"Minha maior felicidade é poder passar essa data junto com a minha família"

Recuperada da Covid-19, paciente relata a rotina solitária de quem é diagnosticado com a doença e a emoção de estar de volta ao lado das filhas, mesmo sem poder abraçá-las

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Não são apenas os sintomas físicos que pesam os dias de tratamento daqueles contaminados pelo novo coronavírus. A facilidade de contágio tornam a Covid-19 uma doença solitária. Para evitar que o vírus se dissemine, amparos antes tão costumeiros, como o abraço de um familiar ou a companhia de um amigo, precisam ser negados aos pacientes. Mãe de três filhas, Nara Regina Santos de Andrade, de 47 anos, é um dos 55 casos considerados recuperados do coronavírus em Passo Fundo, mas apesar do diagnóstico positivo, neste ano, o Dia das Mães será diferente na casa da passo-fundense. Por precaução, Nara foi orientada pela equipe médica a evitar qualquer contato físico durante 30 dias. “Será um Dia das Mães sem abraços, mas o importante é que não estou mais no hospital. Minha maior felicidade é poder passar essa data junto com a minha família. Quando completar os 30 dias, quero dar um abraço bem forte em cada uma delas”, compartilha.

Quando sentiu os primeiros sintomas do coronavírus, no início de abril, Nara conta que pensava se tratar de uma pneumonia. Chegou a procurar atendimento médico, mas foi mandada para casa com medicações que tratariam a infecção, sem necessidade de internação. Dois dias depois, no entanto, a piora no quadro de febre, tosse e dores corporais levaram-na a procurar o Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), onde realizou o teste que confirmou a contaminação por Covid-19. Vendedora autônoma e com histórico de comorbidades, ela suspeita que tenha sido infectada enquanto trabalhava. “Eu estava trabalhando sem máscara e luvas”, admite.

Durante a semana que ficou internada em leito clínico, no posto 10 do HSVP, Nara diz ter vivido uma das piores experiências de sua vida até então. “Nos três primeiros dias, eu senti que ia morrer. Orei, pedi a Deus que me deixasse viver e cuidar dos meus filhos. Era muito doloroso. Fui sentir uma melhora no quinto dia, quando resolvi tomar um banho, porque antes desse dia eu nem levantava, não conseguia ficar em pé, sentia dor no corpo, nos pulmões, não conseguia falar porque a tosse não cessava. As profissionais tinham que ser muito pacientes para conseguirem se comunicar comigo. A gente fica pensando que vai morrer a qualquer momento”.

A solidão da doença

As dores causadas pela doença eram atenuadas, ainda, pela solidão vivida no quarto. Em isolamento total, sem poder receber visitas devido à alta taxa de infecção do coronavírus, as enfermeiras relatam que Nara demonstrava uma constante preocupação por suas três filhas, de 10, 14 e 20 anos de idade. A mais velha, Kellen, compartilha o choque sentido pela família ao receber o diagnóstico de um vírus com agravantes ainda tão incertos. “A gente não acreditou na hora. Todos começamos a chorar porque passa muita coisa na nossa cabeça nessa hora, mas tentamos nos manter calmos para não deixar nossa irmãzinha preocupada”.

Para matar a saudade das filhas e do marido, o jeito era recorrer ao celular durante o período de internação. Uma alternativa que ameniza, mas não soluciona, a sensação de solidão, conforme a vendedora descreve. “A gente fica agoniada em passar por tudo isso sozinha, sem ninguém do lado. A doença acaba com a pessoa. Não sei se é pior a dor ou a solidão que você sente”, expõe. A filha, Kellen, complementa: “Eu sabia que [o isolamento] era para o bem da nossa mãe e para o nosso bem também. Mas a sensação de não poder abraçar ou dar um beijo de bom dia foi muito difícil. Naquele momento, tudo que eu queria era dar amor, carinho e conforto para que ela melhorasse logo, então esse processo partiu meu coração”, recorda.

Rotina de cuidados

Em isolamento domiciliar desde o dia 29 de abril, ainda mantendo medicações mas sem apresentar novos sintomas da doença, Nara Rodrigues integra a lista de pacientes que se recuperaram da doença causada pelo novo coronavírus. Nem por isso a rotina de cuidados foi relaxada. A passo-fundense conta que, depois de ter recebido alta hospitalar, ainda passou sete dias isolada, sem contato com a família, que também foi orientada a ficar em isolamento domiciliar durante duas semanas. E, embora ninguém do convívio de Nara tenha testado positivo, ela revela que sente muito medo de servir de transmissora do vírus. 

“As pessoas precisam entender como é importante se proteger e acreditar no vírus porque ele está aí, destruindo famílias, ele é real. Eu não levava a sério até viver tudo isso, agora tomo todos os cuidados. Estava com medo até de voltar pra casa e passar para a minha família, mas os médicos e enfermeiros me explicaram tudo que eu tinha que fazer”, comenta. Até mesmo dentro de casa, ela salienta que não abre mão de usar luvas e máscara. “Também tenho meus talheres, pratos e copos separados. Lavo eles e não misturo com os outros. Não estou tendo contato com ninguém e sento separada da minha família. Minha filha de 10 anos, por exemplo, que é especial, só me cumprimenta de longe. Não quero que eles passem por isso, esse isolamento é para o bem de todo mundo”, explica.

Neste cenário, em um momento tão atípico para todo mundo e, especialmente, para a família dos milhões de infectados pelo novo coronavírus, o Dia das Mães tem de ser celebrado de maneira igualmente atípica. Enquanto em algumas casas a tecnologia servirá para unir quem está longe, na de Nara, a data deverá ser celebrada presencialmente, mas através de gestos e falas. “Infelizmente, pelo bem de todos, ainda não podemos ter contato físico. Mas quero mostrar para ela o quanto amo a melhor mãe que eu poderia ter nesse mundo e o quanto ela é importante na nossa vida, pois sem ela não seríamos nada”, adianta a filha mais velha.

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