Acumuladores: Um problema de saúde pública

Transtorno psicológico leva pessoas a acumularem animais e objetos compulsivamente de forma que elas não consigam mais ter uma vida normal

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A acumulação compulsiva de objetos e animais e a incapacidade de descartar coisas são sintomas de um transtorno psicológico menos incomum do que se imagina. Enquanto na televisão há séries que abordam o problema, e demonstram a situação a que algumas pessoas podem chegar, casos como esses podem estar muito mais próximos da nossa realidade do que se imagina. Pessoas reclusas, que moram sozinhas, evitam visitas e vivem uma situação que poucas pessoas têm coragem de olhar e, menos ainda, de se aproximar para fazer algo. Essa é a história de dona Dydy (nome fictício), 68 anos. A idosa divide a casa de madeira e poucos cômodos com mais de 20 gatos adultos e muitos filhotes. Essa também é a história de um grupo de voluntários que, sensibilizados pela situação degradante vivida naquela residência, resolveram ajudar a transformar o lugar em um espaço mais agradável e com condições mínimas de dignidade.

Esse texto poderia começar com um “era uma vez”. No entanto, a incerteza de um “viveram felizes para sempre”, impede que essa história seja contada dessa forma. No consultório da médica veterinária Tahisa Velloso um paciente felino chamou a atenção da equipe. Quando ele chegou ao local levado pela dona, as condições dele eram degradantes, sintomas de diferentes doenças, sinais de desidratação, desnutrição e péssimas condições gerais de saúde integravam o quadro. O tratamento que se prolongou por semanas e incluiu cirurgias para restabelecer a saúde do animal, também acabou por aproximar a equipe da história da senhora dona dele. Inclusive o que possibilitou que a gatinha, já recuperada, fosse doada. Nas conversas a veterinária pôde descobrir que dona Dydy mantinha muitos animais em casa. E foi quando a idosa levou outro deles à clínica em condições parecidas as do primeiro que e veterinária e a equipe resolveram agir para mudar a situação.

Primeira visita
Na primeira visita à senhora, a situação encontrada na residência de madeira apavorou a equipe. Ao entrarem, encontraram muitos gatos, adultos e filhotes, além de um cachorro. As janelas da casa estavam fechadas e não eram abertas para evitar a fuga dos animais. “Havia muitos filhotes, fêmeas prenhas, fêmeas paridas e o que nos chamou a atenção é que tinha uma ninhada na cama dela que dormiam junto com ela, com fezes e urina”, relata a veterinária. Não existia separação entre os espaços ocupados pelos felinos e pela dona da casa. Por todo o ambiente encontravam-se dejetos dos felinos. A equipe não conseguiu permanecer por muito tempo devido ao cheiro proveniente da urina e outros dejetos dos gatos que não tinham local adequado para fazer as necessidades.

Plano
A partir desta primeira visita, se iniciou a elaboração do plano de ação para identificar tudo que precisaria ser feito e o que precisaria ser levado para dar conta do trabalho na casa. A veterinária Tahisa relata que foi buscado o apoio de diversas pessoas, inclusive clientes da clínica foram convidados a colaborar com materiais de limpeza, itens domésticos que precisariam ser substituídos na casa, caixas higiênicas para os animais fazerem as necessidades, além de novas roupas e cobertores, já que os existentes na casa já não tinham condições de serem utilizados.

Dia da ação
Após conseguirem juntar tudo que era necessário para o trabalho, chegou o dia da equipe de voluntários realizar a ação. O grupo chegou ainda pela manhã na casa. Dona Dydy foi convidada a ter um dia diferente enquanto o grupo todo faria o trabalho. “Todo aquele tempo dela foi preenchido para que ela não visse todo o trabalho”, explica Tahisa. Esse afastamento temporário é importante tendo em vista que ela poderia resistir a alguma mudança ou tentar impedir que algo fosse jogado fora. “Ela é uma pessoa idosa, ela não pode ser maltratada assim. Estava num momento insalubre, em péssimas condições de higiene”, enfatiza a veterinária.

Durante o dia foram pelo menos 13 horas de trabalho intenso de todo o grupo para limpar e organizar a casa, jogar fora coisas que não estavam mais em condições de uso, pensar espaços para alocar os animais. “Todo o chão da casa estava tomado por uma película formada pelos dejetos dos animais”, conta o estagiário e acadêmico de Medicina Veterinária da UPF Bruno Webber que integrou o grupo. Ele conta ainda que uma peça da casa era utilizada para guardar móveis e objetos que ela não estava usando, entre eles colchão e móveis quebrados. Quando eles retiraram essas coisas do cômodo, havia mais sujeira dos animais escondida embaixo da bagunça.

Além de limpar e desinfetar toda a casa com produtos específicos, o grupo ainda utilizou produtos para dedetizar os ambientes para diminuir a população de insetos. Alguns felinos que apresentaram a necessidade também foram medicados. A idosa também recebeu orientações sobre como proceder a alimentação dos animais e manter a higiene da casa.

Dia de princesa
Enquanto os voluntários preparavam a casa, dona Dydy foi convidada a ter um dia de princesa. Ela foi levada ao salão de beleza onde cortou o cabelo, fez as unhas e maquiagem. Também foi levada para comprar roupa e sapato, além de ir almoçar em um restaurante. Apesar de o trabalho da equipe ter melhorado significativamente as condições da casa de dona Dydy, Tahisa sabe que só isso não mudará a vida da idosa. “É bem recente o trabalho, mas sabemos que ela está muito bem, ela já voltou aqui e nos relatou. Mas todos nós sabemos que por mais que os esforços tenham sido grandes, não vai acabar por ai. Existe a necessidade de manutenção. E pra isso precisaremos pedir de novo ajuda”, pondera a médica veterinária.

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