“O PSTU acredita que o povo pobre e trabalhador deve governar”

Candidato ao cargo de prefeito de Passo Fundo, Arthur Bispo propõe a construção de Conselhos Populares que possibilitem a participação ativa dos passo-fundenses durante a definição das prioridades municipais

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(Foto: Gerson Lopes/ON)(Foto: Gerson Lopes/ON)
(Foto: Gerson Lopes/ON)
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Concorrendo pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), Arthur Bispo é o quinto convidado na série de entrevistas do jornal O Nacional com os candidatos que disputam a Prefeitura de Passo Fundo. Ele participa do pleito em chapa única, sem coligações, ao lado da servidora pública aposentada e candidata à vice-prefeita pelo mesmo partido, Marli Schaule.

Aos 33 anos de idade, Arthur Bispo é cobrador de transporte coletivo e carrega uma extensa trajetória de participação em movimentos sociais de Passo Fundo. Esta é a primeira vez que ele participa das eleições majoritárias do município. No pleito de 2016, concorreu a uma cadeira na Câmara de Vereadores, mas não foi eleito.

 

O Nacional: Você tem uma trajetória de lutas nos movimentos sociais de Passo Fundo. Em 2016 concorreu a vereador. Qual a motivação em colocar o nome à disposição do partido para concorrer ao cargo de prefeito?

Arthur Bispo: Acho que pelo momento que a gente está vivendo e a importância de apresentar uma alternativa socialista nas eleições. Não é o nosso chão, não é o que a gente acredita que seja a forma como a gente vai resolver todos os problemas – o voto. Mas é importante que, nesse momento, tenha uma alternativa que apresente um programa consequente com a gravidade do momento.


ON: Dos sete candidatos na disputa, você é o único sem tempo de propaganda no rádio e TV. Além disso, tem as restrições impostas pela pandemia. Como o partido lida com essas questões e qual é a estratégia para chegar até o eleitor?

Bispo: Esse é o aspecto antidemocrático da Lei Eleitoral, que restringe um partido pequeno que nunca governou – a gente até governou em alguns lugares, mas há um bom tempo. O que a gente tem feito é utilizar muito a internet. Felizmente, hoje, existe essa possibilidade, não é um custo tão alto para a gente utilizar. E a campanha corpo a corpo, na medida do possível, diante das restrições da pandemia. A gente tem feito caminhadas, abordagem nos bairros, mas é do portão para fora, sem manter muito contato com as pessoas. Até porque, geralmente, as pessoas que estão em casa nos horários [que a gente visita] são mais idosos, grupos de risco... É limitante. É uma campanha curta e, ao mesmo tempo, que limita você fazer reuniões plenárias, então, dificulta um pouco. Estamos conseguindo chegar [aos eleitores], mas também acredito que vai ter um alto índice de abstenção – votos brancos e nulos – nessa eleição. Apesar de a nossa candidatura ser diferente das demais, me parece que existe, de modo geral na população, uma impressão de que nada vai mudar nessa eleição em meio à pandemia.


ON: Analisando seu programa de governo, entre algumas propostas, está a possibilidade de revogar os mandatos de vereadores e prefeitos que não cumprirem com suas promessas, a equalização de salários e também greve geral. Você acredita ser possível adotar medidas como essas sendo chefe do Executivo?

Bispo: A gente defende a revogabilidade dos mandatos – é algo que ficou pendente na Constituinte – porque nós acreditamos que tem que existir uma forma em que os eleitores questionem os mandatários a partir do momento em que eles prometem algo nas eleições, se elegem e acabam governando contra aquilo que eles mesmos defenderam. Então, nós defendemos isso, acreditamos que é possível abrir essa discussão na cidade. É evidente que vai mexer com muitos que não querem esse tipo de mecanismo, mas acreditamos que com o apoio da população, dos Conselhos Populares, é possível fazer pressão para que isso vá à frente.


ON: É possível fiscalizar isso?

Bispo: A gente defende uma forma de governar, com os Conselhos Populares, que não é igual aos Conselhos Municipais, que são consultivos. É, de fato, o governo municipal se submeter à vontade da população através desses Conselhos Populares. Já fizemos isso em Timóteo, em Minas Gerais, nos anos 80. Dessa maneira, com a participação ativa da população, é possível fiscalizar de fato os vereadores. Porque hoje, infelizmente, a lógica que funciona é: o candidato é eleito, ele acredita que o voto é um cheque em branco e acaba fazendo o que bem entender. Fica até difícil para a população fiscalizar no formato atual. Desde 2013, a Câmara de Vereadores faz reuniões em horário comercial. É praticamente impossível a população fiscalizar o trabalho dos vereadores no formato que existe hoje.


ON: O PSTU costuma dedicar boa parte do debate local trazendo questões da política nacional. Essa é uma característica evidenciada em outras disputas eleitorais. Gostaria que o senhor comentasse sobre essa estratégia do partido.

Bispo: O PSTU é um partido com uma filiação internacional. Nós não achamos que é possível discutir os problemas de Passo Fundo sem vincular com a realidade do país nesse momento. A reforma administrativa, a lei do teto de gastos, a lei do marco temporal que está para ser julgada, são todas questões nacionais que afetam a realidade da cidade e vão ter consequências aqui. A gente estranha é que os governos se calem diante dessas situações, mesmo em uma pandemia e diante de um governo como o Bolsonaro, que agiu contra o combate à pandemia. A gente não acha que o prefeito tem que ficar calado, pensando só nos problemas da cidade, sem questionar as ações que acontecem em Brasília ou em Porto Alegre e que afetam a cidade de alguma maneira também.


ON: Em relação à pandemia, o próximo prefeito de Passo Fundo terá, desde o início do mandato, o desafio de enfrentar os reflexos provocados pelo novo coronavírus nos mais diversos setores da economia do município. Como vocês pretendem lidar com essa situação?

Bispo: Quando a gente fala em desenvolvimento da cidade, as pessoas geralmente associam com a ideia de trazer empresas de fora para gerar empregos e, ao mesmo tempo, a isenção de impostos. Nós não acreditamos que é preciso desenvolver a economia da cidade dessa forma, necessariamente, mas acreditamos que é preciso gerar emprego e a gente sabe que, no Brasil, quem mais emprega são as pequenas empresas, não são as grandes. Então, a gente acredita que os investimentos do município precisam estar voltados aos pequenos negócios, porque foram os mais afetados aqui, principalmente no comércio e serviços. Mas também a gente acredita que o município tem que voltar os investimentos para as áreas sociais da cidade. Existe uma carência e um abismo social muito grande entre quem mora no Centro e quem mora em uma ocupação. E, nos últimos anos, o atual governo não investiu em moradia popular. Existem hoje, nesse exato momento, pessoas em ocupações da cidade que vivem sem água potável. A gente acha que é possível fazer um plano de obras públicas que contemplem essas necessidades da população e, ao mesmo tempo, gerar emprego e renda para as pessoas não dependerem do auxílio emergencial porque, em algum momento, ele vai acabar.


ON: Sendo eleito prefeito, qual a principal mudança que o PSTU fará na cidade de Passo Fundo?

Bispo: Com certeza, é a participação da população. A gente sempre fala que não é uma ambição minha ou da Marli sermos prefeito e vice e, sim, estarmos dispostos a governar de uma forma diferente, que as pessoas do bairro possam discutir os problemas do seu bairro, possam discutir as suas prioridades e que o município acate isso. É algo semelhante ao antigo Orçamento Participativo, que depois virou a Consulta Popular, mas esses mecanismos discutem parte muito pequena do orçamento e, muitas vezes, aquilo não é cumprido. A ideia do Conselho Popular é anterior a esses projetos e coloca, de fato, a possibilidade de a população decidir o rumo de todas as ações da Prefeitura. Inclusive, decidir se a prioridade é saúde, vamos investir na saúde do bairro, se é moradia, vai ser moradia, enfim. É de não depender tanto da Câmara de Vereadores para estabelecer uma relação direta do Município com a população da cidade.


ON: Qual a mensagem que o senhor deixa para os eleitores de Passo Fundo?

Bispo: O PSTU acredita que o povo pobre e trabalhador deve governar. Essa é a proposta que está embutida na ideia do Conselho Popular. Nós não achamos que ser prefeito é uma profissão. Nós defendemos que os políticos recebam um salário médio de uma professora ou de um operário. Isso vale para o prefeito, para os secretários e é o que vamos defender na Câmara de Vereadores. Porque a gente acredita que os governos que têm passado na nossa cidade têm dito muito em governar para todos, mas quando chega nas crises, como agora, a gente sabe que quem acaba beneficiado nunca é o povo pobre, que está na vila. Eu acho que é isso que a gente pode contribuir para a cidade de Passo Fundo, caso sejamos eleitos no dia 15 de novembro.

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