Professores relatam dificuldades na implementação do ensino híbrido

Problemas vão desde a falta de acesso à internet por parte da comunidade escolar, até a escassez de equipamentos de proteção individual para a entrega do material físico dentro dos educandários

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Desde que as medidas de enfrentamento à pandemia começaram a ser adotadas em Passo Fundo, há cerca de seis meses, estudantes de todas as redes tiveram as aulas suspensas por tempo indeterminado. A alternativa encontrada para que a rotina escolar pudesse ser adaptada à nova realidade foi a implantação do ensino híbrido, que mescla as modalidades de ensino à distância e a entrega de material físico àqueles que não têm acesso à internet. 

Nas escolas municipais, por exemplo, os educandários têm se organizado em regime de plantão, nas terças e quintas-feiras, a fim de realizar a entrega das atividades escolares e dos materiais de apoio. Apesar do esforço, o Sindicato dos Professores Municipais (CMP Sindicato) de Passo Fundo observa que boa parte dos 17 mil alunos matriculados na rede ainda não está participando de forma efetiva em nenhuma modalidade de ensino. “Imaginamos que esse número esteja na ordem dos 30%, mas ainda não temos um levantamento oficial”, estima um dos dirigentes da entidade, Tiago Machado. 

De acordo com a coordenadora pedagógica do Núcleo de Ensino Fundamental da Secretaria Municipal de Educação (SME), Angelita Scottá, nem mesmo a entrega das atividades impressas e de kits escolares – montados pelas escolas como forma de auxiliar alunos que, de outra forma, não possuiriam material escolar suficiente para desenvolver todos os exercícios em casa – tem sido suficiente para que todos os alunos mantenham contato com a educação. O cenário faz com educadores temam o crescimento da evasão escolar. “Ainda vamos construir um relatório com os números de quantos alunos acessaram a plataforma e quantos foram buscar e entregar o material físico na escola, mas decidimos, antes, fazer um chamamento das famílias que não têm acesso e que, talvez, não tenham se dado conta que a retirada das atividades já é uma possibilidade. Não estamos pedindo que os pais sejam professores dos seus filhos, mas que se sensibilizem e percebam que a família precisa trabalhar junto. Estamos aguardando essa orientação para termos dados mais precisos”, explica.

Realidade financeira das famílias dificulta o ensino à distancia

Para o dirigente do CMP, a baixa participação da comunidade escolar pode ser atribuída à realidade financeira de muitos alunos. Ele frisa que a maioria das 71 escolas do município está localizada em regiões periféricas da cidade, onde a incidência de famílias de baixa-renda é maior. “Nós fizemos uma pesquisa e notamos que mais de 50% dos estudantes da rede municipal não têm acesso à internet ou, se tem, é no celular do pai e da mãe. Então eles não têm disponibilidade de ficar usando o aparelho a todo momento. Além disso, vários não tem Wi-Fi, apenas internet 4G. Como a plataforma do Google Classroom ocupa muitos dados móveis, o pacote não dá conta. É uma realidade muito precária”, descreve.

Mesmo aqueles que antes possuíam acesso à internet em suas residências, com a chegada da pandemia e o aumento do desemprego, precisaram abrir mão deste investimento, conforme relata a diretora da EMEF Escola do Hoje, localizada no bairro São José, Vanderleia Lara Salles. “Temos uma parte da comunidade que é muito carente e, além de tudo, vários perderam o emprego. Eles relatam que ou compram comida ou continuam pagando a internet”, compartilha. Segundo ela, a instituição tem turmas com uma média de 22 alunos. Destes, apenas cerca de oito estudantes por turma assistem às aulas e desenvolvem as atividades na plataforma Google Classroom. 

Ainda conforme Vanderleia, a esperança era de que a entrega do material físico motivasse mais famílias a procurarem a escola em busca das atividades preparadas para os alunos. Uma expectativa que não se concretizou. “Nós começamos a entregar o impresso no dia 8 de setembro. Nesse dia, estávamos esperando que, se em uma turma de 22 alunos apenas oito acessam a plataforma, os outros 14 viessem buscar. Mas foram só dois ou três alunos. Então ainda não estamos conseguindo nem com a plataforma, nem com o impresso”. A diretora lamenta que, para além das dificuldades de acesso ao ambiente virtual, muitas famílias não tenham tempo para ajudar os filhos ou estejam “acomodadas”. “Já ouvimos até palavras bastante ríspidas de pais que dizem não ganhar para dar aula. Não é isso. Eles precisam lembrar que são o suporte dos alunos”, desabafa.

O cenário é um pouco mais positivo nos anos finais do ensino fundamental, segundo a coordenadora do Núcleo de Ensino Fundamental da Secretaria de Educação. “O que tenho ouvido bastante dos gestores é que, nos anos finais, a maioria dos estudantes consegue ter autonomia e tentar por conta própria. Mas nos anos iniciais, que dependem da ajuda da família, está mais difícil. Tanto que as escolas estão se adaptando para trabalhar de acordo com a possibilidade de cada família”, conta Angelita. “Nós escutamos muitas pessoas falando que o ano está perdido, mas não temos esse olhar. Nós pensamos que é um ano diferente, de outras aprendizagens. Há alguns casos bem pontuais neste sentido da dificuldade, de famílias que realmente não têm como acessar ou buscar, e que precisam de um outro olhar. O que queremos é que elas realmente tentem. Nosso principal objetivo neste ano não é a questão de terminar o ano letivo, mas sim de promover algum ensinamento e não deixar que as crianças abandonem a escola”. 

CMP denuncia falta de EPIs nas escolas

Além das dificuldades relacionadas à falta de acesso aos ambientes virtuais ou o baixo engajamento de pais e estudantes, o sindicato que representa os professores de Passo Fundo afirma que a entrega do material tem se dado de forma precária. De acordo com o professor Tiago Machado, a própria Prefeitura de Passo Fundo instituiu protocolos padrões para que a entrega das atividades em local de trabalho fosse possível (entre eles, o distanciamento social, a higienização das escolas e o uso de máscaras), no entanto, o Município não tem oferecido suporte para isso. “Essa higienização deveria ser feita por uma equipe capaz, na troca de cada turno, mas estamos há mais de seis meses sem licitação para a contratação de uma empresa terceirizada de limpeza. Temos escolas que estão há três semanas trabalhando e nem sequer os banheiros foram os limpos. Outras receberam só cinco máscaras, sendo que os plantões se dão em dois turnos, em dois dias. Não tem EPI para todo mundo e as escolas não têm orçamento. A Secretaria de Educação destinou uma verba para as escolas privadas, mas não para as municipais”, afirma.

NA EMEF Benoni Rosado, por exemplo, a diretora Noeli Gonçalves Werlang conta que higienizou a instituição por conta própria e com a ajuda de colegas. “A SME nos enviou álcool gel e máscaras – de boa qualidade, mas não muitas –, mas não enviaram material para higienização. Ninguém veio até a minha escola para fazer essa higienização e nós não temos um funcionário efetivo para isso. Por isso, eu comuniquei que nós mesmos faríamos a limpeza para que pudéssemos trabalhar... Limpamos as partes importantes sozinhos, onde eu precisaria usar para fazer a entrega, e demarcamos o espaço para que os pais não entrassem na escola pegar o material. Estou independente, ajeitando do jeito que eu posso para não colocar ninguém em risco e estarmos todos em segurança”, conta.

Já na Escola do Hoje, a diretora Vanderleia recorreu à verba da própria escola para pagar por um serviço de limpeza. “A secretaria disse para usarmos uma verbinha que recebemos a cada trimestre, de R$ 800, mas já tínhamos esse dinheiro comprometido com reformas que foram feitas na escola. Nossa maior briga como diretores é que a gente tenha que tirar desse recurso, que é um valor baixo, para pagar uma limpeza que é cara e precisaria ser, no mínimo, no mínimo semanal. E talvez a nossa funcionária nem consiga fazer uma dedetização eficaz como deveria”. 

Por este motivo, o CMP afirmou que entrará com uma liminar na próxima semana, solicitando a suspensão dos procedimentos presenciais até que os protocolos de segurança sejam cumpridos. “Frisamos que não somos contrários à entrega. Sabemos a importância da equidade de tratamento entre os alunos que estão usando ambiente virtual e aqueles que não têm acesso. O que exigimos da nossa mantenedora é que garanta segurança total à equipe que está no local entregando as atividades. Caso contrário, existe um risco epidemiológico muito grave e à frente poderemos ver surtos sendo registrados nas escolas”, elucida Tiago.


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