Você sabe o que é Constelação Familiar?

Método terapêutico fundado pelo alemão Bert Hellinger ajuda pacientes a resolverem traumas pessoais e agiliza acordos na Justiça

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A terapia pode ser aplicada através de bonecos ou em grupo com ajuda de voluntários

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Para quem não o conhece, o termo constelação familiar pode gerar interpretações confusas. Ao contrário do que soa em um primeiro momento, este tipo de trabalho não tem qualquer ligação com astrologia, esoterismo ou religiosidade, e sim com terapia. A constelação familiar consiste em um método baseado nos estudos do alemão Bert Hellinger, que busca a resolução de conflitos interpessoais e problemas relacionados à psicologia do indivíduo partindo do entendimento de que a forma com que alguém se relaciona é, quase sempre, um reflexo daquilo que ela carrega em suas memórias da ancestralidade ou das experiências que viveu, desde o momento do seu nascimento até a fase em que se encontra.


Enquanto alguns procuram a prática para solucionar um conflito familiar, outros buscam entender de onde surgem suas dificuldades em se relacionar com outras pessoas. Independente de qual seja a situação, a ideia principal das constelações é entender a origem do conflito interno enfrentado pelo paciente e libertá-lo disso. Pode-se dizer que a técnica funciona como uma espécie de orientação. Deixa de enxergar apenas o individual e passa a perceber o contexto e o histórico familiar de cada pessoa, em uma perspectiva sistêmica. O propósito é compreender em profundidade as origens do problema, que pode ter sido “herdado” de outras gerações da família. Isto porque, segundo o criador da teoria, existem três leis naturais que atuam nos relacionamentos humanos - chamadas também de leis do amor: a hierarquia (estabelecida pela ordem de chegada), o pertencimento (estabelecido pelo vínculo) e o equilíbrio (estabelecido pelo dar e tomar/receber). “Quando tais leis são violadas numa família, surgem compensações que atuam nos membros da mesma, como depressões, doenças, dificuldades nos relacionamentos e dificuldades financeiras”, explica a psicoterapeuta da Academy Healing Arts, Carla Dalbem, que atua em Passo Fundo há dez anos na área das constelações.


O método
Antes de realizar uma constelação, o paciente passa por uma avaliação, para que o constelador possa compreender o que levou aquela pessoa a procurar por ajuda e qual é o conflito que ela tenta solucionar. Assim, é possível estabelecer também qual é o melhor método a ser aplicado, já que a constelação pode ser feita individualmente, com o uso de bonecos, ou em grupo, com a ajuda de voluntários.


No primeiro caso, quando a constelação é individual, o constelador senta-se com o paciente em uma sala e dá a ele uma caixa com diversos bonecos, com características masculinas e femininas, de tamanhos grandes e pequenos, e pede que os posicione em uma superfície de modo a representar sua família ou as pessoas com quem ele tem um conflito. A justificativa para o pedido é porque, embora seja conhecido no Brasil como constelação, o termo original deste método, vindo do alemão, significa “colocação” ou “representação” familiar. Ou seja, o ato de posicionar certos elementos numa configuração dada. “Tem a conotação de uma representação, uma colocação onde os elementos são posicionados numa certa configuração de relações”, Carla esclarece.


Depois que o paciente conclui a representação, o constelador começa a fazer a leitura dela, baseando-se naquilo que sabe sobre o problema do paciente e no modo como ele posicionou cada membro da própria família. A consteladora e fundadora do Centro de Estudos das Lealdades Parentais Invisíveis (CELPI), Maria Justina Mottin Nunes, explica que a partir dessa representação é possível começar a ver, por exemplo, quem está vinculado a quem, se há relacionamento entre os representantes ou não, entre outros padrões. “Começamos a perceber, baseados nas ‘leis do amor’, onde houve algo que rompeu o fluxo dos relacionamentos ou vinculou em demasia... Então há uma parte que é a prática do conhecimento e aplicação dessas leis e outra que é a sensibilidade do profissional que está acompanhando o processo do cliente”.


Quando feito em grupo, o tratamento é um pouco diferente: em uma sala, pacientes e voluntários se reúnem, para que a representação seja feita. Após um exercício de relaxamento, um dos pacientes conta o seu problema e escolhe alguns voluntários. Se, por exemplo, uma mulher está em conflito com o ex-marido e luta pela guarda do filho que tem com ele, ela pode escolher para a representação três voluntários: um para encenar ela mesma, um para o homem e um para a criança. Tudo, é claro, com o acompanhamento de um constelador preparado, que guia a representação e ajuda o paciente a entender o que fez com que o casal chegasse àquele conflito e como ele poderia ser resolvido. “Graças à representação, o cliente pode perceber onde o seu amor está preso e o que ele pode fazer para que tais leis possam ser novamente respeitadas e o amor possa voltar a fluir. Então ele pode, talvez, enxergar o próximo passo que o conduza de uma maneira mais leve na vida, solucionando a questão que o incomoda”, Carla explica.


Funcionária da Academy Healing Arts, Márcia Zanchin já foi voluntária em um dos encontros de constelação e conta que a experiência é única. “Quando eu participei, encenei a irmã falecida de uma paciente. Mesmo depois que a representação terminou, eu não conseguia sair do lado da voluntária que representava a paciente. Uma energia muito forte se estabelece no grupo, é preciso participar para entender”. Assim, é muito comum que sessões de constelação apresentem uma forte carga emocional e, por isso, não é recomendado constelar seguidamente. “A constelação é um processo terapêutico breve. Eu gosto muito de usar o exemplo do lago. Quando você joga uma pedra em um lago, a água ondula, vai ondulando até alcançar as bordas e leva um tempo para se acalmar de novo. A constelação é como se fosse esse lago, você precisa que as águas parem novamente para voltar a jogar uma pedra”, exemplifica a psicoterapeuta passo-fundense.

 

É um complemento
Além do forte fator emocional, por ser um fenômeno ainda em estudos a constelação não deve substituir o tratamento médico psiquiátrico e sim complementá-lo. Segundo Carla, os consteladores - que nem sempre têm formação psiquiátrica - trabalham normalmente em conjunto com médicos e psicólogos, para que todos saiam ganhando, principalmente o paciente. Em consonância com a afirmação, a consteladora do CELPI diz que, para ela, a constelação pode complementar toda e qualquer atividade ou área da vida, por se tratar de colocar cada elemento no seu devido lugar, favorecendo, assim, o fluxo da vida e das relações.

 

Conflitos abrangidos pela técnica
Por basear-se nas leis universais das relações humanas, todos os conflitos podem ser olhados através dessa abordagem, visto que o conflito é uma manifestação de que algo rompeu com a harmonia da relação, seja por alguém ter sido excluído, por alguém querer resolver o que não lhe compete desrespeitando a hierarquia ou por querer compensar o que faltou em uma relação de troca. “A pessoa pode não saber nada da sua história, mas ela sente como um impulso inconsciente e isso a impulsiona para tal. Isso é mais forte que sua vontade consciente e quando percebe está agindo por esses impulsos. E sempre por amor, na visão da constelação. Sempre querendo inconscientemente ajudar, reestabelecer a ordem”, explica a consteladora Maria Justina.


A consteladora explica ainda que as constelações são um formato de representação do inconsciente familiar. “Como somos a continuidade de nossos antepassados, dentro de nós temos a memória de tudo o que se passou de bonito e de difícil em todos os que existiram antes de nós”. Como Hellinger já enfatizava ao estudar as constelações familiares, é comum que problemas enfrentados pelos pais repitam-se nos filhos, como nos casos de infidelidade conjugal, alcoolismo, problemas financeiros, dificuldades de relacionamento e afins. À visão de Maria Justina, Carla Dalbem complementa: “em algumas situações, o problema individual pode ser consequência de uma influência externa. Por isso, a constelação familiar leva em consideração padrões que se repetem ao longo das gerações. A maior parte dos problemas que afetam a todos nós têm uma relação com o nosso contexto, ou seja, com a nossa família”.


Direito Sistêmico
Pela abrangência de conflitos que a constelação familiar se propõe a resolver, ela tem sido utilizada além da área da saúde, alcançando o âmbito jurídico: trata-se da prática conhecida como Direito Sistêmico. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, em pelo menos 11 estados do Brasil, entre eles o Rio Grande do Sul, juízes têm levado a dinâmica aos tribunais para agilizar acordos na Justiça. “A intenção da utilização da técnica no Judiciário é esclarecer para as partes o que há por trás do conflito que gerou o processo judicial. Os conflitos levados para uma sessão de constelação, em geral, versam sobre questões de origem familiar, como violência doméstica, endividamento, guarda de filhos, divórcios litigiosos, inventário, adoção e abandono”, explica Carla. Assim, os envolvidos podem evitar o esgotamento emocional trazido por um processo judicial e diminui-se a fila interminável de processos na Justiça brasileira.


Práticas integrativas do SUS
Desde março deste ano, a constelação foi incluída pelo Ministério da Saúde como uma das Práticas Integrativas e Complementares oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Com as novas atividades, o SUS oferta agora 29 procedimentos terapêuticos, ao todo. Em Passo Fundo, no entanto, ainda não há previsão de quando a prática será oferecida, segundo a secretária de Saúde do município, Carla Beatrice Gonçalves.


Formação em Constelação Familiar e Direito Sistêmico
A Universidade de Caxias do Sul (UCS) foi uma das primeiras universidades do Brasil a abrir as portas para esse conhecimento na área do judiciário. Em 2016, em parceria com o CELPI, ofereceu Formação para a aplicação da abordagem nas questões jurídicas com a participação de professores, juízes e advogados, que já haviam colocado em prática em seus locais de atuação. Agora, a instituição vem oferecendo essa Formação em diversas cidades, sendo uma delas Passo Fundo, que recebe o curso a partir desta sexta-feira (20), com aulas até outubro. Mais informações podem ser acessadas no site da UCS.

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