Conto do bilhete: Passo Fundo faz escola

Golpe antigo faz pelo menos três vítimas por semana no município. E daqui saem os estelionatários que aplicam golpes em outras cidades

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 Dona Irene* entrou no banco por volta das 10h do dia 7 de outubro deste ano. Sacou o que havia economizado durante anos: R$ 19 mil. A transação não gerou suspeita porque a aposentada é cliente do banco há três décadas. Saiu do local e entrou num automóvel que a esperava. “Melhor você não andar com todo esse dinheiro na bolsa”, disse o motorista do veículo, que sugeriu guardar o valor no porta-malas. Ela seguiu o conselho e entregou-lhe a bolsa.

Além de dona Irene e do motorista, havia uma terceira pessoa: um indivíduo que dizia ter um bilhete de loteria premiado e precisava de ajuda para retirar uma quantia de mais de R$ 800 mil. Após sair do banco, enquanto transitavam pelo centro de Passo Fundo, o dono do bilhete disse estar passando mal. O motorista do veículo pediu para aposentada comprar uma garrafa d’água. A idosa desembarcou na rua Independência e foi a um mercado. Ao sair do estabelecimento, Dona Irene entrou para estatística das vítimas de um crime tão velho quanto rotineiro em Passo Fundo: o golpe do bilhete premiado.

A lábia
“Se a Globo descobre, contrata esses malandros. Eles são uns artistas, qualquer um cairia no golpe”, diz Dona Irene, que contou o ocorrido apenas para a polícia e uma amiga. A conversa que resultou na perda das economias da aposentada começou na rua Paissandu, no centro de Passo Fundo. “O cara me abordou, disse que era de fora, analfabeto, e perguntou onde era a rua Bahia”, lembra. “Disse que não sabia”. A conversa prosseguiu. O golpista, com sotaque de “colono” – como identifica a vítima –, disse que havia recebido um bilhete premiado como troco. Sem querer ajudar, a aposentada aconselhou. “Quem sabe você não pede ajuda para aquele rapaz?”, disse, referindo-se a um homem bem vestido, que falava ao telefone, próximo aos dois.  O dono do bilhete foi conversar com o tal homem, que se apresentou como um corretor de imóveis. Era, na verdade, um comparsa.

Este segundo fingiu ligar para a Caixa Econômica Federal, deixando o telefone com o viva-voz ligado. O atendente confirmou a informação de que o bilhete era, de fato, premiado. A ligação, os dois homens e o bilhete eram parte da mesma farsa. Dona Irene não se deu conta. “Eu não queria o dinheiro. Quando vi que ele [o suposto corretor de imóveis] cresceu o olho para o prêmio, achei que o outro coitado ia ser logrado”, diz. “Por isso quis ajudar”. E entrou num “baita carro”.

Antes de chegar ao banco, o dono do bilhete pediu uma garantia em dinheiro para ter certeza de que a idosa e o “corretor de imóveis” eram “pessoas de bem”, e que não iam roubá-lo. A vítima, então, informou aos golpistas o valor que tinha em uma conta. “Fui muito burra. Por que eu tinha que mostrar?”, lamenta. O segundo golpista foi até uma casa e voltou de lá com uma sacola com dinheiro. “Ele disse que tinha R$ 40 mil. Mas, pensando agora, acho que eram apenas papéis”. Após isso, os três foram ao banco, onde a aposentada sacou o dinheiro.

*A vítima pediu para que sua identidade fosse preservada.

A polícia
A Polícia Civil de Passo Fundo recebe de três a cinco ocorrências do golpe do bilhete premiado por semana. É uma conta que retrata parte do problema, porque, em muitos casos, a vítima não presta queixa. É fácil entender o motivo. O golpe é tão antigo e conhecido que quem o sofre prefere não registrar a ocorrência porque sente vergonha da situação. O golpe de bilhete premiado é enquadrado no artigo 171 do Código Penal Brasileiro como crime de estelionato, sob a definição de "obter, para si ou para outro, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento”. A pena para esse tipo de crime pode chegar a cinco anos. No entanto, geralmente os indiciados respondem o processo em liberdade, de acordo com o delegado Diogo Ferreira, da 1ª Delegacia de Polícia Civil de Passo Fundo. “É um crime complicado de reprimir porque, como a pena é baixa, é difícil o estelionatário ficar preso e isso gera uma sensação de impunidade. Mesmo quando condenados, dificilmente vão presos”.

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