A água é indestrutível, mas é finita

Ações de cuidado ainda não são suficientes para livrar o planeta de um colapso no abastecimento de um dos principais recursos que suportam a vida

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Leonardo Andreoli/ON

A quantidade de água existente na terra é a mesma há bilhões de anos. A forma de distribuição e a qualidade deste recurso é que têm sofrido alterações devido a ação do homem. Apesar de não poder ser destruída, a água é um bem natural frágil e que precisa ser cuidado para que esta e as próximas gerações possam sobreviver.

O IV Simpósio Sobre o Uso da Água na Agricultura levantou uma dúvida: a água pode acabar? Como respondido no início deste texto é pouco provável que isso aconteça, porque há bilhões de anos a quantidade de água no planeta é a mesma. O pesquisador Demetrius David da Silva, da Universidade Federal de Viçosa, MG, esclarece que isso é possível devido a água ser renovável pelos processos físicos do ciclo hidrológico.

A escassez de água em algumas regiões pode ser intrigante: se a quantidade de água é a mesma há bilhões de ano, porque alguns rios secam ou comunidades sofrem com a falta de um recurso que antes era abundante? A resposta é relativamente simples. Apesar de a quantidade de água ser sempre a mesma, o ciclo hidrológico tem sofrido alterações em função da ação do homem.

 Conforme Silva, as agressões à natureza causam reflexos na qualidade da água.  “Em muitos casos a escassez de água é qualitativa, quando a qualidade da água não é compatível aos usos aos quais ela se destina. Além disso, a distribuição espacial e temporal tem mudado muito ao longo do tempo”, explica. Essa distribuição irregular é causada em função das mudanças climáticas.

A concentração do período de chuvas num curto espaço de tempo gera muitos prejuízos. Além das inundações nas cidades, o solo não tem capacidade para reter a água que cai em excesso num curto período. “Isso gera um agravamento muito grande da escassez hídrica na região. Quando concentra chuva num curto espaço de tempo elas se tornam muito intensas. E grande parte não infiltra, escoa e vai desaguar no mar. A permanência de águas nas bacias é muito pequena e a escassez tende a aumentar”, argumenta o pesquisador.

Diante disso uma das principais indagações é se as ações da população mundial para preservar o meio ambiente e evitar um colapso de abastecimento são suficientes. A opinião dos especialistas que participaram do simpósio não é muito otimista, mesmo com realidade muito diferentes em diversas partes do mundo. Confira o que dizem os estudiosos:

Demétrius David da Silva
“O mundo hoje ainda vive de maneira muito insustentável. Precisamos trabalhar muito no sentido de criar uma condição sustentável de vida no nosso planeta porque o consumo tem aumentado em função do crescimento da população e da indústria que captam mais água e geram mais efluentes. O aumento das áreas irrigadas para produzir alimentos para essa população também está ampliando muito. O consumo está aumentando e a disponibilidade diminuindo. Infelizmente ainda vivemos de um modo bem insustentável. No Brasil, a partir da promulgação da lei 9433, que é a Lei das Águas, começa a ocorrer um reordenamento jurídico, com a implementação de alguns instrumentos de gestão que nos dão um alento que é o estabelecimento de um plano nacional de recursos hídricos, cobrança pelo uso da água, outorga de direito de uso dos recursos hídricos, enquadramento dos corpos d’água em classes de uso e o próprio sistema nacional de informações sobre recursos hídricos”.

Philipp Hartmann – economista alemão
“Não. [As ações desenvolvidas atualmente] não são suficientes e pode parecer que é suficiente porque não vemos os problemas. Tanto a cobrança quanto os outros instrumentos não são suficientes ainda. Os valores da cobrança são  muito baixos e continua havendo o que os economistas chamam de externalização de custos  que é exatamente eu causar um dano e jogar os custos nos outros. Então tem que se aumentar os valores da cobrança e se trabalhar outras ferramentas. Cada um de nós pode fazer sua parte para preservar o nosso meio ambiente para nosso filhos, netos e todas as gerações futuras”.

Patrick Thomas – especialista em Recursos Hídricos da Agencia Nacional de Águas
 “Temos casos e casos. Existem lugares no mundo onde você tem uma gestão muito boa dos recursos hídricos e outra onde os usuários são totalmente perdulários, então varia muito de pais para país. O que eu poderia dizer é que no Brasil temos uma política bastante moderna, com conceitos inovadores em relação ao mundo inteiro - a descentralização, a  participação da sociedade nas decisões, nas gestões por bacia hidrográfica, a utilização de instrumentos econômicos. Então temos uma política muito moderna  e que com certeza ela vai ser um diferencial para o país no futuro.  O Brasil tem a maior reserva de água doce do mundo e a gente tem um sistema moderno vamos poder usar essa disponibilidade como um diferencial para o país no futuro. Para que a gente não tenha problemas internos, mas também para atrair investimentos de outros países, porque a gente tem quantidade de água para ofertar”.

Como ajudar

Silva destaca que em muitos casos alternativas simples são suficientes para ajudarmos na preservação do meio ambiente e da água. Ele destaca que a utilização de vasos com caixa acoplada garante redução; também são importantes banhos com menor duração; mudança de hábitos ao lavar a rua ou o carro com água de qualidade superior; redução de efluentes sólidos; e tratamento dos efluentes. Além disso, a criação de zonas de recarga para que a água possa infiltrar no solo também são fundamentais. “Não impermeabilizar todos os pisos. Deixar espaços, por exemplo, para infiltração das águas das chuvas que saem pelas calhas, e evitar que ela seja jogada na rede de drenagem”, explica. Segundo ele, algumas cidades do país já exigem que todas as construções tenham um reaproveitamento da água das chuvas como na rega dos jardins ou em outra utilidade menos nobre para utilizar o recurso de maneira mais eficiente.

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