Da rua para o trabalho formal

Desde o final do ano passado, o Projeto Transformação, em parceria com a prefeitura, dobrou o número de trabalhadores nas quatro cooperativas de reciclagem existentes em Passo Fundo

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Maria Carmelinda da Rosa, 49 anos, exibe com orgulho o crucifixo encontrado no lixo há cerca de dois anos. Já a filha, Eliana de Moraes, 36, puxa a manga da camiseta e mostra a tatuagem no braço com a inscrição em letras garrafais "Se Deus é por nós, quem será contra nós'.


Além da fé, mãe e filha compartilham, há mais de uma década, a missão de separar diariamente os resíduos produzido nos lares de Passo Fundo. As duas fazem parte da Cooperativa de Trabalho Amigos do Meio Ambiente (Coama), na vila Popular, em Passo Fundo, e comemoram os avanços dos últimos anos.


Assim como elas, outras 92 pessoas estão tirando o sustento na mesma atividade, em uma das quatro cooperativas espalhadas pela cidade. Todas são coordenadas pelo Projeto Transformação, uma iniciativa surgida em 2007, a partir do tema proposto para a Campanha da Fraternidade relacionado ao meio ambiente, "Cuidado com a Amazônia". Cinco entidades se reuniram e desenvolveram o projeto, sem fins lucrativos. Das quatro frentes de atuação proposta por eles, uma direcionou para a coleta seletiva do lixo.


O passo seguinte foi assumir os núcleos e formar as cooperativas, cujos galpões de seleção do material estão distribuídos na Recibela (usina de reciclagem), Coama, na vila Popular, Arevi, na Bom Jesus, e Cotraempo, na vila Donária. O trabalho inclui controle da produção, assessoramento, encontros intercooperativos, formação pontual com a diretoria dos grupos, elaboração de projetos para captação de recursos, entre outros.


Investimentos
As melhorias na estrutura, através de investimentos em equipamentos, cursos de formação e parcerias, têm refletido no aumento da renda dos trabalhadores e possibilitado a contratação de novos cooperados. O crescimento mais significativo ocorreu na Recibela. Com a implantação de dois turnos de trabalho, manhã e tarde, a partir de dezembro do ano passado, o número de funcionários saltou 30 para 62 pessoas. Também foram adquiridas duas novas prensas, atendendo as normas exigidas pelo Ministério do Trabalho. As mudanças provocaram aumento na produção. Apenas no primeiro mês de inclusão do segundo turno, o volume de resíduos reciclados teve crescimento de 60 para 95 toneladas/mês.


Em Passo Fundo são produzidos um total de 4 mil toneladas/mês de resíduos sólidos. Juntas, as quatro cooperativas conseguiram no último mês reciclar 3% deste volume. "Estamos na média nacional. Tivemos avanços significativos, no entanto, não conseguimos reciclar em 30 dias os resíduos produzidos em apenas um dia em Passo Fundo", afirma o coordenador de projetos do Transformação, Volnei Fortuna.


Segundo ele, a meta, até outubro ou dezembro deste ano, é reciclar de 6% a 8%. Para isso, a prefeitura vai ampliar um dos pavilhões da Recibela e também adquirir duas novas esteiras. Atualmente opera com apenas uma. Conforme o secretário municipal do Meio Ambiente, Rubens Astolfi, a obra deve iniciar na próxima semana e a previsão de conclusão é de cinco meses. O investimento ficará em torno de R$ 1 milhão. A partir desta mudança, a expectativa é triplicar o número de trabalhadores na Usina.


Volnei chama a atenção para o fato de que o aumento da coleta, também está diretamente relacionado com a conscientização da população em separar o lixo corretamente em suas casas. Segundo ele, muito material, como papelão, plásticos, que poderiam ser aproveitados, acabam tendo o aterro com destino porque chegam contaminados por produtos orgânicos no momento da seleção.


“Existe um grande equívoco por parte de muitas pessoas de que o caminhão quando recolhe na rua, mistura o lixo orgânico com o reciclável. Na verdade ele apenas faz a compactação e não chega nem a rasgar as sacolas plásticas. Se chegasse separado, o aproveitamento e o lucro seriam outros. Sem contar com os benefícios para o meio ambiente”, avalia.


Geração de renda
Exceto a Recibela, as outras três cooperativas empregam uma média de 8 pessoas. Volnei explica que todos descontam INSS. Ao final de cada mês, o dinheiro arrecadado com a coleta é dividido entre todos os funcionários. Eles são responsáveis também pelo pagamento de algumas despesas, como água, luz e manutenção dos equipamentos. Cada unidade tem seu próprio presidente, vice, secretário e tesoureiro, que seguem um estatuto interno.


Maria e Eliana, citadas no início desta reportagem, estão na cooperativa há mais de 10 anos. Antes, as duas trabalharam coletando material na rua. Maria lembra das condições precárias de trabalho e de uma rotina dura, que iniciava por volta das 7h e não tinha hora para terminar. Enfrentando sol, chuva frio e calor, passava o dia empurrando um carrinho pelas ruas da cidade em busca de papelão, garrafa pet, plástico e outros recicláveis, sem saber se voltaria para casa com algum dinheiro. “Era uma vida muito sofrida. Ganhava muito pouco. Às vezes não tirava nem para a comida. Graças a Deus que temos esse lugar”, recorda.


A filha, Eliana enfrentou a mesma realidade, mas foi dela a iniciativa de mudar. “Quando fizeram esse pavilhão eu já comecei. Fiz um treinamento de seis meses, aprendi muito. Depois trouxe minha mãe”, revela. Enquanto fala com a reportagem, chama a atenção das colegas e repassa algumas orientações. Experiente, é ela quem controla a produção. Desde a construção do galpão, se afastou por um período de aproximadamente dois anos, mas decidiu retornar. “Tinha emprego de auxiliar de cozinha, ganhava bem mais, mas não adianta, aprendi a gostar de trabalhar aqui. Sei da importância do nosso trabalho para o meio ambiente” justifica. De acordo com Volnei Fortuna, a renda média mensal dos cooperados é de aproximadamente R$ 700, mas já chegou a mais de R$ 1mil, dependendo do volume reciclado.


Cooperados estão recolhendo material diretamente nas casas
Enquanto a Recibela recebe todo o volume de lixo coletado nas ruas, as três cooperativas instaladas na cidade sobrevivem fazendo a coleta em pontos específicos, incluindo empresas, escolas, lojas, universidades, são aproximadamente 200 deles.


Um destes postos funciona na Universidade de Passo Fundo. Nas terças e sextas, cooperados da Coama vão até o Campus com um caminhão e fazem a coleta de todo o material já separado. Através de sistemáticas campanhas de conscientização, o volume vem aumentando significativamente. Coordenadora do setor de saneamento ambiental da UPF, a química, Maritania Morgan Pavan, brinca ao lembrar do voume reciclado há alguns anos. " A quantidade era pesada numa balança de pesar salame. Hoje é preciso um caminhão para recolher todos os resíduos. A parceria está sendo boa para nós e eles, porque já temos um sistema de coleta seletiva no campus", observa.


Para facilitar ainda mais a vida do cidadão e aumentar o volume de materiais, desde outubro do ano passado, as cooperativas, em parceria com a prefeitura e a Construtora Uno, passaram a coletar diretamente nas residências de alguns bairros.


A Coama, por exemplo, percorre toda a vila Rodrigues, nas manhãs de segunda e quinta-feira. Instalada na Bom Jesus, a Arevi recolhe de porta em porta no bairro Planaltina na terça-feira pela manhã e quinta-feira à tarde. Foi lá que surgiu o projeto-piloto. Conforme o coordenador, a adesão da comunidade foi tamanha, que a cooperativa teve de aumentar de quatro para oito catadores. Nos próximos dias, estão previstas a contratação de pelo menos mais três para dar conta da demanda. Já a Cotraempo recolhe nos bairros Menino Deus e Secchi, todas as segundas pela manhã.


Parceria
O secretário Rubens Asltolfi, afirma que a parceria da prefeitura com o Transformação funciona através de um contrato. "Somos o contratante da prestação de serviço, mas quem organiza as cooperativas com documentos, pagamentos, contratos, assessoramento, treinamento, é o Transformação". Em relação a estrutura utilizada por elas, Asltolfi ressalta que o município é o proprietário de uma parte dela. Dos três galpões existentes nos bairros, dois deles, na Bom Jesus e Donária, são do município.


A parceria envolve ainda, uma remuneração mensal repassada pela prefeitura aos cooperados. Para a Recibela o valor é R$ 33,8 mil. Para as demais, o recurso fica em torno de R$ 11,9 mil dividido entre as três unidades instaladas na cidade. "A grande novidade é o modelo de contrato, anteriormente era através de convênio. Eles têm obrigações a serem cumpridas. Basicamente o dinheiro dá pra pagar os motoristas dos caminhões, combustível e alguma manutenção dos equipamentos. Paga o custo operacional", afirma Astolfi.


O secretário diz ainda que a parceria entre município e cooperativa está na linha da política nacional dos resíduos sólidos, cuja premissa básica é a reciclagem. "Além do benefício ambiental com a reciclagem, temos todo um envolvimento social, geração de trabalho e renda. Até metado do ano passado trabalhávamos com aproximadamente 40 recicladores, hoje são 92. Pessoas que não estão mais nas ruas, na chuva, pagam seu INSS, estão com uma fonte de renda relativamente boa para a atividade que exercem. A principal importância da reciclagem é o unir o social com o benefício ambiental", argumenta.


Para destinar as cerca de 4 mil toneladas de resíduos sólidos produzidas mensalmente em Passo Fundo, para o aterro sanitário na cidade de Minas do Leão, o município paga aproximadamente R$ 181, 18 por tonelada.

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