OPINIÃO

Somos mais imbecis do que supomos

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Invariavelmente, somos menos inteligentes, menos generosos, menos competentes, menos racionais e, por que não dizer, menos bonitos, mais egoístas e mais imbecis do que supomos. Exemplos desse nosso comportamento, não nos faltam; embora relutamos em admitir.


Entender por que agimos assim, especialmente na esfera social, somente é possível a partir de teorias, não novas frise-se, que explicam as nossas dissonâncias cognitivas. Preste atenção no nosso comportamento (comportamento de grupos principalmente) quando algo que acreditamos piamente se mostra falso. E o momento que vivemos, seja no mundo ou no Brasil, sob o império das fake news, é fértil para esse tipo de análise. Há uma autocrítica? Puxa, a verdade estava na frente dos nossos olhos e não vimos! Lamento, mas a nossa tendência é fugir do desconforto psíquico que a nova verdade dos fatos nos causa e, em vez de aceitar, insistimos no erro e, não raro, com convicção reforçada, pelo espírito de corpo, na nossa crença. É por isso que desmentidos de fake news têm pouco ou nenhum efeito prático.


Esse tipo de comportamento social foi desvendado por um grupo de psicólogos da Universidade de Minnesota, sob a liderança de Leon Festinger, nos anos 1950. Estudaram o caso dos millerites, grupo de fanáticos religiosos batistas que, sob comando do pastor William Miller, no século XIX, esperava pela Segunda Vinda. Em 22 de outubro de 1844, data prevista para a Segunda Vinda, Jesus não veio, mas, em vez de desapontamento geral no seio do millerites, a crença dos seus membros efervesceu.


Os anos 1950 foram pródigos no imaginário popular sobre extraterrestres. E foi a partir de uma nota no jornal Chicago Tribune que Leon Festinger tomou conhecimento de um grupo de entusiastas de UFOs (The Seekers – Os Buscadores) que, sob a liderança de Dorothy Martin, uma dona de caso de Chicago, mantinha contatos com alienígenas do planeta Clarion. O porta voz do grupo, o Dr. Charles Laughead, médico da Michigan State University, destacava a previsão de uma espécie de Dia do Juízo Final para 21 de dezembro de 1954, quando uma série de cataclismos, como alagamentos, terremotos, erupções vulcânicas, etc., começando pelos arredores de Chicago, decretariam o fim dos tempos. Leon Festinger percebeu a oportunidade e infiltrou quatro estudantes da sua equipe de pesquisa no grupo dos seekers.


E o que aconteceu naquele fatídico 21 de dezembro de 1954? Nada! Mas o relato dessa experiência saiu no livro When Prophecy Fails (Quando a Profecia Falha), de Leon Festinger, Henry W. Riecken e Stanley Schachter, publicado em 1956, que daria base para a construção, em 1957, da teoria da dissonância cognitiva. No livro, por razões óbvias, nomes e locais foram deliberadamente trocados. Dorothy Martin virou Marian Keech, e o Dr. Charles Laughead o Dr. Armstrong.


Dorothy Martin recebia mensagens de alienígenas por meio da escrita automática, uma espécie de psicografia. Naquela noite de 21 de dezembro de 1954, os seekers se reuniram na casa de Dorothy esperando pelo fim do mundo e pela chegada de uma nave espacial de Clarion que os levaria salvos para fora da Terra. O tempo passava, os seekers rezavam e esperam ansiosamente, mas nada da chegada dos alienígenas de Clarion. Até que, na madrugada, com o desconforto no grupo aumentando, eis que Dorthy Martin chegou com nova mensagem de Clarion. A fé e as preces dos seekers havia sido tão poderosas que Deus decidiu mudar os planos e poupar a Terra, cancelando o apocalipse. Os seekers haviam salvado o mundo! Os seekers, pela dissonância cognitiva, passaram a se ver como heróis e a falta de prova virou prova.


Dr. Laughead perdeu o emprego e foi para a obscuridade. Dorothy Martin, deixou os EUA, passou uma temporada no Peru, voltou em 1960, virou a Irmã Thedra, vivendo entre o Arizona e a Califórnia, nos círculos Nova Era, até morrer, aos 92 anos, em 1992. E Leon Festinger morreu em 1989, reconhecido como um gigante da psicologia social.


Não sei por vocês, mas eu estou apenas pela Segunda Vinda. Jesus já pode voltar!

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