OPINIÃO

Tudo é remix... ainda!

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· 2 min de leitura

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Será que o público que consome – sim, consome – cinema hoje em dia é tão carente de capacidade de leitura, de compreensão, de assimilação?

Iria escrever sobre outros temas hoje – a exibição de “O Poderoso Chefão I e II” no TCM no final de semana e a previsão de discutir a série no Núcleo de Cinema na UPF me animavam a falar sobre Coppola, mas quando vi a programação do cinema em Passo Fundo me fiz a pergunta acima, porque lembrei também de um pequeno documentário online que eu já comentei aqui meses atrás, uma série em 4 partes chamada “Everything is a remix”. No segundo episódio da série, há dados assustadores que se aplicam ao que temos hoje em cartaz nos cinemas.

Temos em exibição três filmes baseados em quadrinhos (Capitão América, X-Men e O Espetacular Homem-Aranha), sendo que todos eles são continuações. Um deles (o do Homem-Aranha) é continuação de um reboot de uma trilogia que terminou em 2007, já baseada em quadrinhos.

Temos uma continuação de uma paródia de outro filme (Inatividade Paranormal 2) e uma adaptação de um livro para o público jovem (Divergente) que segue a mesma fórmula de outras dezenas de séries de livros para esse mesmo público com o mesmo tipo de protagonista e o mesmo tipo de estratégia comercial (série de livros com títulos “espertos” indicando uma relação – Crepúsculo/Lua Nova/Amanhecer/blablabla, Divergente/Convergente/Insurgente e por aí afora).
Ainda temos uma continuação de uma animação de sucesso e um drama baseado na Bíblia.

As únicas histórias originais, pasmem, são de um desenho da Disney (Tinker Bell) e de um filme nacional (Julio Sumiu). Godzilla, outro arrasa-quarteirão por chegar, é um reboot de uma refilmagem de uma série japonesa.

A necessidade do lucro e do consumo fácil está matando a criatividade do cinema. Todos os anos, basta surgir um filme com um pouco de criatividade e originalidade para que ele se destaque do cenário habitual. Não basta nem ser um filme fantástico, apenas que ele traga ideias novas e fuja do lugar comum (A Origem, de Nolan, é um exemplo).

Há, sempre, o inevitável argumento que é graças ao lucro dessa produção em série dedicada ao consumo rápido (e esquecível em pouco tempo) que tornou o cinema um parque de diversões para consumo imediato que os estúdios conseguem sustentar e bancar determinados projetos mais autorais e artísticos. Mas a que preço?

Eu vou ao cinema consumir esse produto. Assisto a Godzillas e X-mens na tela grande do cinema porque ela é perfeita para esse momento de diversão pura. Levei meu filho para ver Rio 2 e ele adorou. Mas o espaço para filmes que desafiem minimamente o espectador é cada vez menor. A rede está inundada de notícias sobre a união entre Superman e Batman e a possibilidade de sair o filme da Liga da Justiça em... 2018.

Não há nada mais além disso?

Nos anos 70 tivemos Coppola, Scorsese, Ashby, Friedkin, Kurosawa, Spielberg, Scott, até Hitchcock e Bergman ainda em ação comandando as maiores bilheterias. Hoje, vez que outra temos um James Cameron (a cada quatro ou cinco anos) ou um David Fincher, mas a lista é encabeçada por nomes como Jon Favreau, Gareth Edwards, Marc Webb, Neil Burger.
Quem? Se o nível de uma literatura pode ser medido pelo talento da geração de escritores, o resumo da geração de diretores comandando as bilheterias dá um bom tom do cenário do cinema hoje.

Aliás, Godard está lançando um novo filme, “Adeus à linguagem”, no Festival de Cannes e... bom, não faz diferença. Não vai ser exibido por aqui, de qualquer forma.

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