Wrana Panizzi:

Primeira mulher à frente da UFRGS, integrou o VI Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo

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· 5 min de leitura
Wrana atua no magistério há mais de 50 anos. Atualmente, se mantém lecionando na UFRGS

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Enquanto escrevia as últimas anotações, já posicionada diante dos docentes da rede municipal de ensino durante o VI Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo, na última quinta-feira (22), aos 70 anos, a filósofa e advogada Wrana Panizzi conversou com a reportagem do jornal O Nacional sobre o contexto educacional do país, a carreira voltada ao ensino, que elegeu há mais de 50 anos quando graduou-se em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e mantém ativa "por aí", como mencionou, e o suporte entre ensino básico e superior, defendido por ela com a propriedade de quem esteve à frente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) durante dois mandatos, entre os anos de 1996 a 2004, e acrescenta ao currículo um doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Sorbonne, na França.

JORNAL O NACIONAL: Professora Wrana, o que representa para a senhora retornar à UPF para esse diálogo com os docentes da rede municipal?

WRANA: Já faz muito tempo que estou no ensino superior, como professora universitária [Wrana é professora titular na UFRGS]. Mas, não vejo muita separação e busco sempre uma maior integração entre o ensino básico com a universidade. Considero, tanto a escola quanto a universidade, instituições com a responsabilidade de promover a educação e a educação como um bem público. Todos têm direito à educação. E eu diria mais: todos temos direito a uma educação de qualidade porque a educação é res pública, que significa coisa de todos. Então, voltar aqui e fazer essa discussão é interessante, animador e revitalizador porque eu me reencontro com professores. Somos colegas, pares. Estamos aqui discutindo mais uma crise muito dura pela qual passa a educação brasileira hoje. Aliás, essa crise não é só nossa. É uma crise que perpassa o mundo inteiro e eu acho que um seminário como esse, que reúne professores de escolas municipais e também pessoas da universidade, nos faz pensar: mas, afinal de contas, por que a nossa atividade está em crise? Em qual instância essa atividade, de sermos professores e promovermos a educação, acontece?

ON: E como é possível pensar o ensino a partir disso?

WRANA: Esse é um trabalho de todos nós, naquilo que a gente chama de esfera pública. É uma ação pública. Essa atividade se dá num contexto que, hoje, está sendo solapado. Temos uma presença do que chamamos de mundo privado, que se expressa através do mercado, muito forte solapando muitas das nossas ações públicas, como é a educação. É uma crise forte e ela se expressa como? Com a diminuição de recursos financeiros. Não é apenas as universidades que estão em crise financeira, mas também as nossas escolas. Em crise financeira e de qualificação porque é necessário que os docentes se qualifiquem contantemente porque ser professor e promover a educação é uma atividade permanente.

Por outro lado, há uma falta de professores. Ser professor perdeu o glamour. E não é esse glamour de ser só glamouroso, de ser brilhante. Mas é esse glamour de ter uma função que faz parte do nosso processo civilizatório. Só vamos avançar quando tivermos a oportunidade de fazer uma educação que não tenha um caráter apenas operacional porque só vamos replicar as coisas, mas um ensino que seja capaz de pensar, de olhar pra realidade, de entender as demandas que o mundo hoje nos apresenta e fazer do nosso fazer uma atividade que seja capaz de oferecer algumas alternativas para a sociedade na valorização da educação como este bem público.

ON: A senhora mencionou essa capacidade crítica que os professores despertam. Então, com a sua experiência no magistério e nas instituições científicas, como o CNPq, como você avalia os cortes de recursos na graduação e também na pesquisa?

De um lado, os cortes representam o quê? Estamos em dificuldade? Estamos. Mas, por que isso se expressa em cortes justamente nas atividades educacionais e científicas, que são aquelas que nos tornam mais livres, mais autônomos e cidadãos? Com essas três qualidades que a educação nos dá, portanto, ela fortalece o nosso papel político. É uma ação política. Então, por que enfraquecer isso quando a educação é tida como aquela capaz de promover um desenvolvimento? Mas, qual desenvolvimento que nós queremos? Um desenvolvimento que seja mais harmônico e combata um dos grandes problemas, que inclusive tem sido muito pouco falado, que a nossa profunda desigualdade. Nós somos um país rico potencialmente, mas com profundas desigualdades. Então é preciso dar uma maior equidade à educação para que as pessoas possam ter acesso.

ON: E o que isso representa para nós enquanto sociedade?

WRANA: Primeiro, que nós queremos uma educação meramente operacional que não promva o pensamento. O nosso fazer tem que estar sustentado no mínimo de racionalidade, e quando digo racionalidade é uma racionalidade com compromisso social. É preciso que a gente desenvolva essa capacidade nas pessoas e olhe para as transformações que estão passando pela nossa sociedade hoje e o quanto elas precisam da educação. Uma educação não pra repetir e fazer mais do mesmo, mas uma educação para promover um enriquecimento humano no nosso processo civilizatório.

ON: Isso se reflete, também, na tentativa de neutralização de intelectuais como Paulo Freire, por exemplo?

WRANA: Não é só Paulo Freire. O conhecimento científico tem que responder para que promovemos o conhecimento; para quem serve o conhecimento e pra qual sociedade. Então, estamos privilegiando uma abordagem do conhecimento que nos tecnifica, que nos torna unicamente fazedores de coisas. É uma discussão entre o fazer e o pensar. E que tipo de gente nós precisamos? Pessoas que saibam pensar para bem fazer e pessoas que com o seu fazer avancem na atividade do pensar. Nós não somos no singular, somos no plural, e essa nossa pluralidade precisa ser abastecida no respeito a sua singularidade, mas também na sua multiplicidade.

ON: Professora, anteriormente, a senhora falou sobre a equidade. No seu currículo, consta que a senhora foi a primeira mulher eleita para reitoria da UFRGS. A academia ainda é um ambiente machista?

WRANA: Se eu disser que não, o movimento feminista vai me bater [fala em tom descontraído] e eu não posso dizer isso porque, de fato, isso vem desde quando o trabalho foi dividido. Nós, mulheres, ficamos sempre com o trabalho doméstico, com as tarefas do espaço privado. Quando nós saímos desse espaço privado e vamos para outras tarefas que são do espaço público, nós caminhamos na direção de um empoderamento mais dividido, partilhado. Em uma visão mais de solidariedade. Aqui, em Passo Fundo, também tem a sua primeira reitora [disse, referindo-se à reitora a UPF, Bernadete Dalmolin]. Assim as coisas vão andando. Eu fui professora do primário e, no meu tempo, diziam que “ser professorinha do primário era tudo aquilo que queriam que nós fossemos" e que os homens casassem, de preferência, com uma professorinha do primário, boa dona de casa. Quase que diria recatada e do lar [menciona com um sorriso]. Eu quero dizer que temos que somar nossos talentos e potencialidades e nos tratarmos com respeito.

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