CASO JBS: Avicultores já contabilizam prejuízos no setor

Unidade frigorífica processava 320 mil frangos diariamente antes da interdição

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Gerson Lopes/ON

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Os lotes de frango que, antes, eram enviados à unidade frigorífica da JBS, em Passo Fundo, agora, permanecem nos criadouros de 600 produtores rurais integrados para o fornecimento dos animais para o abate e processamento da carne.

 Com a nova liminar judicial, expedida no sábado (9) pelo Tribunal Regional do Trabalho da 4ª região (TRT4), restabelecendo a interdição da fábrica, após 19 trabalhadores terem sido infectados pela Covid-19, os avicultores manifestaram preocupação com a destinação das aves e com os prejuízos financeiros que a suspensão temporária do abastecimento pode ocasionar. Em nota, a Associação Norte de Avicultores (Avepenca), entidade que representa os interesses dos produtores integrados da avicultura na região, afirma ter consciência da gravidade dos casos existentes dentro da planta da JBS e “de forma nenhuma compactua com nenhum tipo de negligência da empresa que possa estar colocando seus colaboradores em risco”. “Os problemas dos produtores, que estão produzindo alimento diariamente ao país vem sendo completamente negligenciados, sem que a sua atividade seja sequer considerada na tomada de decisões de interdição completa do frigorífico”, enfatiza o posicionamento. 

O presidente da Avepenca, Enio José Pizzi, sinalizou que, embora ainda não haja um cálculo estimado para a perda de arrecadação, os produtores rurais estão mantendo os animais em confinamento nos galpões nas pequenas propriedades ou enviando a outras empresas do setor na região, como a BRF, em Marau e Serafina Corrêa, e à Agrodanieli, em Tapejara. “O prejuízo vai ser grande porque reduz o número de lotes enviados, mas o produtor da agricultura familiar continua mantendo os gastos com água, luz e financiamento bancário”, mencionou ele em uma conversa por telefone com o jornal O Nacional, na manhã de terça-feira (12). 

Pelo sistema de fornecimento dos animais, como explicou, a empresa fornece os filhotes de aves já medicados e o alimento necessário para a criação. O avicultor os recebe e faz o acompanhamento diário de alimentação e cuidado para a saúde animal até os frangos estarem dentro do peso necessário para o abate. “Para você ter uma ideia, um galpão para a criação de aves está custando em torno de R$ 1 milhão”, exemplificou. Com as incertezas do mercado local, alguns avicultores já solicitaram a desvinculação da JBS para fornecer os animais a outras empresas, conforme contou Pizzi, que mantém uma criadouro para as unidades fabris da BRF.

JBS alega insegurança jurídica

A última liminar de interdição da unidade frigorífica foi deferida em mandado de segurança, na sexta-feira (8), pelo TRT4. No mesmo dia, a Prefeitura Municipal de Passo Fundo ingressou com uma solicitação judicial de interdição cautelar pelos próximos 15 dias. Por meio da assessoria de imprensa, a JBS esclareceu que a empresa tem feito todos os esforços para manter a continuidade de sua produção e com isso garantir o abastecimento de alimentos à população com a adoção de um rígido protocolo de prevenção contra a Covid-19 em suas instalações, desde o início da pandemia, tendo em vista que a produção de alimentos é considerada uma atividade essencial. 

Com um abate diário estimado em 320 mil aves somente a unidade de Passo Fundo, a suspensão da produção não torna mais possível manter o ritmo de produção e, consequentemente, os alojamentos de animais, razão pela qual a empresa passou a informar seus produtores integrados que irá reduzir os alojamentos a partir desta semana. “Lamentamos profundamente toda essa insegurança e que não reflete a realidade da unidade em Passo Fundo. A insegurança jurídica e a arbitrariedade de argumentos e decisões infundadas estão impondo a necessidade da empresa readequar sua produção e, consequentemente, da cadeia produtiva da região”, disse a empresa ainda por meio de nota enviada ao jornal O Nacional. 

Empresa de capital aberto, a JBS não quis se manifestar quando questionada sobre os impactos financeiros que a empresa está sofrendo com a exposição de casos na unidade não podendo “comentar sobre previsões ou expectativas de mercado”. 

"Estou há mais de 20 anos nessa atividade, nunca tinha passado por uma situação como essa"

Morador da localidade de São Roque, interior de Passo Fundo, o produtor Luiz da Silva de Jesus, definiu o momento como 'complicado'. Com uma estrutura para produzir aproximadamente 52 mil frangos, ele afirma que as aves estão passando do período de abate. Com o ganho de peso, o espaço fica reduzido e as mortes são inevitáveis. " Gera aglomeração, elas passam a disputar comida e água, acabam morrendo. Já perdemos uma média de 2,5 mil frangos", afirma. A linhagem produzida na propriedade é de 30 dias para o abate. Segundo Luiz, esse prazo expirou há 10 dias. "Fomos informados de que os frangos seriam levados para outras unidades, como a do Paraná, mas até agora não passaram por aqui", conta. 

Outra preocupação do produtor, é com o aumento do período chamado de vazio sanitário. Ocorre quando o lote é retirado e o aviário passa pelo processo de limpeza e higienização. Atualmente, esse prazo é de 15 a 18 dias, mas  a previsão é aumentar para até 40 dias. Dividindo as tarefas da propriedade com o filho e um cunhado, o ex-presidente da Avepenca, alega dificuldades em obter capital de giro para tocar a produção. "Vivemos exclusivamente dos frangos. Estou há mais de 20 anos nessa atividade, nunca tinha passado por uma situação como essa. Fiz um investimento de R$ 90 em aquecedores para os aviários, não sei com vou fazer para pagar", diz apreensivo.  

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