Situação da biblioteca deixada por Chicão segue indefinida

Acervo com aproximadamente 12 mil livros permanece no pavilhão onde papeleiro residia

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Desde a morte de Valdelírio Nunes de Souza, o papeleiro conhecido como “Chicão”, o acervo bibliotecário deixado por ele como herança para a comunidade, ainda não encontrou um espaço em condições adequadas de preservação e acesso.

 

Ao longo de três décadas, Chicão reuniu uma coleção de cerca de 12 mil livros, a maioria retirado do lixo durante seu trabalho. Assim, criou uma uma biblioteca em um pavilhão, incentivando a leitura e a cultura de maneira simples e acessível para outros papeleiros e para muitas crianças e jovens, que também costumavam usufruir do espaço.

 

Desde a morte Chicão, em novembro de 2016, a família do papeleiro temia o despejo, pois o pavilhão, que se divide entre a biblioteca e a habitação da família, pertence ao Estado. Além disso, com a morte do marido, a viúva Antônia Lima Silva de Souza encarava a falta de recursos para suprir as despesas da família e quase precisou vender uma parte do acervo de livros a uma empresa de reciclagem.

 

O caso gerou comoção. Na tentativa de manter o patrimônio de livros intacto, voluntários iniciaram uma campanha para tentar encontrar uma solução efetiva para o problema. Em dezembro de 2016, durante uma reunião com a Secretaria de Gestão, Secretaria de Cultura, e Secretaria de Educação de Passo Fundo, ficou estabelecido um acordo: seria realizada a ampliação da Escola Municipal de Ensino Fundamental Guaracy Barroso Marinho, no bairro José Alexandre Zachia, para onde a biblioteca pudesse ser transferida e, dessa maneira, preservada. Enquanto a transferência não ocorresse, Antônia não venderia as obras. Em contrapartida, ela e a família receberiam mensalmente um auxílio financeiro.

 

Em agosto de 2017, a reportagem de ON verificou a a situação do acordo e constatou que apenas uma parte dele havia sido concretizada. Conforme prometido, Antônia foi alocada pela prefeitura em um programa de trabalho remunerado, mas o projeto de ampliação da Escola Guaracy Barroso ainda não havia saído do papel, gerando insegurança na viúva, por não saber como ficaria a situação dos livros caso precisasse deixar o pavilhão.

 

O mesmo sentimento foi compartilhado com o professor Ironi Andrade, um dos voluntários e responsável pela campanha. Ele apontou o descaso do Poder Público referente a realocação e preservação da biblioteca. Segundo ele, após a primeira reunião de acordo de transferência do acervo, ninguém fez mais contato com a viúva para tratar do assunto.

 

Passado mais de um ano da reunião com as secretarias, a ampliação da escola e realocação do acervo não evoluíram. Conforme o professor, para que os livros possam ser transferidos, é preciso que a viúva e as três filhas de Chicão façam a doação ao município, pelo acervo se tratar de uma herança. “[A família] está a diposição para a hora que o município quiser, só que o município não toma iniciativa, não assume nada”, lamentou o professor. “A Secretaria de Educação pediu que eu fosse até a biblioteca catalogar livro por livro, pelo o que dizem são 12 mil, para elaboração do documento, que seria assinado pela família, mas eu expliquei que isso é papel do município, designar essas pessoas”. Segundo Andrade, uma construtora da cidade se dispôs a ampliar a escola a custo zero para o município e o município, de acordo com o professor, desprezou essa ajuda.

 

Desde a época do acordo, Andrade vinha recebendo de livros vindos de pessoas interessadas em ampliar o acervo de Chicão, mas a ideia sempre foi mantê-lo da maneira como o papeleiro deixou até sua morte e transformar a biblioteca em um ponto turístico. Diante desta decisão, os livros recebidos estavam sendo encaminhados para bibliotecas escolares em formação. No entanto, através de uma nota de esclarecimento, o professor decidiu interromper o recebimento das doações.

 

Segundo ele, a decisão foi tomada em razão da falta de espaço e de pessoal disponível para atender a demanda, delegando a atividade ao poder público em decorrênia do grande número de livros descartados todos os dias.

 

O que diz a secretaria de educação

O Secretário da Educação, Edemilson Ramos Brandão, afirmou que o município está disposto a levar adiante a preservação do acervo de Chicão e que apenas aguarda a família entrar em contato para que os trâmites legais possam ser efetuados. A intenção, segundo ele, é levar adiante o projeto de ampliação da Escola Guaracy, para onde pretendem realocar a biblioteca.

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