OPINIÃO

A graça (e a desgraça) do prefaciador

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Tive a graça (e a desgraça) ao me oferecer e ser imediatamente convidado para assinar o prefácio do novo livro de Tânia Du Bois: ANUNCIADA FORMA. A felicidade, certamente, maior do que o infortúnio. Sempre é motivo de satisfação ver nascer uma obra literária e, de alguma forma, poder participar do processo. E mais ainda quando se trata de um livro que pode ser identificado com as letras passo-fundenses. Mas, nem por isso, a minha dificuldade para cumprir a promessa, especialmente pela falta de familiaridade com o universo dos microcontos, foi menor.

ANUNCIADA FORMA é a segunda obra de Tânia Du Bois no gênero microconto. A primeira foi ESPAÇOS em BRANCO, não casualmente lançada na 33ª Feira do Livro de Passo Fundo, em 2019. Friso o NÃO CASUALMENTE por Tânia Du Bois, apesar de radicada em Balneário Camboriú, estar fortemente identificada com a literatura que, atualmente, é produzida em Passo Fundo. Tânia e Pedro Du Bois (profícuo poeta, contista e ilustrador gráfico), de longa data, têm marcado presença nos eventos literários que ocorrem em nossa cidade: Jornadas de Literatura (já estamos com saudade), eventos na Academia Passo-Fundense de Letras, feiras do livro ou lançamentos de obras (próprias ou como organizadores de coletâneas) pelo selo editorial do Projeto Passo Fundas Apoio à Cultura.

Ao longo do tempo, têm surgido muitas teorizações sobre o que, efetivamente, é um conto. A maioria segue os preceitos clássicos que foram estabelecidos por Edgar Alan Poe. Na matriz teórica de Poe, são coisas que identificam o verdadeiro conto: a pouca extensão (brevidade), o efeito impressivo sobre o leitor e o desfecho (buscado pelo contista desde a primeira frase do texto). Mas essa estrutura, apesar de inteligentemente construída pela genialidade de Poe, foi aos poucos sendo desfeita (ou evoluindo). Especialmente, abandonaram-se as definições que colocavam o conto a reboque do romance, rotulando esse gênero apenas como mera “narrativa curta”. Então foram surgindo novas formas de narrativas breves, que foram virando brevíssimas, superbreves, megabreves ou qualquer outra adjetivação que ainda possa ser inventada. E assim, do conto derivaram os minicontos e os microcontos; mas, sobre eles, indubitavelmente, o espírito de Poe ainda paira soberano.

O microconto “mais famoso do mundo” (considerado por muitos) é O dinossauro, do escritor hondurenho/guatelmateco Augusto Monterroso (1921-2003). Simplesmente: “Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí (Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.)”. Mas, não menos instigantes do que o microconto de Monterroso, eu considero (gosto pessoal apenas) os microcontos Disputa, de José Carlos Laitano: “Ela postou-se no meio do quarto, deixou cair o penhoar, e suplicou, baixinho: - Diz!”. E Adeus, de Miguel Sanches Neto: “Então disse: – Viver era isso? E fechou lentamente os olhos.” E, se, você leitor, começou a considerar interessante o gênero, atenção, pois ainda não apresentamos os novos microcontos de Tânia Du Bois!

Então, eis a mostra de ANUNCIADA FORMA, baixo títulos, como Sorte: “Para sua vida ser menos assustadora, pensava na sorte.”; Cora Laus: “Defendia o que abraçava com o coração.”; Livro: “Deu ao leitor o direito da transgressão.”; Confronto: “Viveu fugindo dos confrontos, morreu atropelado.”; Ordens: “Nasceu para responder: sim, senhor!”; Divindade: “Dizia que era preciso recriar a criação.”; Emergência: “Atendido pela enfermeira deixou-se atropelar pelos sentimentos.”; Pandemia: “Contribuía para o descrédito da realidade.”; e Túmulo: “Suas fronteiras garantiam seu lugar no cemitério.”

Ainda que, pelo caráter minimalista, um microconto aparente ter sido escrito em poucos minutos, até o formato definitivo, pode ter levado dias, meses, anos ou, até mesmo, toda a vida de um escritor. Não é suficiente a brevidade para ser um microconto. As características contísticas precisam ser preservadas. E, indubitavelmente, em ANUNCIADA FORMA, elas foram. Tânia Du Bois colocou em pratica os ensinamentos de Millôr Fernandes que pregava a concisão como o melhor caminho para um bom texto.

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