O que é felicidade?

Conceito é visto com o bem mais almejado do ser humano, mas não existe uma definição única para o que é de fato ser feliz

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· 8 min de leitura

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fe·li·ci·da·de
sf
1 Estado de espírito de quem se encontra alegre ou satisfeito; alegria, contentamento, fortúnio, júbilo.
2 Acontecimento ou situação feliz ou alegre; sorte, sucesso, ventura: Atrasei-me para viajar, mas, por felicidade, cheguei a tempo de pegar o avião.
(Fonte: Michaelis Dicionário)

 

Nesta época do ano, quando metas são traçadas para o novo período que se inicia, é comum ouvir a frase: “eu desejo ser feliz!”. O comportamento não é novo. Há milhares de anos, a felicidade é apontada como uma das maiores buscas do ser humano, mas o seu conceito é amplo e bastante divergente. Filósofos, historiadores, psiquiatras, teólogos, educadores e sociólogos formularam questionamentos acerca do tema inúmeras vezes ao longo da história, sem nunca chegar a uma resposta definitiva. Mesmo dentro de uma mesma cultura, o modo como cada pessoa enxerga o termo pode variar significativamente. Afinal, o que é a felicidade?

 

A felicidade a partir da filosofia
Há muito tempo, a filosofia já refletia sobre a felicidade. Dedicada a estudar questões da existência humana, a disciplina constantemente se debruça sobre esse misterioso conceito. No Ocidente, as reflexões filosóficas acerca da felicidade iniciaram com os gregos, sendo Sócrates seu precursor ao propor à humanidade a seguinte questão existencial: “em que consiste a felicidade?”. Depois disso, muitas figuras foram importantes para o desenvolvimento das reflexões acerca do que é ou não ser feliz. Doutor em Filosofia, Nadir Pichler cita principalmente os estudiosos Platão, Aristóteles, Epicuro, Sêneca, Marco Aurélio, Agostinho e Tomás de Aquino, com repercussões na modernidade por meio de Montaigne, Espinosa, Kant, Schopenhauer e Nietzsche.


No entanto, ainda segundo Pichler, mesmo depois de tantas reflexões, até hoje é praticamente impossível definir a felicidade de forma satisfatória, devido à sua complexidade. “Em linhas gerais, os estudos antigos e atuais concebem a felicidade como o bem supremo do homem, com fim em si mesmo. Ou seja, de acordo com Aristóteles, é o bem mais almejado que as pessoas aspiram na vida”, explica. De acordo com o filósofo, nessa linha de estudos a felicidade pode ser entendida como um estado de satisfação e desenvolvimento interior, pautado em aspectos como contentamento, saúde, cuidado, moral, sucesso e bem-estar físico, psíquico e espiritual. Também está ligada à qualidade de vida, segurança, liberdade de escolha, autonomia, envelhecimento saudável, inteligência, conhecimento, capacidade funcional, amor, emancipação, criatividade, admiração e agir. “É ser moderado nas ações e desejos. São muitos os atributos da felicidade”, completa.

 

O “ser feliz” na atualidade
Por se tratar de um assunto atemporal e universal, é possível observar trabalhos mais recentes que se ocupam sobre a temática. Através de filósofos como Pierre Hadot, Michel Foucault, André Comte-Sponville e Luc Ferry, observa-se como o conceito de felicidade sofreu mutações ao longo da história e, hoje, em muito contribui para a sociedade do capital. “A felicidade agora se alicerça na busca pela performance, na produção de bens e serviços, pelo trabalho e estudo, no culto ao corpo esbelto, no consumo e, principalmente, no dinheiro, que tornou-se o bem supremo. O mundo configura-se em torno do dinheiro e por meio dele são realizadas operações comerciais pautadas no caráter materialista, produtivista e subjetivista, tomando inclusive as relações humanas, que assumem a condição de ‘descartabilidade’, porque foram objetivadas”.


Neste âmbito, em que a felicidade se liga ao consumo, Pichler avalia que o homem tornou-se desligado da cultura e dos valores tradicionais. “Parece que a ausência de profundidade, o apego frenético ao bens materiais e o vazio existencial profundo são as categorias que melhor caracterizam o homem atual”. Na percepção do filósofo, o bem-estar atual, inserido nesse contexto, busca duas formas de felicidade. Uma, materialista, é almejada pela maior parte das pessoas e está fundada nas relações humanas pragmáticas em torno do útil e do consumo de bens exteriores. Outra é estruturada em torno da noção da existência, da significação, da espiritualidade e da busca pela transcendência. “Essa segunda noção de felicidade se aproxima da visão clássica das éticas teleológicas pautada nos bens interiores, da alma, teses que defendem que a busca desses bens proporciona uma felicidade mais duradoura e substancial, porém jamais perfeita”, elucida.

 

Psiquiatria e felicidade
Dentro da psiquiatria, ramo da medicina que estuda questões psíquicas e mentais, também não existe consenso que permita uma definição única para a felicidade. De acordo com o mestre em Psiquiatria Jorge Alberto Salton, nas pesquisas sobre o tema a palavra felicidade tem dado lugar para o termo “bem-estar”. E, neste caso, se refere às sensações de alegria, confiança, esperança e paz interior - nota-se que são todas sensações passageiras. Assim é também a felicidade segundo a psiquiatria: sempre temporária, mesmo para quem tem como principal meta na vida alcançá-la. “O filósofo Epicuro há mais de dois mil anos já propunha: ‘A boa vida nesta vida, a felicidade neste mundo deve ser a nossa meta’. Eu penso que essa meta não se alcança indo diretamente atrás dela. Ela vem como consequência. O modo como a vida se apresenta a nós depende de como estamos lidando com ela”, expõe.


Para alcançar momentos de felicidade, a psiquiatria entende que a satisfação de prazeres é necessária e natural, motivo pelo qual sentimos sempre um impulso para que desejos sejam concretizados. “São as satisfações que obtemos através de nossos órgãos sensoriais. Por exemplo, escutar uma música, fazer sexo, comer, assistir um filme. São necessários, mas passageiros. Já as chamadas atividades gratificantes, estas trazem a sensação de bem estar, de felicidade, de forma duradoura. Em vez de só ouvir música, aprender a tocar um instrumento musical. Em vez de só saborear uma janta, aprender a cozinhar. Enfim, são consideradas gratificantes as atividades em que somos levados a desenvolver habilidades, nelas construímos algo e não só consumimos algo”, o psiquiatra frisa.


Constantemente, essa compreensão da satisfação de desejos é deturpada pelo consumismo. Compra-se esperando que a aquisição de bens materiais, como a filosofia já explicava, sirva como um caminho para a felicidade. No entanto, para a psiquiatria, esse comportamento deve ser motivo de alerta. “Epicuro aconselhava, ‘Para viver bem, precisamos exorcizar desejos impostos, não naturais e nem necessários que habitam nossas mentes’”, cita Salton. O que a psiquiatra busca explicitar, neste sentido, é que ao consumir algo por necessidade a sensação boa persiste. Por outro lado, o consumo motivado por pressões, submissões e adesões a modismos resulta apenas em uma sensação prazerosa que não perdura e ainda alimenta um ciclo vicioso de compras.

 

Mas afinal, existe uma fórmula para a felicidade?
Mesmo que a resposta costume ser negativa, de acordo com Salton, alguns estudiosos já propuseram sim uma fórmula. Entre eles, está o psicólogo norte-americano Martin Seligman, que certa vez estabeleceu o seguinte modelo: bem estar (felicidade) = hereditário + circunstancial + voluntário. “Significa que herdamos uma tendência a determinado nível de variação da felicidade. As circunstâncias, ou seja, o ambiente em que temos de viver poderá nos levar ao ponto mínimo ou máximo de nossa variação herdada. Mas também, segundo Seligman, há um espaço para nossa ação voluntária. Podemos adotar estilos de viver que podem melhorar nossa sensação de bem estar”, explica o psiquiatra.


Essas ações voluntárias podem ser, por exemplo, aceitar que de tempos em tempos o ser humano tem sofrimentos. “Buda já dizia que você não está sozinho quando sofre, pois na vida é inevitável a experiência de sofrimento. É condição humana. Mas, vamos passar por eles e vamos parar de pensar neles. Vamos focalizar nossas lembranças nos ‘melhores momentos’ e não nos ‘piores momentos’. É certa a frase que diz: ‘O mal é pensar muito no mal’. Quando muito se fala no mal, sobra pouco espaço para o bem. O hábito de muito criticar, de muito apontar os aspectos negativos da nossa vida e da vida dos outros gera desesperança e nada mais. Ajuda também a sentir bem estar quando procuramos fazer crescer em nós capacidades que nos fazem achar que somos boas pessoas”.


Os relacionamentos que o indivíduo constrói no decorrer de sua vida também exercem um papel fundamental na felicidade, a começar na relação consigo mesmo, ainda segundo Salton. “Temos de ter empatia por nós mesmos e pelos outros. E assim conseguir boas relações. E temos de tentar lidar de forma inteligente com as dificuldades que as relações muitas vezes nos trazem, a começar por olhar para nossas dificuldades em estabelecermos bons relacionamentos. Os ‘demônios’ não estão somente dentro dos outros, pois quem de nós, em dado momento de nossas vidas, já não foi uma pessoa difícil de se conviver?”, reflete.

 

Yoga do Riso
Na constante tentativa de alcançar a felicidade, alguns exercícios foram desenvolvidos com o passar do tempo, como é o caso do Yoga do Riso. Trata-se de um método único, criado em 1995 por um médico indiano chamado Dr. Madan Kataria, e que aos poucos ganhou o mundo. O nome “Yoga” se deve ao fato de a prática combinar pranayamas (respirações) do Yoga clássico, mas este modelo consiste basicamente em possibilitar que qualquer pessoa ria sem motivo ou razão e sem depender de piadas ou comédia. Líder e professora do Yoga do Riso, Lucia Gorgen oferece a prática em Passo Fundo e explica que ela é preferencialmente praticada em grupo. Durante a sessão, os participantes são incentivados a manter contato visual uns com os outros, sempre olhando com atitude alegre, para que a troca de olhares rapidamente se converta em um riso genuíno e acabe contagiando a todos. “Não rimos do outro, mas com o outro”, ela destaca.


Para Gorgen, ao incentivar o riso o exercício tem uma ligação direta com a busca pela felicidade, inclusive fisiologicamente, porque libera endorfina, ocitocina, dopamina e serotonina, que são hormônios do bem-estar ou, como muitos chamam, hormônios da felicidade. “Rir relaxa, silencia a mente, gera um outro olhar sobre nosso ser e sobre a forma de encarar a existência. Passamos a ser mais amorosos, acolhedores, gratos e conscientes. O riso é básico na construção de minha percepção de felicidade. Quem pratica o riso (que não é apenas sorriso), experimenta a afirmação do Dr. Kataria: ‘Não rimos porque somos felizes. Somos felizes porque rimos’”.


O que é felicidade para você?
“Felicidade é alegria, união, família. Para mim, o melhor da felicidade é estar com as minhas netas e os meus filhos. Não existe felicidade maior.”
Mari Roani Loss, 74 anos

 

“Felicidade para mim é você estar feliz consigo mesmo, se aceitar do jeito que você é e ter consciência de que as suas atitudes não influenciam negativamente a sociedade em que você vive.”
Gabriel do Nascimento Siqueira, 26 anos

 

“Felicidade para mim é um estado como você se encontra. É tudo aquilo que você um dia sonhou e, no momento que isso se realiza, você sente a felicidade. Eu, por exemplo, sempre quis ter filhos, casar, trabalhar, estudar. No momento que eu conquistei isso, eu vi que para mim a felicidade é isso. Antes eu pensava que ser feliz era sempre estar nesse sentimento de euforia, mas agora eu entendo que felicidade são momentos, aqueles momentos que você busca para si, que você quer para a sua vida. É cada momento de conquista e de realizações.”
Glazeli Trindade Dalle Zotte, 53 anos

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