A internet que quase ninguém vê

O que e quais são as camadas do mundo digitais que permitem o anonimato e são utilizadas por extremistas para disseminar ódio

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Dos ataques virtuais e ameaças de morte via e-mail à consolidação de massacres planejados online, pessoas ligadas a grupos extremistas valem-se do anonimato e da complexa cadeia de redes da deep e darkweb para executar ações de ódio. Essas camadas mais profundas da internet ficaram em evidência após serem apontadas como o meio intermediário e de mentoria utilizado pelos jovens responsáveis pela chacina, na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, e do massacre em duas mesquitas muçulmanas, na Nova Zelândia, há duas semanas. Juntos, os dois ataques foram responsáveis pela morte de quase 60 pessoas, entre elas, cinco adolescentes. Em comum também há o discurso de ódio que os alimentava e era disseminado pelos atiradores em fóruns da dark web.

O coordenador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Inclusão Digital da Universidade de Passo Fundo (Gepid/UPF), professor Dr. Adriano Canabarro Teixeira, explica que, mesmo depois dos assassinatos em massa, é praticamente impossível rastrear as atividades na parte obscura da internet. “A dark web me garante anonimato e é onde eu consigo navegar a partir de protocolos, como o ‘.onion’, ou a rede Tor. Eles fazem com que a minha máquina, a cada segundo, tenha um endereço IP de algum lugar do mundo e é isso que abre possibilidades”, esclarece.

Essa teia de computadores e roteadores ao redor do globo é, portanto, usada como caminho para burlar as autoridades policiais e os serviços de inteligência em um território ocupado, virtualmente, por mais da metade da população do planeta Terra. O último relatório Digital In aponta que 4 bilhões de usuários estão conectados à internet; mais de 100 milhões deles, no Brasil. Uma dessas usuárias cotidianas das plataformas virtuais é a designer de moda e estudante de Música, Mariana Sfalcin.

Assim que entrou na conta pessoal do Twitter, a jovem passo-fundense levou um susto. Em poucas horas, havia mais de 12 mil comentários acusatórios em uma publicação que havia feito sobre o veganismo. “Eu fiquei durante uns três dias respondendo as mensagens para tentar explicar o meu ponto de vista, já que sou defensora da causa. Mas, isso gerou uma obsessão e eu tentei contestar para que ninguém continuasse a me odiar”, relata.

A onda de reações durou, aproximadamente, duas semanas. Durante esse tempo, Mariana conta não entender a motivação e, mesmo tentando dialogar, os perfis mantiveram o teor dos textos. “Eu fiquei muito triste porque eles só sabiam xingar, pareciam não querer entender o que eu explicava”, menciona.

 Uma máquina de ódio

Nessa aldeia global de conexão, a maioria dos Chans - fóruns de discussão que, em determinados casos, tornam-se radicalizados -, estão hospedados na superfície da internet, conhecida como Deep Web, e podem ser acessados por qualquer pessoa. Os membros, no entanto, são anônimos, e o sistema não guarda nenhuma informação que seja capaz de revelar de onde as mensagens partiram. “As pessoas utilizam porque o nível de segurança é maior, assim como a garantia de que você não vai ser identificado a partir de um processo investigativo, por exemplo”, analisa Teixeira.

Há sete anos, a reunião de homens racistas, misóginos e homofóbicos se prolifera em uma camada ainda mais profunda da internet, produzindo ameaças, difamação e atentados. O ponto de encontro entre eles é Dogolachan, uma das mais notórias versões brasileiras dos chans e frequentado pelos atiradores de Suzano até a execução dos crimes e o suicídio. As mortes foram celebradas entre os dogoleiros ou confrades, nome pelo qual são conhecidos os usuários do espaço, e os assassinos foram enaltecidos como "heróis”, “cidadãos de bem e honrados” pelos channers. As informações são do portal Ponte Jornalismo, que há anos investiga os chans.

Embora os massacres sejam a expressão mais radical desses grupos, os membros trocam dicas de como fabricar explosivos, coquetéis molotov e ácido sulfúrico, além de programar ataques virtuais e de imagem àqueles que consideram “escória” - mulheres, negros, homossexuais e imigrantes.  Uma dessas vítimas foi a blogueira feminista Lola Aronovich, que afirmou ter recebido “milhares de mensagens de morte”. Ela foi acusada por um dos fundadores do Dogolachan, Marcelo Mello, de infanticídio e aborto, a partir de uma página criada por ele para difamá-la. As denúncias de Lola ajudaram a Polícia Federal a prender Mello na Operação Bravata, no ano passado. Ele foi condenado a 41 anos de prisão por associação criminosa, divulgação de pedofilia, terrorismo e racismo.

O coordenador do Gepid, professor Dr. Adriano Canabarro Teixeira, pondera que, embora haja grupos radicalistas, algumas pessoas não utilizam a deep ou a dark web para fins nocivos. “A grande questão não é a tecnologia, mas o uso que se faz dela. E o uso que eu faço dela tem tudo a ver com a minha visão de mundo, com os meus valores e aquilo que eu acredito ser certo e ser errado. Por isso, temos que cuidar para não demonizar a web. Ela pode ter potencializado, mas o que aconteceu é muito mais dos valores éticos e morais dos envolvidos”, avalia.

O que a Psicologia tem a dizer sobre

Os especialistas coincidem na análise sobre as motivações, especialmente quando tange a influência de games e demais produtos eletrônicos. “Não há nenhum estudo que comprove que jogos violentos levem a atos violentos. Mas, sim, existem pesquisas que afirmam que é um gatilho. Além disso, não é necessário ter o crivo de alguém para acessar, então é aí que entra o trabalho da família em acompanhar”, menciona Teixeira.

Planejar por meses um ato cruel, ter o sangue frio de atirar contra seres humanos em situação de vulnerabilidade, cometer suicídio logo após a barbárie, aceitar entrar em fóruns sádicos ou ameaçar praticar algo semelhante em escolas. Em uma análise superficial, esses indivíduos são descritos como psicopatas pela ampla maioria de quem acompanha o caso. A ciência, contudo, afirma que a maioria dos perfis dos atiradores não apresenta elementos de psicopatia. Para a psicóloga Eliete Lottermann, os fatores emocionais pesam na hora de lançar um olhar mais cuidadoso aos envolvidos. “O perfil psicológico ou a personalidade depende dos estímulos que a pessoa recebeu, do ambiente onde ela cresceu e dos exemplos que ela teve. Às vezes, faltou um olhar mais atencioso e de carinho, e isso influencia no psicológico”, afirma.

 

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