A bíblia de Hitler

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Esse livro é a minha bíblia. Eis as palavras que Adolf Hitler dirigiu a Madison Grant, após ter tomado conhecimento do livro The Passing of the Great Race (O Fim da Grande Raça). A obra, publicada nos EUA, em 1916, foi considerada por Stephen Jay Gould, o laureado paleontologista de Harvard, como o mais influente trabalho de racismo cientifico daquele país. Nela, Madison Grant, um advogado de Nova York, que além de eugenicista de escol, ombreando com Theodore Roosevelt, também se sobressaiu pela criação de organizações ambientalistas e filantrópicas (que o redime um pouco, segundo alguns), defendeu a preservação do que ele chamou de “Grande Raça”, que, hoje, seriam os brancos de origem anglo-saxônica. A ameaça viria pela miscigenação desses “brancos superiores” com raças “mais fracas”, representadas por judeus, europeus do sul do velho continente e negros.

A morte de George Floyd, um negro que foi brutalmente assassinado por um policial branco, em 25 de maio, em Minneapolis, e as manifestações que sobrevieram são atestados que a eugenia, ainda que velada, pode estar impregnada no imaginário de muita gente (lá e aqui). 

A eugenia ganhou força com a redescoberta das Leis de Mendel no começo do século XX. Foi quando algumas pessoas, dentro e fora da comunidade cientifica, passaram a acreditar que os genes exerciam o controle principal sobre certos caracteres fenotípicos e comportamentais, entre os quais se incluíam a inclinação para alcoolismo, prostituição, jogatina, preguiça, criminalidade, debilidade mental e tantos outros desse mesmo naipe. E assim, alguns “iluminados”, anteviram a possibilidade “melhorar” a raça, a exemplo do que se faz com os animais domesticados, por meio de cruzamentos selecionados, ou evitar a degeneração racial, impedindo a miscigenação com raças consideradas “inferiores”.

Abria-se o caminho para práticas que levaram desde a tentativa de extermínio de povos inteiros até a esterilização, consentida ou não, de milhares de pessoas. Assim seria evitada a reprodução dos menos ajustados ao tipo socialmente idealizado. A memorável sentença do juiz Oliver Wendell Holmes Jr. ao determinar a esterilização de Carrie Buck, uma mulher jovem, que sofria de debilidade mental, filha de uma mãe também considerada com debilidade mental e que, após um estupro, deu a luz a uma criança igualmente diagnosticada com debilidade mental, resume bem o clima que preponderava nos EUA no começo do século XX. Eis como se pronunciou o magistrado: Três gerações de imbecis são suficientes (no original, para você traduzir como achar melhor: Three generations of imbeciles are enough).

Francis Galton, o estatístico vitoriano e primo de Charles Darwin, foi um dos entusiastas da eugenia. Para Galton a característica mais importante da espécie humana era a inteligência. E foi pensando nisso que ele levou a cabo estudos que envolviam inteligência e hereditariedade. Estudou famílias de notáveis por esse atributo, a exemplo dos Bernoullis (Jacob, Nicolau, Daniel, etc.). Mas observou uma dificuldade na herança da inteligência, que ele chamou de lei da reversão para a mediocridade. Ou seja, os filhos de pais muito inteligentes tendem mais para a média e raramente são superiores aos genitores. De qualquer forma, ainda que vagamente, Galton deixou implícito que os “melhores” deveriam ser estimulados a procriar mais e os “piores” a procriar menos.

A eugenia, nunca foi consenso na comunidade cientifica, mesmo que alguns cientistas a tivessem professado. Essa afirmação taxativa e outras informações postas nessa coluna são de Naomi Oreskes, professora de História da Ciência na Universidade Harvard, e podem ser encontradas no livro Why trust science?, de 2019. Hoje, mais do que nunca, a eugenia é vista como uma falácia. O aperfeiçoamento da população mundial não seria dado pela via genética por meio de “seleção consciente” nos moldes da “seleção natural” preconizada por Darwin. Os problemas que os eugenicistas se propuseram a reparar no mundo seriam mais facilmente remediáveis por meio de reformas sociais envolvendo saúde, educação, habitação e equidade de oportunidades.

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