A arte da ditadura

Na virada do mês, os olhos se voltam para os 50 anos do Golpe Militar no Brasil. O Segundo Caderno lembra da data com arte

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Na História da humanidade, certamente, alguns momentos estarão eternamente gravados em livros. Por serem considerados marcantes e por – positiva ou negativamente – influenciarem a geração atual trazendo muitas das suas consequências para o hoje esses episódios ganham páginas, cenas, melodias e, especialmente, a atenção de quem, por um instante, volta os olhos para a história. Na virada deste mês, os olhos do Brasil se voltam para um desses episódios. Em 31 de março de 1964 um golpe militar destitui do poder a democracia de João Goulart para implantar a ditadura das Forças Armadas.

Há 25 anos a ditadura teve seu fim e eleições presidenciais diretas deram início à democracia brasileira. As raízes do golpe militar de 1964 são muito anteriores a 31 de março do ano e as consequências muito posteriores a ele. Na arte, foi preciso criatividade e coragem. Parte dos que ousaram criar, o passo-fundense Glauco Pinto de Moraes participou ativamente deste período de extrema tensão politica em nosso país e, por isso, o Museu de Artes Visuais Ruth Schneider abre as portas para uma exposição que reúne a obra do artista.

“Glauco Pinto de Moraes: um artista na Ditadura” apresenta obras que que vão de encontro às tendências de anti arte propostas durante a efervescência de proposições da década de 1960. Cada traço é carregado de conceitos e críticas a uma sociedade que pouco a pouco se calva diante da censura. As obras que compõe a exposição são datadas de 1969 á 1985 - período de vigência do Regime Militar em nosso país – e, além das serigrafias de locomotivas – características do autor -, integram a exposição, também, pinturas assinadas pelos heterônimos de Glauco: Egon Walter e Antônio Magalhães.

Fugindo da estética tradicional das locomotivas – que se aproximam de um realismo quase fotográfico -, as obras dessa fase de Glauco são retratos onde figuras humanas expressivas apresentam em muitas camadas de tinta rostos não realistas. Através da arte, Glauco, que morreu há mais de duas décadas, contestou e lutou pelo pensamento livre e usou do traço como um instrumento de protesto e forma de mudança da condição politica do país. A exposição vai até 11 de maio, e as visitas acontecem de terça a sexta, das 8h30 às 17h30, e sábados e domingos das 13h30 às 17h30.

O Golpe na cultura

No auge da repressão, a cultura brasileira precisou fugir, se esconder e encontrar formas para respirar um pouco de ar puro. Se, por um lado, a censura fez interromper a produção cultural do país, estagnando grande parte dos setores de entretenimento e cultura, por outro lado, a Ditadura Militar estimulou a criatividade de quem viveu por ela. Foi preciso criar metáforas, trocar nomes, usar eufemismos. Da música ao cinema, passando pelo teatro e pela literatura, o Golpe de 64 deixou marcas e transformou a identidade cultural do país.

Na música, Chico Buarque, Jorge Bem e Gilberto Gil foram nomes que conduziram o povo. A ingenuidade da bossa nova e o sofrimento do samba deram lugar a uma música social que falava aquilo que habitava os pensamentos de quem lutava por mais liberdade. A vigilância em cada composição exigia do cantor. Da mesma maneira que a falta de liberdade estimulou cantores e realizou, de forma indireta, os maiores festivais de MPB do país, pouco a pouco sufocou cada nome. 

No cinema, Eduardo Coutinho filmava Cabra Marcado Para Morrer – história de João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado em abril de 1962, na Paraíba, a mando de fazendeiros quando o Exército parou as filmagens, prendeu atores, recolheu equipamentos e destruiu rolos de filmagens. 20 anos mais tarde, Coutinho recuperou o que conseguiu e fez de Cabra Marcado Para Morrer um retrato simbólico do período.

Nas letras e no teatro, o tempo é de interrupção. Antes do golpe, o teatro buscava o apoio do governo para levar o público aos palcos. Depois dele, os palcos foram destruídos. Nas páginas, pouco ganhou o público. A censura queimou livros, guardou exemplares e desestimulou as publicações.

Glauco Pinto de Moraes: um artista na Ditadura
Até 11 de maio, no MARVS
As visitas acontecem de terça a sexta, das 8h30 às 17h30, e sábados e domingos das 13h30 às 17h30.

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