Entre a tela e a página

No online, ele encontra um espaço para falar de si. Gabito Nunes, o autor que migrou da tela para as páginas, arrecada milhares de seguidores

Por
· 5 min de leitura

Notamos que você gosta de ler nossas matérias.

Você já leu várias nas últimas horas, para continuar lendo gratuitamente, crie sua conta.

Ter uma Conta ON te da várias vantagens como:

  • Ler matérias sem limite;
  • Marcar matérias como lida;
  • Conteúdo inteligente.
Criar contaAcessar
Você prefere ouvir essa matéria?

Ele está na casa dos trinta anos, mas seus textos passeiam nas telas dos computadores de adolescentes e adultos – independentemente do contexto onde estão inseridos. Gabito Nunes faz parte do grupo de autores contemporâneos que fazem do blog um habitat natural de ideias e experiências. Na página online deposita, há 4 anos, tudo o que vive – seja na vida ou dentro da própria mente.

Gaúcho, Gabito Nunes permanece no online, mas se dedicou às páginas impressas quatro vezes. Publicou, desde 2010, A manhã seguinte sempre chega e Não sou mulher de rosas, Sempre chove no meu carnaval e Ao norte de mim mesmo. Usa o fato de fazer parte da Geração Y e faz da internet a ferramenta mais importante de trabalho. O mais humano de tudo – que pode ser o mais clichê, também – é que Gabito está onde está hoje por causa de um término: “Levei um pé na bunda e quis mostrar toda a minha inconformidade.”
Por e-mail, o Segundo entrevistou Gabito e abaixo você confere um pouco mais do blog, dos escritos e dos livros.

Segundo: O blog já tem uma boa caminhada e, antes de assumir o formato atual – que tem como título o nome do autor, – ele atendia pelo nome Caras como eu. Como surgiu a ideia de colocar no espaço on-line os seus pensamentos, as suas vivências?
Gabito Nunes: Levei um pé na bunda e quis mostrar toda a minha inconformidade. Aí o pessoal gostou da minha forma de escrever e do teor da conversa. Fui continuando e deu no que deu. Essa é a verdade.

Segundo: Tudo o que está no blog foi realmente vivido por você? É autobiográfico?
Gabito Nunes: Não é confessional, oficialmente. Eu sempre gostei de ler ficção e de inventar minhas próprias histórias. Infelizmente tenho uma limitação como escritor: não sei escrever na terceira pessoa, nunca fica bom. Então, acabo unindo meu jeito introspectivo de ver as coisas com a literatura. Quase todos os livros da minha vida foram escritos na primeira pessoa; na verdade, eu gosto mais assim, como O apanhador no campo de centeio, de Salinger, e os do John Fante. Dá mais liberdade e intimidade.

Segundo: Quanto aos temas escolhidos: relações pessoais, especialmente amorosas. Por que desse tema e de onde vem a inspiração? A que você atribui toda a identificação do público?
Gabito Nunes: Sempre fui um homem que falou mais sobre isso do que a maioria, talvez por andar muito com garotas, desde a infância. Acaba sendo automático; meus amigos me procuram muito pra falar disso. E é um tema interessante, inesgotável. A inspiração vem de tudo, a passagem de um livro, uma música, uma cena de filme ou aquilo que assisti na rua. Sobre a veracidade, eu sempre gostei da “vida como ela é” e tive a felicidade de procurar viver coisas intensas, você acaba tendo uma bagagem. Gosto de sentir que estou falando sobre assunto que ninguém tem coragem de escrever publicamente. Não tenho medo de me expôr, muito menos de expôr o sentimento alheio. Sem nome aos bois, tudo é ficção, inclusive a realidade.

Segundo:Você é um exemplo de um escritor que começou no blog, ganhou espaço e hoje tem o público consolidado e crescente. E todos os dias surgem novos blogs, novas plataformas. Nem todos se destacam, mas o espaço é aberto. Como você vê a experiência do espaço on-line na literatura?
Gabito Nunes: Qualquer um pode escrever e publicar, e tem muita coisa boa. Não vai demorar muito para os prêmios literários assumirem a plataforma. Tudo é muito novo ainda, e o blog ainda está fora do círculo literário, que vive numa moldura do passado. Não tenho vergonha de ter nascido como escritor da geração de blogs, pelo contrário, acho muito estimulante porque você tem zilhares de concorrentes, e isso o motiva a trabalhar mais, a aperfeiçoar sua escrita. Todos escrevem para ser lidos e, num estalar de dedos um leitor pode encontrar um novo escritor na web e você vai ficar pra trás. Seu nome não é tão importante quanto a qualidade do seu texto.

Segundo: Do blog às páginas dos livros – hoje, já são quatro livros. Você fez o caminho inverso do que se fazia numa modernidade já antiquada. Migrou do online para um objeto palpável, mesmo em um universo onde o digital cada vez ganha mais espaço e rouba a cena do papel. Na sua opinião: há diferença na forma de escrever para as duas plataformas? O livro é realmente importante e realmente faz um escritor, ou o on-line já garante o autor no meio literário?
Gabito Nunes: Livros são importantes, abrem portas, mostram que você não está para brincadeiras. Existem técnicas de escritas especiais para a web, e eu procuro desenvolvê-las. Hoje há muita concorrência, o seu leitor está com mil janelas abertas, com música, fotografias, redes sociais, etc. Você precisa prender a atenção na primeira frase e não pode divagar demais, descrever uma sensação em quatro parágrafos. O livro acaba sendo uma extensão, um aprimoramento ou uma forma mais profunda de dialogar com seu leitor. Meu trabalho ainda não é reconhecido no meio literário e eu não estou muito preocupado com isso, porque a maioria das rotinas e atividades são chatas e inócuas, na minha opinião. Não sei até onde vou chegar com isso, como não sabia que teria cinco livros há seis anos. Apenas vou levando, fazendo o que eu gosto, como eu gosto.

Segundo: No on-line, a receptividade é quase que imediata, você posta algo no Facebook, muitas pessoas já curtem, já compartilham e são direcionadas para o blog. No livro, não. A resposta vem aos poucos. Para você, como foi essa resposta e como você lida com isso?
Gabito Nunes: Acho, honestamente, um pouco nocivo para o escritor essa resposta imediata. Eu procuro postar minhas coisas e não observar muito o que as pessoas pensam sobre o meu trabalho. Tenho medo de ficar viciado na opinião alheia. Eu nunca fui de perguntar o que alguém achou do meu texto, nem para meus amigos. Simplesmente sigo meus ímpetos, publico meus textos bons e os ruins também. Os elogios emburrecem e as críticas inibem. Você apenas precisa escrever o que está a fim, ou então vai ficar jogando para a torcida. Mas, se você for esperto, vai saber olhar as coisas e tirar alguma lição interessante, e eu posso ver que meus leitores são atraídos pela espontaneidade da minha prosa. Mas é muito bom saber que tenho muitos leitores assíduos, ainda mais no Brasil. Isso mostra que não estou escrevendo para as paredes o que gera satisfação. Não estou muito aí para os indicadores; a internet e as redes sociais são um meio de publicar e divulgar, não uma arena de espetáculos. Se você levar essa história muito a sério, acaba se transformando numa marca de refrigerante. Essa é diferença de um blogueiro para um escritor, o último é necessariamente uma profissão solitária.

 

Gostou? Compartilhe