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Colunistas


O escritor de números

Sexta-Feira, 18/01/2019 às 06:00, por Gilberto Cunha

Não foi em prosa nem em verso, mas em números, que se notabilizou a obra de um dos fundadores do Grêmio Passo-Fundense de Letras (atual Academia Passo-Fundense de Letras). Oscar Kneipp, cujo nome consta na relação dos intelectuais que assinaram a ata de fundação dessa agremiação, datada de 7 de abril de 1938, sob a presidência de Arthur Ferreira Filho, bem como a de restruturação dessa entidade, um ano depois, sob a direção de Antonino Xavier e Oliveira. Por mais que se busque nos documentos e atas de reuniões do Grêmio Passo-Fundense de Letras, não se encontra nada além de uma mera presença “discreta” de Oscar Kneipp, no dia a dia do sodalício das letras locais. E, quando, em 7 de abril de 1961, o Grêmio Passo-Fundense de Letras, sob o comando de Celso da Cunha Fiori, assumiu a personalidade da atual Academia Passo-Fundense de Letras, Oscar Kneipp não mais integrava os seus quadros. Tanto é assim que o seu nome não consta nas primeiras obras sobre a história da instituição, escritas pelo professor Sabino Santos: Os Imortais de Passo Fundo (1963) e Academia Passo-Fundense de Letras (1965). No entanto, nos registros das observações meteorológicas em nossa cidade, o nome de Oscar Kneipp se sobressai como um dos mais importantes protagonistas da história da meteorologia local.


Oscar Kneipp nasceu em Itaqui, em 1905, e morreu em Passo Fundo, em 1984. Em 1930, deixou Uruguaiana para completa os estudos no Instituto Educacional (IE), em Passo Fundo. Por influência do Professor Schisler, diretor do IE, conseguiu uma colocação de observador na estação meteorológica que funcionava junto a esse estabelecimento de ensino. Acabaria, oficialmente, admitido na função, em 5 de agosto de 1942, tendo se aposentado no cargo de auxiliar de meteorologia, em 21 de outubro de 1974. Foram mais de 35 de trabalho como observador meteorológico. Uma função que exige responsabilidade, seguindo uma rotina de leituras em instrumentos e de preparação e envio de mensagens meteorológicas três vezes ao dia (9h, 15h e 21h), independentemente de condições de tempo (chuva ou sol), dia da semana ou feriados. Por dever de ofício, posso dizer que “li toda a obra” de Oscar Kneipp. Quando, em setembro de 1978, iniciei a trabalhar no Instituto de Pesquisas Agronômicas, em Porto Alegre, coube a eu digitar a série histórica de dados meteorológicos do Rio Grande do Sul, visando à preparação do Atlas Agroclimático do Rio Grande do Sul, que seria publicado em 1989. Nessa época sequer imaginava que um dia eu viria viver em Passo Fundo, e que muitos anos depois iria fazer parte dos quadros da Academia Passo-Fundense de Letras e, menos ainda, que, tomado de surpresa, nos documentos da entidade, encontraria o nome de Oscar Kneipp na relação dos fundadores. Assim, sou testemunha da obra monumental “escrita em números” por Oscar Kneipp. Estou me referindo aos números por ele anotados, ao longo de mais de 35 anos de trabalho, descrevendo as condições meteorológicas ocorridas em Passo Fundo.


A ligação com os metodistas talvez explique, pela proximidade com SanteUberto Barbieri, o seu ingresso no Grêmio Passo-Fundense de Letras, em 1938. No educandário metodista de Passo Fundo,Kneipp foi professor de Geografia (35 anos), diretor do internato (por 45 anos) e presidente do Grêmio Literário Castro Alves ao longo de 17 anos, além de se envolver com a biblioteca da escola.
Oscar Kneipp foicasado com a também professora Cecília Borges Kneipp. Tiveram dois filhos: Oscar e Leda. Oscar, arquiteto, em 1962, foi para Brasília. Leda, casou com o advogado Atílio Giaretta e ficou em Passo Fundo, onde, como professora, seguiria a carreira dos pais.


Os familiares descrevem Oscar Kneip como um homem calmo, diplomático, religioso, dedicado à família e apreciador das lides literárias e educacionais. Eu complementaria dizendo que Oscar Kneipp, com o seu trabalho de observador meteorológico e prática de vida, dignificou, como poucos, o compromisso que assumiu ao assinar a ata de fundação do Grêmio Passo-Fundense de Letras, em 1938.




Os Du Bois

Sexta-Feira, 11/01/2019 às 06:00, por Gilberto Cunha

Tânia e Pedro Du Bois, apesar de radicados em Balneário Camboriú, SC, têm vivenciado, como poucos, a cena literária em Passo Fundo,nos últimos anos. São assíduos frequentadores das Jornadas Nacionais de Literatura, das Feiras do Livro, geralmente com lançamento de obras, dos eventos que ocorrem na Academia Passo-Fundense de Letras e são colaboradoresdo Projeto Passo Fundode Apoio à Cultura. Mas, não obstante tudo isso, exceto pelos familiares e alguns amigos dos tempos que a cidade ainda era uma aldeia e pelos frequentadores desses mesmos circuitos culturais passo-fundenses, talvez, esse casal de escritores e sua obra não sejam tão conhecidos assim (não no nível que merecem). Então, me permitam apresenta-los.


Pedro Du Bois,ex-bancário, poeta e contista, nasceu em Passo Fundo e descobriu, no alvorecer do século XXI (em2001), que escrever seria o seu destino. Escritor prolífico, foi vencedor, em 2005, na categoria poesia, do 4º Prêmio Literário Livraria Asabeça, com o livro “Os objetos e as Coisas”. No rol dos seus muitos títulos, à guisa de exemplo, elencamos:A casa das gaiolas (2005), Via rápida (2012), O senhor das estátuas (2013),O descrédito e o vazio (2014), Tânia (2015), Coleção de palavras (2017) e Imagem & Reflexo (2018).


Tânia Du Bois é natural de Sarandi. Formada em Pedagogia, tem se destacadocomo organizadora e revisora de textos, capista de livros e cronista da poesia do cotidiano. Qualificam-na como cronista de escol, os livros Amantes nas entrelinhas (2013), O exercício das vozes (2014), Autópsia do invisível (2015), O eco dos objetos: cabides da memória (2016), Vidas desamarradas (2017) e Eles em diferentes dias (2018).


Da vasta produção poética de Pedro Du Bois, escolhi, para compartilhar com os leitores dessa coluna, os versos do poema (Des)Importâncias (do livro Imagem & Reflexo. Passo Fundo, 2018. p. 11.): “Com relativa importância/legamos conhecimento/ao futuro//Impávidos descendentes/dos deuses/da ciência/e da nossa verdade//na relativa (des)importância/insetos seguem/voando ao redor das luzes/onde se multiplicam/sem vaidades//utilitários ascendentes/transferem aos novo/o necessário para a vida”. E, em meio à diversidade das crônicas de Tânia Du Bois, selecionei um excerto de Segredos de liquidificador (do livro O eco dos objetos: cabides da memória. Passo Fundo, 2016. p. 28-29.): “Se a poesia é instrumento da alma, não a posso deixar no silêncio que grita por espaço na literatura. Aí, de fato, digo que depende do modo como leio a poesia ou ouço a música; participo, vivencio momentos de emoção que despertam a minha atenção para se transformar em magia. (...) Muitas vezes me descubro moldada para escutar o som barulhento do dia a dia, onde leio o manual de sobrevivência e nada me acontece, sobrando apenas o som do liquidificador, sem segredos”.


Na 32ª edição da Feira do Livro de Passo Fundo, em 2018, Tânia e Pedro foram protagonistas de um episódio inusitado,que teve a participação do escritor, poeta, publicitário e, não por acaso, patrono do evento, Luiz Coronel.Entre as características do casal Du Bois, sobressai-se, depois do talento para a escrita, a generosidade em presentear escritores e amigos com os livros que publicam. Na lista dos que costumeiramente recebem os livros do casal Du Bois, especialmente os assinados pela Tânia, consta o nome de Luiz Coronel. Eis que, diante da presença do escritor na Capital Nacional da Literatura,os Du Bois, logo apósa cerimônia de abertura da Feira do Livro, decidem cumprimentar o ilustre patrono. Tânia, como de costume, toma a dianteira. Aproximam-se do escritor e, antes queconsigam falar qualquer coisa, Luiz Coronel abre um sorriso e diz: - Oi Tânia, como vai? E, segundos depois, dirigindo o olhar para Pedro, complementa: - Você deve ser o Paulinho. Tudo bem? Mestre, esse Coronel! Gênio da raça! Passado o acontecimento, há quem diga que Tânia Du Bois, até hoje, não caminha, apenas flutua a um palmo acima do chão, nos passeios matinais pela Avenida Atlântica em Balneário Camboriú.




Nós sabíamos!

Sexta-Feira, 04/01/2019 às 06:00, por Gilberto Cunha

De um lado, a edição de estreia da revista Água da Fonte, veículo oficial da Academia Passo-Fundense de Letras, publicada em dezembro de 2003 (v.1, n.0, dez 2003). E, do outro, a edição de O NACIONAL, de 26 de dezembro de 2018 (Ano 94 – Nº 27.027). Entre ambas, algo em comum: Pablo Morenno.


Em Água da Fonte, assinam textos de opinião, exaltando as qualidades literárias do novel e promissor escritor Pablo Morenno, Helena Rotta de Camargo, Paulo Becker e Gilberto Cunha. Em O NACIONAL, o jornalista Gerson Lopes dá a chancela de qualidadeà entrevista (páginas 10 e 11) que nos revela o escritor consagrado Pablo Morenno. Em Água da Fonte, o vaticínio; em O NACIONAL, passados 15 anos, a materialização do que era apenas uma promessa em 2003.


Na aludida edição de Água da Fonte, Helena Rotta de Camargo, na página 16, começaexaltando o talento do jovem escritor que, na ocasião, recém lançara o livro de crônicas (Por que os homens não voam?, pela WS Editor). Louva a trajetória do menino idealista, que recebeu formação religiosa em seminário católico (dos 11 aos 20 anos); que cursou Filosofia (bacharelado e licenciatura); que cumpriu três anos de um programa de Teologia; que estudou e se bacharelou em Direito; que, em 1993, ingressou como funcionário federal do Tribunal Regional do Trabalho (atuando, ainda hoje, como assistente de juiz); que trabalhava como professor de língua espanhola em cursos preparatórios de estudantes ao vestibular; e que, indubitavelmente, sobressaia-se pelo acúmulo de talentos para prosa, poesia e música. Na sequência, Paulo Becker, na página 17, nos apresentava Pablo Morenno como um cronista consumado, colocando-o, pela atenção especial que dava à linguagem, quando da transposição da realidade à literatura, ao lado de nomes como Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. E Gilberto Cunha (não por acaso, o escriba que assina essa coluna), na página 18, destacava Pablo Morenno como o dono do melhor texto da imprensa de Passo Fundoe, possivelmente, o nosso melhor escritor do século XXI. Mas, insistia que comparar Pablo com Rubem Braga, ainda que não fosse algo despropositado, era covardia. Pablo Morenno estava apenas começando na crônica e Rubem Braga (1913-1990) já era uma saudosa lembrança. Rubem Braga escreveu cerca de 15 mil crônicas, tendo se notabilizado por textos inesquecíveis como “Ai de ti, Copacabana!”, “Aula de inglês”, “Homem no mar” e “O pavão”, entre outros. Pablo também tinha as suas crônicas especiais: “Sobre cacos de vidro”, “Jô e o buraco negro”, “Máquinas para atender”, “E Deus fez a mulher” e muitas outras que formam a seleção e elite do seu livro de estreia.


Gerson Lopes é quem, efetivamente, nos apresenta o atual escritor Pablo Morenno. A grande mudança na vida de Pablodeu-se em 2014. Foi quando ele decidiu abraçar, de fato, a carreira de escritor/editor. Abdicou de cargos que ocupava no TRT- 4ª Região (permaneceu como assistente de juiz), criou a PhysalisEditora, passando a publicar os próprios livros, e começou a trabalhar intensivamentecom alunos e professores nas escolas. Unindo talento e muito trabalho, deu certo! Pablo, hoje, cumpre uma agenda deaté 12 eventos culturais, por mês, fora de Passo Fundo, e já vendeu mais de cem mil livros.


Depois de “Por que os homens não voam?”, veio o aclamado “Flor de Guernica” e uma série de livros infantis, que lhe deram muitos prêmios e prestígio como escritor, caso de “Minha avó tecia o mundo” e “Alfabeto poético dos nomes”, que acaba de recebero troféu CarlosUrbim, da Academia Rio-Grandense de Letras, comomelhor livrona categoria infantil.


Pablo Morenno, marido da Daniela e pai do Erick, é, reconhecidamente, o principal escritor passo-fundense (embora tenha nascido em Belmonte, SC) da atualidade. E aqui eu me penitencio sobre o que escrevi, profeticamente, em 2003, quando disse que Pablo Morenno era o nosso melhor escritor do século XXI. Convenhamos, fui exagerado! Por enquanto ele ocupa esse lugar, mas ainda faltam 81 anos para acabar o século XXI e pode surgir alguém para esse posto.




Contradições e Esperanças

Sexta-Feira, 28/12/2018 às 06:00, por Gilberto Cunha

Não haveria melhor época do que essa de final de ano, para você reparar na contradição entre o otimismo que impregna as mensagens de boas festas que ora lotam as suas caixas postais eletrônicas – WhatsApp, E-mail, etc. –e o pessimismo que exala das conversações pessoais com algumas dessas mesmas pessoasque lhe enviaram felicitações natalinas e votos de próspero ano novo. E, por precaução, adianto que isso não tem nada ver com Dilma, Temmer e Bolsonaro, por essas bandas, ou Donald Trump, Kim Jong-un ou Emmanuel Macron, por outras paragens. Mas, sim, tem tudo a ver com a necessidade de retomarmos, com mais veemência e menos crítica, alguns ideais e valores que trouxeram a humanidade até aqui. Que ideais são esses, você deve estar se perguntando? Por favor, não se surpreenda (e nem se exalte) se eu lhe disser, e depois fundamentar, que precisamos mesmo, urgentemente, é de reafirmação dos ideais do Iluminismo: razão, ciência, humanismo e progresso.


Não vai ser disseminando pessimismo (e muito menos otimismo de ocasião) que a humanidade vai encontrar a solução para os seus males. Evidentemente, que muitos dos nossos problemas são de difícil solução. Mas, por mais complexas que sejam as soluções de casos concretos, não podemos ceder à tentação e aceitar, passivamente, a falácia de que há problemas insolúveis. Soluções podem ser difíceis ou demoradas, mas sempre existirão. Desde que não se perca de vista a razão, a ciência, o humanismo e o progresso; reitero.


Steven Pinker, o laureado professor do departamento de psicologia da Universidade Harvard, é o autor dessa tese de que o que mais a humanidade precisa, hoje, é afastar essa visão de mundo como um vale de lágrimas, sendo muito mais sensato, se quiser almejar tempos melhores, tomar a defesa da razão, da ciência, do humanismo e do progresso como meta.O novo iluminismo, o livro de Pinker, recentemente publicado no Brasil (2018), é uma espécie de manifesto em defesa dos valores involucrados na razão, na ciência e no humanismo para o atingimento do progresso da humanidade.Ao longo de 686 páginas, Pinker, com a verve que lhe é peculiar, defende a tese, fundamentada em dados, que, se houve progresso no mundo, devemos tudo o que alcançamos graças ao Iluminismo. E, mais do que nunca, precisamos retomar os ideais do Iluminismo, que, em tempos de populismo, politico e religioso, exacerbado, andam meio esmaecidos. Afinal, desde o último quartil do século XVIII, quando a humanidade recebeu as primeiras luzes desse movimento, são passados praticamente 250 anos. E, frise-se, nunca foram e ainda não são poucas, as criticas ao Iluminismo, pois, como realça Steven Pinker, nem bem as pessoas saíram à luz e já vieram lhes dizer que a escuridão não era tão ruim assim, afinal de contas. Não caia, como muitos, nessa tentação!


Os princípios do Iluminismo, expressos ou implícitos,dão forma às democracias modernas. Entenda que, em qualquer circunstância, a razão é sempre inegociável. Por mais tentadora que pareça a proposta, não abdique da racionalidade em nome de um deus antropomórfico e atento aos assuntos humanos. Não, não há outra forma, de se chegar ao conhecimento confiável, que não seja pelo método científico. Em caso de dúvida, compara o teu conhecimento e acesso à tecnologia frente a um antepassado teu. Não ignore que foigraças ao humanismo que teve fim práticas bárbaras como a escravidão. E que progresso não significa reengenharia da sociedade, devendo, sempre, ser norteado pelo humanismo.


Se você lamenta ter nascido nos tempos atuais, talvez seja oportuno rememorar a antológica fala de Barack Obama, de 2016, reproduzida por Steven Pinker, quando ele destacou que se você tivesse de escolher um momento da história para nascer e não soubesse de antemão quem você seria – não soubesse se iria nascer em uma família rica ou em uma família pobre, em que país nasceria, se seria homem ou mulher –, se tivesse que escolher cegamente o momento em que gostaria de nascer, você escolheria AGORA. Isso graças ao Iluminismo!




Casamento e morte

Sexta-Feira, 21/12/2018 às 06:00, por Gilberto Cunha

Penitencie-se, caso você, quando aquele seu vizinho, casado, meia idade e sem nenhuma doença grave, subitamente morreu, tenha se alvoroçado a tecer comentários do tipo: também, andava exagerando no torresminho. Bebia dia sim e outro também. Não refugava um chope com os amigos. E uísque então, eram doses industriais. Café, só bebia se fosse IrishCoffee. Devagar com essas conclusões apressadas! Um artigo recentemente disponibilizado pelo The American Journal of Cardiology (Am. J. Cardiol. 2019, 123:7-11), MarriageDissatisfactionandRiskofSuddenCardiacDeathAmongMen, lançou luzes sobre esse tipo de acontecimento que pode ter vitimado o seu vizinho, ao atribuir a “insatisfação/infelicidade” no casamento como a principal causa de morte cardíaca súbita entre os homens de meia idade.


Um grupo de pesquisadores da Finlândia e do Reino Unido assina o referido artigo, que reporta o resultado de uma pesquisa realizada com 2262 homens finlandeses, casados, com idade entre 42 e 60 anos, que, entre 1984 e 1989,se submeteram a um protocolo de estudo, aferindo, entre outras coisas, o nível de satisfação no casamento, numa escala que ia do muito satisfeito, passando pelo apenas satisfeito, até os graus de insatisfeito e muito insatisfeito; tendo sido o grupo acompanhado pelos próximos 26 anos. Nesse interim, 239 membros que morreram foram diagnosticados, inequivocamente, como casos de morte cardíaca súbita.
Estima-se que, entre 4 e 5 milhões de pessoas, no mundo, anualmente, são vitimadas por morte cardíaca súbita. No estudo realizado na Finlândia,896 homens integravam o grupo dos muito satisfeitos (39,6%), 1249 o dos satisfeitos (55,2%) e 117 o grupo unificado insatisfeitos e muito insatisfeitos (5,2%). Os diagnósticos de morte cardíaca súbita, enquadraram-se, nos respectivos grupos, em 78, 146 e 15, que, em termos relativos, correspondem a 8,7%, 11,7% e 12,8%. Ou seja, em uma interpretação empírica superficial, tem-se, para cada 100 homens, que, enquanto morrem 9 do grupo dos muito satisfeitos no casamento, contabilizam-se 13 mortes entre os insatisfeitos. E que não basta estar apenas satisfeito, tem que se estar muito satisfeito no casamento, para diminuir o risco de morte.


Evidentemente, os resultados e a discussão do aludido artigo são mais robustos do que até aqui expomos rasamente.Os autores concluíram que o riscode morte cardíaca súbita no grupo dos homens insatisfeitos é 86% maior do que no grupo dos muito satisfeitos no casamento. E considerando que algum elemento de insatisfação pode existir no grupo dos que estão apenas satisfeitos, combinando-os com os insatisfeitos, esse risco é incrementado em 43%. A conclusão principal do estudoé que, independentemente deoutros fatores de riscos cardiovasculares, a insatisfação no casamento está associada com o aumento do risco de morte cardíaca súbita entre os homens de meia idade. Talvez, faltou dizer que essa insatisfação no casamento pode levar, pelos conflitos do dia a dia, a um maior consumo de álcool, a estresses diversos que podem afetar o sistema nervoso, ao desleixo com a saúde física, ao uso de antidepressivos etc., que, direta ou indiretamente, podem ter influído nessas mortes.


A sensação é que estudos como esse publicado no The American Journal of Cardiology são realizados apenas para confirmar piadas velhas. Com o devido pedido de perdão antecipado, pelo tom machista, segue a história do cidadãoque, preocupado com o resultado de exames cardiovasculares que realizara, procura um médico e, durante a anamnese, o doutor perguntase ele bebe. O sujeito diz que não. O médico recomenda que ele beba, mas com moderação, que um pouco de álcool ajuda a relaxar. Depois, prossegue o doutor, se ele trabalha muito. Diante da resposta, recomenda que ele, se possível, trabalhe um pouco menos, preferencialmente apenas naquilo que gosta de fazer. E por fim, se ele tem mulher chata. E, nesse ponto, o médico é taxativo: se tem mulher chata, separa logo, pois o que mata mesmo é mulher chata. Bingo!






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