O mesmo respeito há 33 anos

Um grupo distante da manipulação dos cartolas

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Obra de Doval retrata a manipulação no futebolObra de Doval retrata a manipulação no futebol
Obra de Doval retrata a manipulação no futebol
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Não é apenas a história de um time de futebol. É o caminho da vida de pessoas que seguiram seus destinos. Muitos estão longe, outros bem próximos e alguns já mudaram de dimensão. Porém, passados 33 anos, eles mantêm a mesma unidade de um vestiário blindado pelo respeito. Sim, respeito era a palavra de ordem do time do E.C. Passo Fundo que foi campeão da Segunda Divisão em 1986. Jogadores de futebol que hoje trabalham como vigilante, artista plástico, empresário ou advogado. No sábado, 12, eles promoveram um reencontro em Passo Fundo. A emoção tomou conta de todos, pois, após a conquista, a maioria nunca mais havia se encontrado. Como manda o protocolo, festa de jogadores tem que ter futebol, churrasco e cerveja. Mas teve muito mais. A reunião foi complementada por lindas histórias de vida escritas por cada um. Não faltaram brincadeiras em tom de vestiário. Incontáveis gargalhadas, algumas lágrimas e muito respeito.
 
O capitão
A festa começou no gramado do Vermelhão, onde os campeões enfrentaram um combinado local. Um atacante tentou fazer uma firula diante de um senhor de 69 anos. O incauto jovem não sabia que aquele zagueiro era Darci Munique. A falta de conhecimento foi dolorida, pois o velho capitão mantém o estilo e não brinca em serviço. Clarisio Darci Hoerle, o mais velho do time, foi profissional até os 41 anos. “Eu podia jogar mais. Estava no Glória de Vacaria e a turma falava que eu estava velho. Ouvi isso quando entrei para um treino e encheu. Então dei um chutão numa bola para o alto e larguei”. Desde então Munique reside em Esteio, onde manteve por anos uma panificadora. Agora ele tem a lanchonete da Fatec, na Avenida Assis Brasil em Porto Alegre. O capitão muda o tom para falar sobre a família. “Flávio, o mais velho, é engenheiro da Petrobrás, a Dayane é professora universitária e o Gabriel (que participou do encontro) fez educação física e possui uma academia em Esteio”.
 
A defesa
O zagueiro, Zé Ricardo tinha 21 anos quando da conquista. Também foi campeão catarinense pelo Brusque. Jogou pelo Passo Fundo, Ypiranga, Atlético de Carazinho e encerrou a carreira no Gaúcho em 2002. José Ricardo Melo Prates mora em Passo Fundo e trabalha na Semeato. Era o mais tímido do grupo e hoje sempre tem uma boa tirada. Está com 54 anos. “O pior é que faltam seis para 60”, emenda. Formou a zaga com Munique. “Ele gritava, vai Zé que eu fico na cobertura”. Uma dupla que equilibrava a técnica e a juventude de um com a experiência e jogo duro do outro. Outro zagueiro do grupo, Mauro Francisco Zanatta, está com 57 anos e estudou educação física. Hoje mantém uma escolinha de futebol em Rodeio Bonito. O lateral Toco está com 53 anos e continua pelo Boqueirão. Volmir Telecken presta serviços de fretes e possui um bar na Rua João Catapan. “A gente consegue muitas amizades com o futebol. Na época (1986) eu era um gurizão, mas fiz parte dessa história”, avaliou. Ricardo Attolini é o mais jovem da turma, pois na época ainda era da base. Hoje, com 50 anos, é o único do grupo que atua como técnico de futebol.
 
Os pequenos gigantes
O preparador físico Carlinhos dividia a função com Darlan Schneider. Carlos Almeida completou 60 anos e diz que a conquista foi “a base inicial para a carreira”. Hoje gerente administrativo da Chapecoense, coleciona cinco títulos em Santa Catarina. Opção tática do técnico Polleto, Flavio atuava pelo meio ou ponta esquerda. No grupo, Flavio Domingos Chiesa é conhecido como Bacharel. Naquela época cursava educação física na UPF, mas seguiu outros caminhos. “Trabalhei na CEEE e na RBS, época em que cursei Direito”. Hoje Flávio é advogado em Três Passos. “O futebol me projetou e fiquei bastante conhecido na região”. Valmor, o volante campeão tem apenas 1m62 de altura e 60 kg. Mas era um gigante em campo e muito guarda-roupa de seis portas levou a pior numa dividida com ele. Valmor Racowski está com 61 anos e trabalha com jardinagem e paisagismo em Erechim. Com 1m70, o goleiro Mazaropi também era considerado um “baixinho”. Mas foi titular e defendia muito. Com 58 anos, mantém um bar em Francisco Beltrão, no Paraná. “Sobra uns 10 ou 12 mil por mês. Depois que parei de jogar bola ganhei dinheiro”, comenta.
 
Um jovem e emotivo líder
Além de um capitão exigente, o grupo ganhou uma segunda liderança. O goleiro Donizeti foi um incentivador que transmitiu respeito, amizade e Fé naquela temporada. Agora com 59 anos, Geraldo Donizeti Aiello Falavinia é empresário em Araraquara-SP e mantém uma oficina mecânica. No encontro, visivelmente era o mais emocionado. “O Polleto (técnico) perguntou para nós, um por um, sobre a nossa responsabilidade. Mostrou que ele e aquele grupo estavam representando a cidade. Isso motivou muito. Sabe o que é você embaixo do gol defendendo uma cidade?”, indagou com lágrimas nos olhos. Mas Donizeti não esqueceu a tarde em que substituiu Mazaropi num jogo diante do São José. “Todo Wolmar Salton me aplaudindo quando entrei, dando a maior força”. Ele também lembrou uma jogada ensaiada que os goleiros tinham com o meia Doval. “Ele ficava se fazendo de morto no meio e a gente lançava no espaço vazio pela direita. Doval dava um pique de 20 metros e ficava livre com a bola”. Na festa, Doni deu outro passe, desta vez para Khaue, o filho de Doval, que sonhava com uma camisa de 1986. Foi até o carro e pegou a camisa que havia ganhado do roupeiro Vanderlei. Era a número 8 que Doval vestia.
 
Artista da bola e do pincel
Inácio Dorvantil Nunes Rodrigues está com 62 anos e reside em São José, na Grande Florianópolis. É conhecido por todos como Doval. Chegou acompanhado do filho, genro e neto. Quando veio para Passo Fundo já pintava quadros nas concentrações. “Comecei a pintar quando casei. Era uma forma de me acalmar antes dos jogos. A pintura é uma leitura das imagens mais importante que a escrita. Você imagina e pinta”. Assim, Doval retratou em quadro as manipulações que em que os jogadores eram vítimas dos cartolas. Mas enfatiza que “aqui havia respeito. Esse é o meio que a gente quer. Foi o único time em que joguei onde a gente se ajudava”. Doval até destoava do grupo, falava pouco, pintava e jogava muito. Agora é professor de pintura e suas obras integram a Arte naïf, conceituada como linguagem pessoal de autodidatas. O acervo está espalhado pelo mundo, com destaque para a Galeria Jaques Ardies em São Paulo.
 
Batendo bola com dois campeões
O meio campo Castor reside em Curitiba e comanda o Grupo Máster do Colorado. Aos 54 anos, Luiz Carlos Ferreira Castor foi um dos articuladores do encontro. Já o atacante Alfredo está na marca de 57. Alfredo da Conceição Rodrigues atua como vigilante do Banrisul em Bento Gonçalves, “mas me aposento no próximo ano”, completa. Com lançamentos de Castor e chutes de Alfredo, começamos um bate bola sobre o futebol brasileiro. A jogada iniciou com o atacante. “O jogador hoje é uma balaca. O moleque de agora não tem referência”. Bola para Castor que complementou “perdeu a essência. Tem a preparação, mas não tem alguém de habilidade”. Alfredo lembrou que tinha um chute forte e péssima pontaria. “Então o Flávio Minuano me mandou bater bola contra uma mureta, chutava com a direita e recebia com a direita, depois com a esquerda”. O meia entende que atualmente “há uma inversão de valores, pois o jogador quer imitar a Europa. Passamos a robotizar desde a escolinha. Drible é improviso. Na seleção o Neymar é o único que brinca de jogar e, por isso, dependemos só dele”. O centroavante destaca que “antes quem ia para a seleção era para fazer o pé de meia. Hoje não têm mais ambição. Na Europa eles já não têm mais respeito por nós como antigamente”.
 
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