"No te pueden quitar lo bailado"

A frase, famosa na Argentina, é o que motiva o grupo de bailarinos e músicos do Ballet El Trébol, grupo que representa a Argentina no Festival Internacional de Folclore. Pegamos carona no ônibus que o levava e acompanhamos, de perto, a rotina que vai além do palco

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Passava das oito horas da manhã quando o sol começou a invadir o refeitório da Casa de Retiros, no Bosque Lucas Araújo. A luz matinal disputava o espaço com os integrantes dos grupos do Pará, Cuba e Argentina que, pouco a pouco, se encaminhavam – sonolentos, quietos e esforçados para se manter despertos – para o café da manhã. Os ônibus que levam cada grupo para as atividades paralelas ao palco do XII Festival Internacional de Folclore chegariam perto das nove. Antes deles, no entanto, chegamos nós: duas jornalistas intencionadas em mergulhar na rotina do Ballet El Trébol, da Argentina, para vivenciar junto com o grupo aquilo que o Festival proporciona além do palco.

Rostos diferentes em época de Festival de Folclore são comuns. Mesmo não estando acostumados com a nossa presença, ao nos verem, Pará, Cuba e Argentina sorriam, cumprimentavam e nos desejavam um bom dia em um portunhol que é característico do evento. Acompanhados por Gustavo Maias, coordenador do Grupo de Danças Folclóricas da UPF e voluntário desde a primeira edição, e Jorge Rios – argentino que, no último Festival de Folclore se apresentou na cidade e ficou por aqui -, o grupo Ballet El Trébol veio ao Brasil com 28 componentes: 18 bailarinos, 6 músicos, 3 assistentes e a diretora, Graciela Pons que coordena o grupo ao lado Victor Recalde, que também faz parte do grupo de músicos. Até então, nenhum deles sabia que iríamos os acompanhar durante o dia inteiro.

A escolha pela Argentina se deu pelas reações que observamos do público durante as apresentações. No palco, intensidade, força e paixão. A dança argentina – que vai muito além do tradicional tango – traz passos precisos, troca de olhares e a representação da vida real. E é isso que capta o olhar e a atenção de um público que do primeiro ao último sapateio parece estar em estado de êxtase. Ainda que estejam acostumados com festivais e com as reações do público, quando souberam o motivo da nossa escolha demonstraram um misto de surpresa, felicidade e acolhimento: logo fomos integradas a um grupo que dedica toda a energia ao palco e fora dele prefere a tranquilidade de amizades consolidadas a cada novo passo.

36 anos de história

Tranquilidade que parece ter sido herdada da pequena El Trébol, cidade com pouco mais de 10 mil habitantes e que fica no centro-oeste da província de Santa Fé. Foi lá que, em 1978, Graciela Pons e Victor Recalde fundaram o grupo. Os dois são casados e atualmente desempenham as funções de diretores e coreógrafos. Além do Ballet, eles também mantêm uma escola de dança para formação de crianças e adultos em folclore argentino e tango e danças da América do Sul. Graciela conta que já fizeram muitas viagens pelo mundo, entre elas, diversas para a Europa, para a América do Norte e até para o oriente. Recentemente estiveram na Colômbia. Esse mesmo grupo já esteve em Passo Fundo há 16 anos, quando, segundo Graciela, eram todos mais jovens. Para ela, é um grupo de muito movimento.

Apesar de ser um grupo grande, Graciela garante que não é difícil manter a ordem e cuidar de tudo durante as viagens porque há muita experiência e quando um novo integrante se incorpora, os outros tratam de explicar o funcionamento. “Não é complicado porque há regras de trabalho muito claras que tem a ver com a disciplina, com a prolixidade, com os bons modos, com ser sempre simpático com o público, com a imprensa e com a organização. Não é complicado. É intenso”, explica. E para que toda essa intensidade seja refletida no palco, toda a noite ela, Victor e os assistentes deixam uma lista com os horários para o dia seguinte, com as músicas e o vestuário de forma que cada bailarino já saiba como se organizar.

Uma das primeiras coisas que notamos no grupo foi a diferença de idade entre os integrantes – que vai desde 15 até mais de 30. Para Graciela isto não é problema, já que existe um trabalho diário de convivência com o grupo. Ela explica que, em geral, as mulheres são muito mais jovens que os homens que já são bailarinos com muito mais anos de experiência. Ela garante que existe um cuidado mútuo entre todos e que isso foi se dando em função da evolução do grupo e tem muito a ver com questões como estudo, trabalho e até casamento. Mas ressalta um ponto: “Em geral, na Argentina, os grupos de dança, todo, tem muito mais mulheres do que homens. Assim, queremos dar a todas a oportunidade de participar dos festivais. Vamos fazendo uma renovação a cada viagem”, comenta.

Para se manter no grupo é simples, basta cumprir as regras, não faltar ensaios – que acontecem três vezes por semana - ter bons modos com os companheiros, aprender as coreografias e estudar o conteúdo da apresentação. Aliás, essa foi uma característica do grupo que Graciela ressaltou: quase todos os trabalhos apresentados no palco têm um conteúdo argumental. “Não somente dançamos, mas sim aprendemos que as danças representam histórias, que tem a ver com trabalhos muito profundos de investigação”, lembra.

Quase todos os bailarinos são de El Trébol, mas moram em Rosário durante a semana para estudar e trabalhar. A exceção fica por conta dos músicos que são independentes do grupo e moram em outras cidades, reunindo-se com o Ballet uma vez por mês para os ensaios e nas viagens.

Sobre o Festival de Passo Fundo Graciela, que também é vice-precisente do Cioff na Argentina, afirma que é quase perfeito. Para ela, é um dos maiores do mundo e o maior da América do Sul, com uma organização muito boa desde o transporte até o palco. “É um prazer enorme estar aqui”, comemora.

Curiosidade e visita

Depois do café da manhã, a primeira atividade do grupo não fazia parte da programação do Festival, mas foi um pedido especial do bailarino Diego German. A visita à Kuhn, empresa de implementos agrícolas, foi agendada pelo guia porque Diego contou que trabalhava consertando máquinas na Argentina e quando descobriu que a empresa tinha uma filial por aqui tratou logo de querer conhecer.

Às 09 horas em ponto, o ônibus parou em frente a Casa de Retiros para nos levar até lá. Diego tem 25 anos e dança há 17, estudou logística e trabalha em uma metalúrgica. Mesmo com a rotina corrida, reserva três dias da semana para os ensaios e ainda aproveita o tempo livre e repassa as coreografias sozinho mesmo. A visita começou com uma breve explicação sobre a empresa e seguiu com um passeio guiado. No fim, como agradecimento, Diego e os companheiros cantaram músicas tradicionais, apresentando um pouco do folclore argentino para a empresa.

Da Kuhn, o ônibus seguiu direto para o Clube Caixeral, onde todos almoçamos. O cardápio, segundo eles, é praticamente o mesmo que o da Argentina, com saladas, massas e carnes. Durante o almoço, descobrimos que as músicas Tche Tche Rere, do cantor Gusttavo Lima, e Ai se eu te pego, do Michel Teló, ainda são muito ouvidas por lá, mas o que o rock argentino também tem muito espaço, para nosso alívio.

Entre grampos e sapatos

Do almoço até a primeira atividade da tarde, às 15h30, havia bastante tempo, mas nada de descanso. Como não iríamos mais voltar para a Casa de Retiros, tudo que seria usado nas apresentações do dia, devia ir junto. Enquanto preparava suas coisas, Sofia Bertero, de 16 anos, nos recebeu em seu quarto, que dividia com outra Sofia, de 15 anos. Na mochila, além de roupas, muito gel, fixador, grampos e maquiagem, já que são elas mesmas que arrumam o cabelo e maquiam antes das apresentações. Ela nos contou que dança há 10 anos e que no grupo todos estudam a história da dança para poder interpretar como ela exige. “Somos um grupo muito tradicionalista e respeitamos sempre as origens e os modos de cada dança”, comenta. O mais interessante de tudo é que, mesmo com a diferença de idade, boa parte do grupo cresceu junto, o que justifica o clima de amizade.

Como toda adolescente, ela conta que gosta muito de festas e que por lá elas começam as 03h da manhã e terminam as 06h. Durante os fins de semana, programas conhecidos por todos nós: reuniões em casa e tardes tomando mate na praça - mate, esse, que esteve passando de mão em mão pelo grupo durante todo o dia e a noite e que não diferente muito do nosso chimarrão, a não ser pela erva, mais encorpada, e pela água, muito mais quente.

Para Sofia, estar longe de casa não é um problema, já que o motivo da viagem é o amor pela dança. O sacrifício está em pagar os custos da viagem. Mesmo assim, ela garante que vale a pena.

A preparação dos homens não exige tanto quanto a das mulheres. Com mais tempo livre, eles aproveitam para conversar e descansar. Mas nem todos:  Blas Recalde é filho de Victor e Graciela e um dos bailarinos mais experientes do grupo, o que faz com que participe mais ativamente do que acontece no Ballet. Com 33 anos, 25 de dança, Blas já participou de mais de 30 festivais pelo mundo, sendo que em 1998, esteve em Passo Fundo, na segunda edição do festival e diz ser uma sorte poder voltar. “Dançar é o que eu mais gosto de fazer por isso faço há tanto tempo. E compartilhar com outros países e outros grupos a experiência de cada um não há nada que pague. É como se diz na Argentina: ‘No te pueden quitar lo bailado’”, lembra.

De dançarinos a professores

Daiana Delmastro tem 24 anos de idade e dança desde os 12. Lucia Recalde tem 19 e vive a dança desde que tinha 4 anos. Hoje, as duas são professoras do Instituto. Daiana trabalha junto com a diretora e ensina as crianças os primeiros passos. Lucia se dedica, também, a Fonoaudiologia.

Ainda que tenham uma carreira consolidada na dança, as duas destacam o Festival como um passo importante e surpreendente dentro da dança: “Há um monte de momentos que não imaginamos que iríamos viver. Não imaginamos tanta grandeza no Festival”, comenta Lúcia. Parte disso, destaca Daiana, se deve a recepção do público: “O público é muito amável, nos receberam muito bem em todos os aspectos. Sempre recebemos o melhor do público. Já vim a Brasil muitas vezes e sempre foi muito gratificante a resposta do público”.

Muito mais que uma dança

Por sorte, escolhemos um dos dias mais movimentados para o grupo. A parte da tarde foi inteiramente dedicada às atividades paralelas do Festival. Por volta das 16h, a Praça de Alimentação do Shopping Bella recebeu os hermanos argentinos para uma oficina de dança. Ainda que estivessem de uniforme, a elegância e a postura dos bailarinos chamou a atenção das crianças que participaram da atividade. Da elegância para a simpatia, os argentinos cativaram os pequenos que, a cada novo pedido, se voluntariavam para aprender um pouco mais da tradição do país vizinho.

Depois do Shopping, o grupo foi recebido na Praça do Teixeirinha pela população que destinava o final de tarde para aproveitar uma parte do Festival. Do sapateio dos homens ao sorriso das mulheres, um pedaço da Argentina pareceu ficar pela praça. Depois de lá, o grupo se encaminhou para o Casarão da Cultura onde cerca de 2.500 pessoas aguardavam ansiosas pelo início de mais uma noite.

Cada apresentação realizada pelo grupo representa parte do país. Não só na dança, mas nas roupas que usam. Nas treze malas, três caixas redondas e um baú vieram cinco figurinos diferentes. Pode parecer pouco, mas isso representa cerca de 170 trajes para os 18 bailarinos e seis músicos.

A direção define o vestuário e as cores e os três assistentes são responsáveis por cuidar de tudo o que acontece entre uma troca de roupa e outra.  Monica Mariotta, Eduardo Coscia e Cristian Barrios se dividem no trabalho. “Nossa função é saber se o figurino está certo, se está limpo e como vai ser a troca entre as danças. Ajudamos os bailarinos a vestir, limpamos e nos responsabilizamos por guardar cada figurino. Quando eles dançam tango, corremos nos bastidores”, explica Monica.

Antes de entrar no palco

Depois de prontos, os bailarinos se concentram na coreografia e aguardam os apresentadores chamar o nome do país. Andrea Coscia tem 28 anos e dança há 20 deles. Para ela, a ansiedade fica de lado e dá lugar apara a alegria de estar no Festival: “É muita alegria, muita emoção. A música ajuda muito. O Brasil e o público são muito acolhedores e nos sentimos muito importantes. Eu, particularmente, não sinto ansiedade porque estudo muito e isso é parte da dança”, comenta.

Hermanos hermosos

A paixão representada no palco reflete reações na plateia. Especialmente na feminina, já que os homens argentinos – não se pode negar – são muito charmosos e parecem carregar a intensidade da dança junto consigo. Eles, no entanto, negam isso. “Vocês ficaram o dia inteiro com a gente. Nenhuma menina nos agarrou. Essa é a realidade!”, brinca Blas. “A verdade é que Brasil, México e Colômbia são os países mais calorosos. As pessoas se aproximam, querem fotos. E na América do Sul, geralmente é assim”, comenta.

Nenhuma menina os agarrou, é verdade. Mas na apresentação na Praça, houveram aproximações. Se foi assim por aqui, imaginamos que, ao redor do mundo, aconteça o mesmo. Quando tentamos perguntar se havia alguma história, eles não nos deixaram terminar a pergunta. “No!”, fizeram um coro. “Não têm ou não podem contar?”, insistimos. Blas toma a frente: “Ahh... Bueno... Que pergunta! Sim. Sempre há histórias”.  Entre risos, olhares que insinuavam algo e tentativas de não responder aquilo que perguntávamos, Blas contou que no México demoraram cerca de uma hora e meia para sair de dentro de um estacionamento com o ônibus. Haviam muitas mulheres. Estavam totalmente loucas.  Mas isso foi o máximo que aconteceu”, comenta.

Quando perguntamos qual dos bailarinos era mais procurado pelas meninas, os olhos se voltam para Blas, que além das danças tradicionais do grupo, faz um número de tango solo no palco. Ele nega. “Não! Isso era antes! Na América do Sul, os loiros matam. E na Europa, os morenos. Na Ásia, nem nos olham. Ou melhor. Olham, mas não falam [por questões culturais].”

Apesar do assédio, os bailarinos mantêm a concentração na dança. “Falando sério... É lindo, porque nos motiva. Porque é pelo que fazemos, por aquilo que apresentamos. Como artistas isso é muito bom. Mas temos que ser conscientes que estamos em um Festival e que isso acaba”.

A noite foi deles

Depois de se apresentarem, partimos com o grupo em direção ao Caixeral para o jantar. Todas as noites, depois que todos os grupos voltam do Casarão da Cultura, um país – ou estado – fica responsável por um momento de animação da noite. Na terça-feira, a noite foi dos argentinos. Depois de algumas músicas e dança, a noite acabou. Nos despedimos pouco antes de o grupo voltar para a Casa de Retiros, quando, entre abraços, recebemos o carinho de quem compartilhou um pouco da intensidade com que vivem cada festival e do amor que têm pelo que fazem.

 

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