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Depois de 35 anos de fundação do Grupo de Projeções Folclóricas Terra Pampeana e cerca de 15 desde as últimas apresentações, ex-integrantes decidem retomar as atividades

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· 5 min de leitura
Grupo já começou os ensaios

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As vozes e passos que aos poucos se sincronizam em torno da melodia logo nos primeiros ensaios mostram que, independente do tempo, a bagagem deixada por um dos grupos mais tradicionais da história cultural passo-fundense continua viva, especialmente para aqueles que fizeram parte do núcleo. É que, depois de 35 anos de fundação e quase 15 desde as últimas apresentações, o Grupo de Projeções Folclóricas Terra Pampeana decidiu retomar suas atividades. Com o único propósito de reviver a paixão pela arte iniciada ainda nos tempos de juventude, integrantes da primeira geração têm se reunido desde o início deste mês para trazer de volta à vida as músicas e coreografias que por muito tempo levaram o nome de Passo Fundo pelo Brasil afora.

 

Criado em 1984, por jovens dispostos a fazer um trabalho de projeção folclórica que pudesse difundir e enaltecer temas tradicionais da cultura gaúcha, brasileira e latino-americana, o Grupo Terra Pampeana chamou a atenção de admiradores desde os primeiros momentos de fundação. O motivo principal era a inovação apresentada no formato do grupo – ao invés de ser formado unicamente por um corpo de dançarinos e outro de instrumentistas, como a maior parte das equipes que à época se apresentavam em invernadas e festivais folclóricos, o Terra Pampeana contava ainda com seu próprio conjunto vocal. “A dança já era uma vocação natural dos grupos nas invernadas, mas o vocal não. O vocal do Terra representou um modelo para novos grupos que vieram na sequência. Eles começaram a valorizar a voz e não se restringir somente àquela coisa de uma gaita, um violão e um pandeiro”, observa a integrante do conjunto vocal, Miriê Tedesco.

 

Histórico de conquistas

A proposta deu tão certo que, no mesmo ano em que foi fundado, o Terra Pampeana levou para casa um dos títulos mais importantes já recebidos por artistas do município. “Ainda em 1984, nós começamos a nos preparar para participar do Festival Gaúcho de Arte e Tradição (FEGART), que agora é chamado de Encontro de Artes e Tradição Gaúcha (ENART). Era nosso primeiro ano como grupo e, logo de cara, fomos os campeões do festival. Até hoje, foi a única vez na história de Passo Fundo que um grupo daqui ganhou o ENART”, conta um dos primeiros vocais a integrar o Terra, Paulo Dutra. Ele lembra, no entanto, que dentro do meio tradicionalista nem tudo eram flores. “Nós começamos com trabalhos de danças e músicas originais do folclore gaúcho e, depois, passamos a desenvolver trabalhos de projeção e estilização folclórica. Devido à mudança, tivemos uma série de assuntos com os quais discordávamos do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). Alguns tradicionalistas mais conservadores não admitiam, por exemplo, que as prendas tivessem encurtado os vestidos. Fomos parar até na Justiça e em uma matéria da Revista Visão por esses fatos”.

 

Felizmente, os desentendimentos com o MTG não frearam o grupo. Pelo contrário. O espírito inovador do conjunto, desde o aspecto musical até o indumentário, ajudou a lançar o nome deles à projeção internacional. Entre os principais marcos, Dutra cita uma visita ao então vice-ministro da Cultura, em Brasília; uma participação no programa Som Brasil, apresentado por Lima Duarte, na rede Globo; e o convite da presidente do Conselho Internacional de Festivais Folclóricos e Artes Tradicionais (CIOFF) para uma turnê na Europa. Foi nessa excursão, enquanto passavam dois meses na Itália rodando de festival em festival, que o Terra Pampeana começou a elaborar o evento que se tornaria, talvez, um dos maiores legados do grupo: a criação do Festival Internacional de Folclore de Passo Fundo, eleito em sua última edição como o melhor do mundo. “Ao ver a movimentação na Itália, quisemos trazer algo parecido para cá, para mostrar à comunidade o que era um festival de folclore. Montamos um projeto, levamos à Prefeitura – que concordou em nos ajudar – e começamos a apresentar a ideia nos bairros. Em 1992, depois de muito trabalho, aconteceu a primeira edição”, Dutra relembra em tom saudosista.

 

Assim, o que começou como um conjunto pequeno, composto por ex-integrantes da invernada do Centro de Tradições Gaúchas Lalau Miranda e do coral da Universidade de Passo Fundo, logo se transformou em um grupo com mais de 30 membros que, juntos, rodaram por uma dezena de países, colecionando outras dezenas de prêmios, durante aproximadamente 20 anos.

 

O reencontro depois de três décadas

Sentados em uma roda, com o professor de música José Carlos Gheller coordenando os trabalhos do conjunto vocal, os voluntários que decidiram resgatar o trabalho do Terra Pampeana dão uma pausa nos ensaios para bater papo e relembrar os momentos vividos pelo grupo na década de 80. O mesmo fazem os dançarinos e instrumentistas em um espaço ao lado, enquanto o churrasco é assado durante um ensaio que mais parece uma confraternização. Não há dúvidas de que, mesmo depois de décadas, segue viva a amizade criada nas idas e vindas do grupo que rodou o mundo levando a arte passo-fundense. “Parece que esse tempo desde o término do grupo até a decisão de nos reencontrarmos foi só um recreio”, resume Wolnei Bamberg Martineli. “Eu sinto como se tivesse sido ontem”, concorda o dançarino, coreógrafo e posteiro, Paulo Sérgio Gradaschi.

 

Conforme explicam, a decisão – bastante saudosista – de retomar os trabalhos do Terra Pampeana aconteceu durante um reencontro promovido em setembro deste ano, a fim de comemorar o aniversário de 35 anos de fundação do grupo. “Nós nunca nos afastamos da arte, acabamos o grupo apenas porque naquela época precisávamos nos dividir entre os ensaios e nossos trabalhos. Tínhamos outras prioridades e as pessoas acabaram seguindo outros rumos. Mas quando nos reencontramos em setembro, percebemos o quanto todos sentiam saudade daquela vivência e vimos que agora já estamos em outro momento de vida profissional e pessoal, com mais tempo livre. Foi muito rápido. Logo começamos a discutir a vontade de estarmos juntos de novo e marcamos os ensaios, sem nenhum objetivo. É só pelo prazer de retomar a arte que o Terra Pampeana soube fazer muito bem e, sobretudo, recomeçar entre amigos que já fizeram muitas coisas juntos”, explica Miriê Tedesco.

 

Com dois ensaios na conta e outros sendo planejados de modo a acontecer semanalmente nos próximos meses, os quase 30 voluntários que voltaram ao grupo contam que já têm conseguido resgatar alguns trabalhos que ainda pairavam em algum canto da memória. “Temos coreografias prontas e muitos materiais legais que pretendemos trazer de volta. Acho que elas estão mais vivas no coração do que na memória, na verdade, mas aos poucos vamos relembrando. Também precisamos considerar que a maioria aqui é da primeira geração do grupo, então são pessoas com mais de 50 anos de idade. Mas a gente vai no nosso tempo e nosso ritmo. O coração não tem limites. O que a gente sonha não tem limites. Isso está acima das limitações corporais”, analisa Gradaschi.

 

Ainda segundo o posteiro, a intenção é ensaiar coreografias e músicas que fizeram sucesso nos primeiros anos de caminhada do grupo, resgatando cerca de cinco espetáculos. E, embora salientem que o principal propósito é o prazer em praticar a arte entre amigos, os integrantes admitem que ainda sonham em ver o Terra Pampeana de volta aos palcos. “Acho que quem ganha com isso é a comunidade, porque é um trabalho que ajuda a manter viva a cultura dos povos. Estamos muito animados, mas não temos nada programado. Harmonizar uma música em quatro vozes e depois juntar com o instrumental e a dança não é um trabalho fácil, ainda temos muitos a ensaiar e vamos vendo no que dá. Por enquanto, estamos fazendo tudo com muito amor para satisfazer o coração de cada um de nós”, expõe a vocal Claudete Menegat.

 

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