Depois do fim, um recomeço

?EURoeParece que eu estou começando de novo, só que com muito mais vontade", conta Beto Bruno, ex-vocalista da Cachorro Grande, sobre o processo de criação do seu primeiro disco solo. Músico faz show nesta sexta-feira, em Passo Fundo, acompanhado da banda Los Marias

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Os desgastes e desentendimentos entre os membros da Cachorro Grande, uma das maiores bandas de rock do país, nunca foram mantidos em sigilo. O jeito franco do passo-fundense e ex-vocalista do grupo, Beto Bruno, sempre tratou de expor o quão pesada pode se tornar a rotina de duas décadas entre a estrada e o estúdio. É nessa mesma sinceridade que ele fala, agora, sobre a nova fase que trilha desde que a Cachorro Grande anunciou um adeus definitivo dos palcos. Em agosto deste ano, apenas um mês após os últimos shows da banda porto-alegrense, Beto decidiu propor a si mesmo uma reinvenção e lançou ao mundo seu primeiro disco solo, “Depois do Fim”. Descrevendo o trabalho como uma espécie de renascimento pessoal e artístico, ele conta ter encontrado, nas dez faixas que versam sobre as dores e os prazeres do recomeço, a leveza que precisava para sair do “fundo do poço” e voltar a ver o quão divertido pode ser viver da música quando as brigas não tomam conta da narrativa.

 

Pode não ter sido fácil, é verdade. Em entrevista ao ON, onde fala sobre o processo de produção do novo disco, Beto admite ter ficado arrasado com o fim da banda que o acompanhou durante 20 anos, mesmo que o término fosse discutido há bastante tempo. Foi isolado durante 20 dias na casa onde vive em São Paulo junto com a esposa, dezenas de gatos e milhares de vinis, que passou a mão em um violão e compôs, do zero, as dez novas canções. Em menos de um mês, já tinha as demos e a banda que precisava para entrar estúdio e, depois, voltar à estrada. O resultado, “Depois do Fim”, lançado em agosto pelo Selo180, é um álbum que flui sem amarras. Enquanto ainda bebe da fonte roqueira na qual a Cachorro Grande se banhava, ao mesmo tempo, desta vez, tem a liberdade de explorar, além do rock sessentista e setentista, elementos de psicodelia, indie rock e música popular brasileira.

 

Para Beto, quando se trata de música, parece não haver muito tempo a ser perdido. O disco já tem até mesmo uma gravação de DVD agendada para o dia 6 de dezembro, no Bar Opinião, em Porto Alegre. A oportunidade marca a estreia solo de Beto dentro do Estado. “E sabe quem vai abrir o show?”, instiga, esperando uma reação de resposta. “Marcelo Gross Trio!”, ele próprio responde, em tom animado. Pode parecer estranho, em um primeiro momento, observar que Beto tem dividido o palco com certa frequência com o ex-guitarrista e fundador da Cachorro Grande, Marcelo Gross, com quem chegou a se desentender quando os desgastes causados pela rotina da banda começaram a falar mais alto. Mas Beto é rápido em explicar, tomado pelo bom-humor característico durante as entrevistas que cede, que as coisas andam bem melhores entre os dois. “Estamos muito mais amigos do que antes. Agora, a gente nem precisa brigar!”.

 

Beto Bruno + Los Marias

Em Passo Fundo, Beto Bruno volta a subir aos palcos, pela primeira vez desde que deu o pontapé inicial na carreira solo, na noite desta sexta-feira (15). Não é desta vez, ainda, que o público passo-fundense poderá conferir o timaço que o acompanha na turnê de lançamento de “Depois do Fim”, mas o músico promete apresentar pelo menos duas das novas canções no show que acontece no Porão Bar e Tabacaria e que tem, como banda de apoio, os garotos da banda passo-fundense Los Marias. Colegas de selo e amigos de longa data, eles devem acompanhar Beto durante todo o repertório. O show começa às 22h. Ingressos custam R$ 50.

 

 

O Nacional: Seguir carreira solo já era algo que você considerava antes?

Beto Bruno: Eu não pensava muito nisso até dezembro do ano passado. As pessoas me perguntavam sobre, por já estar há 20 anos na Cachorro Grande e ter dez discos com a banda, mas eu sempre pensei muito vagamente. Imaginava que iria lançar um trabalho solo de maneira paralela, que eu não faria turnê e não precisaria terminar a banda para fazer o meu disco. A coisa que eu não imaginava era que a Cachorro Grande iria acabar.

 

ON: Como foi o processo? Você já tinha algum trabalho pronto?

Beto: Foi muito louco. Em dezembro, a gente decidiu terminar a banda. Foi uma semana antes do Natal, aquela época ruim. Eu fiquei muito abatido. Não queria botar a cara para fora de casa, não recebia amigos, nada. Foi uma época em que todos meus amigos foram para a praia, minha esposa viajou a trabalho e eu fiquei em casa sozinho durante uns 20 dias. Nestes 20 dias, eu recorri ao bom e velho violão. Parece clichê, mas eu comecei a tocar de novo e começaram a aparecer as músicas. Quando eu me dei conta, já tinha três prontas. Eu liguei para o Pedro Pelotas, que era o pianista da Cachorro Grande e foi o primeiro músico que eu procurei para querer montar uma banda, e chamei ele para ver as músicas.  Ele apareceu aqui em casa, ouviu e achou que estava no mesmo nível do que fazíamos com a Cachorro Grande, porém, com uma coisa que antes não tinha: eu estava falando mais sobre mim. Foi quando eu me dei conta de que na Cachorro Grande eu passei mais de 20 anos cantando não só as minhas letras, mas as letras dos outros componentes da banda também. Muitas vezes, eu não me sentia tão verdadeiro para interpretar elas. Quando o Pedro me falou isso, eu decidi ir para esse lado mais pessoal, que eu não poderia usar dentro de uma banda. Continuei tocando violão e, em menos de 30 dias, eu tinha 10 músicas prontas. Foi um descarrego. Tudo era inédito, nada tinha sido gravado antes. Comecei do zero. É a coisa mais verdadeira que eu lancei na minha carreira toda.

 

ON: Dessas verdades que você comenta, muita coisa parece estar relacionada ao tempo, certo?

Beto: Sim. Essa foi a primeira vez que eu olhei para trás. Comecei a pensar em tudo que aconteceu nesse tempo em que eu estava meio sozinho e a dar importância para o tempo. Quando a gente está no olho do furacão, o tempo é o que menos importa, mas quando dá a primeira parada a gente começa a pensar. E eu tenho uma certa paranoia com o tempo. É uma coisa recorrente nas minhas conversas, nos meus estudos e nas minhas percepções. Porém, quando eu falava com o restante das pessoas da ex banda, elas achavam que não, que devíamos falar sobre diversão, festa e tal – nunca concordei com isso. Enfim, o tempo está muito presente sim nas letras porque é a primeira vez que o mundo deu uma parada. Por um mês, mas deu. Comecei a lembrar de tudo que aconteceu com a Cachorro Grande e antes dela, quando eu saí de Passo Fundo para montar uma banda. O primeiro ano em Porto Alegre foi bem difícil. Demorei para montar a Cachorro Grande e gravar um disco. Acho que é a primeira vez que eu falo isso em uma entrevista: eu não tinha onde dormir, precisei dormir em rodoviária, sem ter o que comer, até encontrar a banda e a minha mulher, a Denise. Tudo isso veio à tona, por isso saiu um disco mais pessoal do que quando eu estava na Cachorro Grande.

 

ON: Quando conversamos em fevereiro [em uma entrevista ao ON sobre a turnê de despedida da Cachorro Grande], você comentou também sobre muitos elementos que eram uma grande influência para você, mas que não podiam ser usados em um disco da Cachorro, por não combinar com a sonoridade da banda... A MPB, por exemplo, que segundo você estaria bem presente no trabalho solo.

Beto: Sim, isso também. No meu disco, além do lance de as letras serem mais pessoais, algo que talvez não funcione em músicas de rock direto, a introdução é super inspirada no Clube da Esquina. As demos de “Depois do Fim” parecem muito as coisas do Clube da Esquina... Ai, pelo amor de deus, quem dera, né? (risos) Não estou querendo comparar, mas tem muita influência dos primeiros trabalhos do Milton Nascimento. A própria música “Depois do Fim” não é bem uma balada de rock, ela tem uma pegada diferente, mas o meu envolvimento com essa banda de apoio acabou me fazendo voltar um pouco para o rock. Outra coisa muito especial, que mudou a sonoridade desse disco em comparação com o que eu vinha fazendo nos últimos anos, foi que, antes, para entrar no estúdio, a Cachorro Grande ensaiava muito. Ela ficava presa no estúdio de ensaio e chegava para gravar os discos já com os arranjos prontos. Não deixava espaço para acontecer muita coisa. No caso desse disco solo, não teve ensaios. Eu fiz um grupo no WhatsApp – o primeiro que eu fiz na vida – e eu mandava por lá as músicas que eu fazia no violão e voz. Só enviava e dizia que iríamos gravar no dia seguinte. Os caras [da banda] ficavam ouvindo em casa e no outro dia a gente chegava no estúdio e gravava. Pela primeira vez, tive coragem de fazer isso e vi que assim deixa a música mais solta, não deixa ela engessada em um arranjo. A mágica acontece justamente onde tem que acontecer: na gravação. Foi um desafio para todos nós e acabou sendo a melhor maneira possível de gravar esse disco. Com os arranjos todos frescos e feitos por todos ao mesmo tempo. É muito amor e muito carinho depositado, não tem nada mecânico, por isso o som é diferente. Soa mais do jeito que eu queria a vida inteira.

 

ON: Então essa percepção sobre a necessidade de deixar a música mais livre é algo que você teve a partir das experiências em estúdio com a Cachorro Grande?

Beto: Justamente. Os ensaios da Cachorro Grande eram muito maçantes, foi algo que desgastou bastante a banda. Chegar no estúdio com os arranjos prontos, nos últimos anos, tirou o tesão. Eu chegava lá só para reproduzir os ensaios. Não tinha muita emoção envolvida nisso. Agora teve. Eu criei as linhas de voz, basicamente, dentro do estúdio. Teve letras que eu terminei de escrever dez minutos antes de gravar. Então era o que eu estava sentindo exatamente naquele momento, não são letras que eu escrevi três meses antes e deixei lá presas para depois gravar. Acho que isso foi a força do meu disco, porque fez a banda se unir e deixou um clima muito bom dentro do estúdio, algo que conseguimos passar para o álbum. Eu estava no fundo do poço, na lama mesmo, e mesmo assim, com a banda que apareceu, saiu um disco super positivo, que me faz bem ouvir, é verdadeiro. Às vezes, no limbo, de onde menos se espera, a gente tira forças para se reinventar. Um renascer. É mais ou menos isso que diz a letra de “Depois do Fim”. Apesar de toda a bagagem da Cachorro Grande nas costas, parece que eu estou começando de novo, só que com muito mais vontade. O Pedro Pelotas comentou comigo no estúdio que eu poderia estar falando “está tão divertido quanto os primeiros discos da Cachorro Grande!”. Mas os primeiros discos já tinham briga e egos envolvidos. Então, não, nunca foi tão legal e tão divertido estar em um estúdio gravando com uma banda nova.

 

ON: Foi um grande time de músicos que te ajudou a gravar?

Beto: O Pedro Pelotas foi o primeiro a me dar força. Depois, eu tinha visto tocar aqui em São Paulo uma banda de Porto Alegre, chamada Dóris Encrenqueira, e eu chapei muito no baterista. Chamei ele [Eduardo Schuler] para vir aqui em casa e falei “decora o Clube da Esquina e eu vou te mostrar minhas músicas”. Ele chapou e acabou sendo o baterista da Cachorro Grande na turnê de despedida quando o Gabriel Boizinho saiu. Bah, eu nunca tinha tocado com um batera desses. Ele tem 22 anos. Esse cara trouxe uma vida nova, uma revitalização. Quando eu ouvi ele tocar, pensei “p*ta que pariu, velho, vai ter que ter um rock nesse disco porque os caras tocam muito!”. Com ele, pintou um guitarrista para gravar o disco, que também tocava na Dóris e que, hoje, está na minha banda: o Henrique Cabreora. Teve também o Gustavo X, que já era um guitarrista conhecido meu há muito tempo e chegou a substituir o Marcelo Gross na Cachorro Grande. Quando eu vi, já estava com uma banda montada, marcando para entrar em estúdio em fevereiro, e foi quando pintou ainda a peça que é, talvez, a mais importante por trás do disco e desse meu renascimento: o Nando Reis me ligou e falou “Beto, o meu filho Sebastião se amarra na Cachorro Grande. Estou sabendo que você está montando uma banda e queria que conhecesse o meu filho”. Eu até já conhecia ele e a banda dele, a Dois Reis, mas o Nando quis que eu conhecesse melhor. Eu e o Sebastião começamos a conversar na mesma hora e, desde então, ele está comigo todos os dias, sendo meu braço direito e esquerdo na banda. Foi a cereja do bolo que eu precisava para montar uma banda muito foda, que eu achasse perfeita para sair na estrada. Depois fui atrás também de um amigo antigo, o Rodrigo Tavares. Eu montei as demos e rolou a parceria de gravar em estúdio que ele tem aqui em São Paulo. Tudo isso aconteceu em 30 dias.

 

ON: Até emendou no fim da turnê de despedida da Cachorro Grande, né?

Beto: É. O último show foi dia 13 de julho e meu disco saiu no dia 13 de agosto. Foi uma bagunça, uma loucura, tudo de supetão, mas acho que esse disco foi a coisa mais verdadeira e mais linda que eu já fiz. Agora banda já está em turnê e está muito massa, todo mundo recebendo muito bem. É uma banda enorme. Junto comigo, são sete.

 

ON: Aqui em Passo Fundo vai ser um pouco diferente. Você vai ser acompanhado pela Los Marias. Por que a escolha?

Beto: Aí que tá, foram eles que me escolheram! (risos). É um show independente dessa turnê que eu estou fazendo com o novo disco e banda nova. Espero muito que a turnê passe por Passo Fundo, mas não vai ser dessa vez. Eu conheço os caras da Los Marias desde o início da banda, por eles serem uma das bandas do Selo180. Então eu escuto há muito tempo, sou amigo e fã. Eles conseguiram essa data no Porão – que eu ainda não conheço, mas me falaram ser muito bacana – e me convidaram. Eu não tinha nada marcado, então, com certeza, aceitei. Ainda mais em Passo Fundo! Vou poder ficar uns três com a minha família, que mora aí. Passo Fundo é especial para mim, não tem escapatória.

 

ON: Como será o repertório? Vai ter algo do teu álbum solo?

Beto: A gente vai fazer um repertório de clássicos dos anos 60, que era o que eu tocava em Passo Fundo nos anos 90, com a banda Malvados Azuis – nessa época, os Los Marias eram uns menininhos e iam lá assistir. Isso é muito doido, né? Também vou tocar alguma coisa da Cachorro Grande, a pedido deles, e duas do meu disco novo. Para mim, é sensacional poder ir para Passo Fundo e tocar com as bandas que eu vi crescer.

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