto desses gênios criativos e me fazem ter fé na humanidade.

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