Exames apontam predomínio da variante de Manaus em Passo Fundo

Linhagem P.1 foi encontrada em 91% das análises feitas pelo Centro Estadual de Vigilância em Saúde no RS

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Foto: AEN/DivulgaçãoFoto: AEN/Divulgação
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Os resultados mais recentes do exame molecular do SARS-CoV-2, divulgados na quarta-feira (26) pelo Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), apontam para o predomínio da variante de Manaus circulando em Passo Fundo. Desde a primeira detecção da cepa P.1 no Estado, ocorrida em janeiro, esse tipo de mutação do vírus aumentou a proporção entre as amostras sequenciadas e todas as 161 coletas realizadas em maio indicaram a presença dessa mutação, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. Das 516 amostras de 112 municípios gaúchos, 91% tiveram o resultado indicativo para essa linhagem. 

Com um maior potencial de transmissibilidade e capacidade de evadir da resposta imune dos pacientes previamente infectados pela Covid-19, a variante foi a responsável pela segunda onda de contágios e óbitos no Amazonas. “Essa linhagem tem 21 mutações diferentes em relação à linhagem original, que circulava no início. Só na proteína spike, que forma a coroa do vírus e permite que ele se conecte com as nossas células para causar a infecção, tem 10 mutações. Sendo algumas muito importantes”, aludiu o professor de Medicina da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Gustavo Olszanski Acrani. “No aminoácido 501Y, ela faz com que essa proteína consiga se encaixar de forma muito mais eficiente no hospedeiro. Então, as pessoas infectadas têm uma carga viral maior e ficam mais tempo propagando o vírus. Por isso, é mais contagioso e o vírus consegue escapar da resposta dos anticorpos neutralizantes”, explicou.   

Em azul, mapa apresenta a distribuição dos casos identificados como prováveis P.1 no Estado. Fonte: SES/RS



Esse estudo molecular das mutações virais trouxe, ainda, uma análise diferente dos anteriores, segundo o Cevs. Não foram incluídos, nesta edição, os resultados de sequenciamentos completos, que são realizados pelos pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. Diferente do sequenciamento genômico, que fornece detalhes do perfil de mutações e classifica com precisão a linhagem de cada amostra, esse teste feito pela própria Secretaria da Saúde (SES) indica que determinada coleta de material genético é uma provável variante de preocupação. “Sabemos que essa variante está circulando aqui [Passo Fundo], mas não sabemos se é a principal. Se acompanharmos o que está ocorrendo em outros Estados, uma vez instalada a transmissão local da variante P.1, podemos ter um cenário epidemiológico diferente aumentando, sim, o número de casos e, principalmente, porque as maneiras de controlar os contágios entre as pessoas não está sendo muito efetivo”, alertou o docente.  

Variante indiana 

Embora as amostras, baseadas nas coletas do exame de PCR, não tenham identificado a mutação africana em território gaúcho, o professor pondera que a variante indiana ingressou no radar de preocupação sanitária pelo potencial de causar um novo pico de casos. Ainda assim, esclareceu Acrani, a variante do vírus detectada em Passo Fundo não compromete a estratégia de imunização populacional. “As três vacinas são eficientes contra a variante P.1. A Pfizer e a AstraZeneca mostraram uma certa eficiência contra a variante indiana”, ressaltou. “Então, a estratégia de vacinação tem de ser mantida porque é a única ferramenta que temos para combater o vírus visto que a outra alternativa, que é o distanciamento social e o fechamento dos serviços não essenciais, não funcionou desde o início da pandemia”, observou.  

Terceira onda 

As mutações do vírus, contudo, não são a única fonte de preocupação dos pesquisadores e profissionais de saúde. O aumento diário no número de casos ativos de coronavírus, no município, voltou a se tornar um dos focos de atenção. Isso porque, nos últimos 10 dias, houve um crescimento de 80,1% no índice de moradores não considerados curados da doença, segundo as projeções calculadas com base nos boletins epidemiológicos da secretaria municipal de Saúde. “Isso nos indica que estamos tendo um novo estágio de aumento de casos. Eu não diria uma terceira onda porque para falar de onda, precisamos ter uma redução. É uma primeira onda que está tendo novos picos”, interpretou Acrani.  

Com uma nova pressão sendo exercida no sistema hospitalar, cuja taxa de ocupação de leitos por pacientes com coronavírus em Passo Fundo chegou a 102,9% na quinta-feira (27), como ilustra o Mapa de Leitos da SES, o professor da UFFS defende a ampliação da testagem populacional para identificar as cepas em circulação no município. “Quando analisamos um cenário epidemiológico, nunca é apenas uma variável. Existe uma exaustão em relação à pandemia. Não estamos em uma terceira onda, mas o importante é intensificar os cuidados. A questão de letalidade não é apenas de responsabilidade do vírus, mas o comportamento das pessoas tem uma influência muito grande”, lembrou o docente.  

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