O que esperar do Papa Francisco

Parte 1 - Mudança? Conservadorismo? Renovação? Se de um lado, especialistas acreditam que Francisco não tem o perfil de um administrador, o que a crise da Igreja Católica exigiria neste momento, de outro, a escolha do nome do novo papa indica a possibilidade de renovação

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Prestes ao assumir como papa, Jorge Mario Bergoglio recebe uma Igreja passando por uma crise e com uma série de assuntos a serem discutidos. Antes da escolha, muito se falava na necessidade de que o novo papa tivesse como uma das principais características o poder de administrar o momento. Entretanto, o escolhido, ao longo de sua trajetória, tem se mostrado uma pessoa conservadora, despojada dos bens materiais e próxima dos pobres.

O que esperar, então, do novo papa? Uma das respostas acredita-se que ele deu ao escolher o nome Francisco, remetendo-se à São Francisco de Assis, que mudou completamente de vida, despindo-se dos bens materiais, ao assumir um papel renovador. Essa missão São Francisco teria recebido em oração a Jesus Cristo: “Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja”.

Seria este, então, o papel do novo papa? Para responder a este questionamento, ON procurou religiosos, historiadores e estudiosos que atuam em Passo Fundo para falar sobre o perfil de Francisco e qual a linha de conduta que deverá assumir.


Papa Francisco e São Francisco de Assis

Ao escolher o nome de Francisco, o novo papa deu uma pista sobre como deverá ser a sua conduta à frente da Igreja. Para as irmãs franciscanas de Passo Fundo, a notícia foi motivo de surpresa, e também de alegria. “É muito significativo e surpreendente o novo papa, um jesuíta, escolher não o nome de Inácio (Santo Fundador da Companhia de Jesus - jesuítas), mas de Francisco. Sem dúvida, foi opção de vida, para ter Francisco de Assis, como inspirador em sua imensa missão de papa”, afirma a irmã Marines Burin, franciscana missionária de Maria Auxiliadora.

De acordo com ela, Francisco de Assis, padroeiro da Itália, é o santo mais querido dentro e fora da Igreja Católica. “Conhecido em todo o mundo, viveu e testemunhou o Evangelho na sua radicalidade. Anunciou a Jesus com palavras, mas, sobretudo, com ações, dando em testemunho sua própria vida simples e humilde. Filho de uma família rica deixou as regalias da burguesia para viver no meio dos pobres e como eles”, salienta. Assim, é possível acreditar que a escolha do nome revela identificação com uma série de valores evangélicos e eclesiais testemunhados por Francisco de Assis. “Sem dúvida, o novo papa escolheu o nome de Francisco não por capricho, mas sim para que ele permaneça como marca em sua vida, um lembrete constante a levar em sério o Evangelho, tendo a caridade como lei, a pobreza como estilo e a comunhão como método”, avalia.

Para ela, a escolha do nome revela o que se pode esperar do novo papa. “Creio que para o momento que a Igreja e o mundo estão vivendo, o avanço do Islamismo, por exemplo, um papa com o espírito de Francisco de Assis lembra a postura que ele deve adotar com relação aos muçulmanos que estão multiplicando-se no mundo. Nós sabemos que na época de Francisco de Assis, o papa convocava as Cruzadas para lutar contra os muçulmanos. Francisco tomou um barco e foi ao Oriente encontrar-se com o Sultão do Egito, não para lutar contra ele e sim para falar de paz, de amizade, para tratá-lo como irmão. Este é um recado e um desafio forte para o novo Papa que deve incentivar o diálogo ecumênico com as demais igrejas cristãs e também o diálogo inter-religioso com os muçulmanos, com as outras religiões”, destaca a irmã Marinês.

Defesa da natureza
Outra característica de São Francisco de Assis foi a defesa dos animais, da natureza e por isso é considerado o patrono da ecologia. Neste sentido, pode-se esperar do papa uma relação diferente com a natureza, de forma a assegurar condições de vida para todos. Além disso, sua aproximação com os pobres é um forte sinal de que ele realmente mantenha esse contato mais direto com o povo.


“São Francisco de Assis foi sempre fiel à Igreja Católica, viveu em filial obediência e respeito ao papa, aos bispos e em total comunhão com todo o povo. O gesto do papa Francisco, de, antes de dar sua primeira bênção para a igreja de Roma e para o mundo todo, ele mesmo pediu que o povo invocasse sobre o Papa a bênção de Deus. Isto é sinal claro de irmandade, de humildade, de fraternidade”, comenta a irmã. Ela acredita que a escolha do nome tenha também relação com a questão da simplicidade, da humildade e aproximação com o povo. “Multiplicam-se os comentários de que o novo papa, como Cardeal de Buenos Aires foi grande defensor da caridade e da ajuda aos pobres. Ele viveu de forma pobre, simples, cozinhava o seu próprio alimento, morava num pequeno apartamento e não em um grande palácio, se movia de ônibus e metrô, como o povo, e no meio do povo”, argumenta.

A missão de São Francisco
Francisco de Assis é conhecido como irmão dos pobres, o pobre. “Ele, sem dúvida, inspira o papa à simplicidade, à ser fiel à opção da Igreja, sobretudo da Igreja latino-americana na sua opção preferencial pelos pobres”, ressalta irmã Marinês.

O conhecido episódio no qual Francisco de Assis recebeu a mensagem de reconstruir a Igreja bem representa o que pode ser a intenção do papa: reconstruir. “Contam os biógrafos e companheiros que o jovem Francisco se encontrava em oração, na pequena igreja de São Damião. Posto de joelhos diante do crucifixo, contemplando o olhar de Jesus Cristo, ouviu claramente esta ordem: ‘Vai, Francisco, restaura minha Igreja que está em ruínas’. Tremendo, Francisco pôs mãos à obra, ao trabalho de reconstruir essa igrejinha que realmente tinha danos materiais. Terminada esta, reconstruiu também a capela da Porciúncula e depois outra mais. Mas calejando suas mãos nas pedras, pouco a pouco foi compreendendo que não era este o significado da ordem de Cristo. O chamado era a reconstruir a igreja viva, as pessoas, desde os governantes da igreja até o último dos cristãos”, narra.

Bergoglio e a ditadura
Bergoglio era o provincial dos jesuítas na Argentina durante o período ditatorial. Pelas informações que nos chegam, a campanha difamatória contra ele já não é de hoje, e está relacionado intimamente com seus posicionamentos contra vários pontos da agenda dos governos Kirchner. Ter proximidade com os humildes não exclui o assistencialismo. Contudo, não é o caso de Bergoglio. Quando arcebispo de Buenos Aires morava num pequeno apartamento e andava no transporte público. Isto quer dizer que é da sua personalidade a simplicidade, como fica evidente nesses primeiros dias de pontificado, quando traz a cruz que sempre usou no peito e se refere às pessoas de maneira solícita, convidativa e amigável. Rodrigo Coppe Caldeira - Historiador e professor PUC-MG

Identidade original
O papel do papa é dirigir o conjunto da Igreja nas diferentes dimensões e exigências em uma determinada época. O que chama atenção na escolha do perfil desse papa é esse gesto de humildade e simplicidade, que parece ter convencido boa parte do mundo e boa parte dos católicos a voltar o seu olhar para uma identidade original da Igreja, a exemplo de um santo muito popular e muito admirado, que é São Francisco de Assis. Então esse é um primeiro momento, afirmar esse valor fundamental da fé cristã, a humildade, a simplicidade e o compromisso com a caridade. Assim, em um momento muito especial da nossa época dada essa proximidade de São Francisco de Assis com a natureza e com a renovação da Igreja, vai contribuir com esse debate mundial sobre o desenvolvimento sustentável e uma atualização permanente da Igreja para a nossa época.

Também acho que um desafio bem importante que esse novo papa vai enfrentar é o debate com as culturas, com as várias formas de pensamento que emergem do mundo todo. E que discutem com a Igreja católica de igual para igual, por exemplo, com o Islamismo, com culturas africanas, no próprio Brasil, com toda a realidade indígena e cultural. Para um diálogo desse nível precisamos além de um papa humilde, preparado intelectualmente. Acredito que ele tenha um currículo de respeito diante da sua formação superior e diante da sua trajetória acadêmica e também pelos vários compromissos que eles têm demonstrado na condução da sua trajetória na Argentina. Uma postura firme com o Estado, uma disposição na superação de problemas sociais e me parece que o desafio que se apresenta pra ele, atualmente, em nível mundial é essa capacidade de dialogar com as diferentes culturas.
Padre Neuro Zambam-  Diretor da Fundação Cultural Planalto e Titular da paróquia São Francisco de Assis

Obras sociais com atenção especial
A escolha foi uma surpresa por ele ser latino-americano e, principalmente, pela simplicidade que ele apresenta. Nós acreditamos que no aspecto social ele será muito bom, observando a sua proximidade com os mais humildes, assim esperamos maior apoio da Igreja nas obras sociais. Recebemos uma manifestação da Cáritas internacional, declarando-se estar feliz, acreditando que o novo Papa dará uma contribuição especial ao lado social, que de certa maneira ficou meio de lado, nos últimos tempos, frente a outros setores que são priorizados. Assim, acreditamos que ele terá uma orientação boa nesse sentido, e o fato de ser latino-americano contribui muito nisso, já que possui uma vivencia diferenciada dos Papas europeus. Por outro lado a Igreja percebeu que acabou perdendo muitas pessoas, principalmente por deixar de atender algumas situações importes, como as sociais, e dali pode-se entender que essa escolha se deu percebendo que o âmbito social é um aspecto que precisa ter um olhar mais carinhoso.  Luiz Costella - Coordenador da Cártitas Passo Fundo

A linguagem ideal para a nova evangelização
Os desafios do Papa frente a estrutura que a Igreja encontra-se continua os mesmos. Para cada um de nós, Bispos, Arcebispos, padres, para cada um em suas comunidades os desafios continuam os mesmos. Nada começa daqui para frente, tudo é uma continuidade, e nós estamos passando por uma mudança de época. Isso significa que são mudanças de paradigmas, é uma revisão de valores e o desafio é muito profundo, pois exige um discernimento sobre o que é valor e quais os valores que se sobrepõem em qualquer cultura.  Para nós que temos fé, possuímos certeza que o evangelho transcende a cultura e cabe em qualquer uma delas. Desse modo, ele não pode ser desfigurado com a desculpa da mudança e daquilo que é mutável no tempo e que é sinal da cultura de um tempo, pois há elementos no evangelho que são perenes e precisam ser mantidas. Então encontrar a linguagem para levar a nova evangelização para essa nova sociedade é um dos grandes desafios, pois a sociedade vive a mudança e ela sente a necessidade, que todos os valores devem ser mudados. Um exemplo disso é a própria escolha desse novo Papa, quando se esperava, que fosse mais aberto e que teivesse uma concordância com aspectos e situações vividas na cultura moderna, principalmente nos aspectos que compõem o campo moral. Mas é uma expectativa desnecessária, já que não haverá Papa que mude os valores do evangelho, por mais atual e bom e autentico interprete da palavra de Deus. Mesmo assim ele não terá a licença de Jesus para mudar os ensinamentos e valores que ele quis passar.

Cada Papa é a pessoa adequada para aquele momento histórico. Então a vida desse Papa latino-americano, representando a vida do povo, e sabendo o que significa a realidade da vida da sociedade, é uma característica particular dele. Não possui preparação para a Cúria. Ele era um pastor, assim como João Paulo II, que também tinha uma diocese. Uma pessoa que vive a realidade. Além disso, ele vive a cultura latino- americana, que são bem diferentes das vividas pelos líderes da Igreja, na Europa. Ele não está assumindo essa missão por ter um perfil voltado ao povo, ou por que a Igreja percebeu que era necessário levar seu foco para esse aspecto, essa é uma característica particular dele, ele é assim. Por isso, ele escolheu São Francisco, mesmo sendo jesuíta, há também São Francisco Xavier, jesuíta, missionário, que pregou na China e no oriente, mas Bergoglio fez questão de frisar que a escolha do seu nome foi feita na figura de São Francisco de Assis, aquele que valoriza a natureza, o ambiente, a criação, a simplicidade e a pobreza.  Dom Antônio Carlos Altieri - Arcebispo de Passo Fundo

Na edição de segunda-feira (18), ON conta a história do frei que trabalhou com o novo papa e que hoje atua em Marau. E também o que esperam os especialistas em Vaticano.

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