OPINIÃO

Gripe Espanhola

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Estava anoitecendo. Meu pai, Guilherme, recém se apresentava à adolescência, cavalgando de volta para casa, depois de longo trajeto. Já escuro, quis apressar o retorno e ingressou num atalho, ao passar por lugarejo no caminho de Vista Alegre do Prata. Subitamente, num campo afastado das casas, o cavalo estancou e relinchou. No susto, olhou para o chão e foi maior o espanto. Um corpo estendido na grama e, adiante, outros mais. Embora atônito, seguiu e acelerou a marcha do cavalo, deduzindo que se tratava de mortandade, como ouvira nas explicações do meu avô Francisco. Era a gripe Espanhola que acabara de conhecer pessoalmente. Devastadora. Era o ano de 1918 ou 1919. Vô Francisco reuniu os 15 filhos a quem explicou sobre o perigo da pandemia. Depois iniciou a reza do terço que já era costume da casa. Ninguém da família se contaminou. O velho patriarca (nascido na Itália) rezava todos os dias, e falava à família na hora das refeições. Não havia médico na localidade e poucas eram as instruções sobre a doença que fazia aparecer mortos em muitas moradas. Meu pai falava repetidas vezes sobre o fato que o impressionara tanto. A avó Lúcia, a quem não tive a ventura de conhecer, esmerava-se em cuidados com a filharada e muitas orações. Todos reavivavam o ânimo nos encontros ao redor da mesa, costume que esmoreceu nos últimos tempos. Vizinhos ajudavam-se com muito ardor. Dos tios paternos apenas a caçula, tia Maria, ainda vive, com 103 anos. Não sei ao certo como concluir sobre essa façanha de sobrevivência. Mas o amor entre todos, na família, a religiosidade, tudo é muito forte em momentos como nós (hoje) vivemos, tomados pelas incertezas do coronavírus.

Elite de rapina

Ninguém mais é tolo para não enxergar que a elite instalada no poder político elabora um cotejo falso, simulando acerbada discussão intestina diante da pandemia do Covid-19. Ergue-se a cortina de fumaça diante da desgraça que atinge o planeta. A pandemia parece ficar em segundo plano. Dentro do governo a elite de rapina investe desairosamente em instrumentos de manipulação, dizendo que a doença maior é o perigo da dominação chinesa, ou comunista. A onda do obscurantismo, à revelia do alerta da ciência médica quer mudar o vértice da questão, em plena urgência do socorro aos cidadãos afetados pela doença. A esdrúxula manipulação investe no fanatismo do ódio, com facke news e adesismos de plantão de comunicadores - barões da vez, atrelados cegamente ao poder central. Insistem em condenar povos de ideal político diferente, acoimando de criminosos invasores por atuarem em nosso mercado. É óbvio que os países estrangeiros aqui aportam visando vantagens na dinâmica da globalização, que tanto já decantamos. Por isso é preciso estar atento. E não é apenas a China que quer a riqueza do Brasil. E mais, no momento, o desafio que se propõe à gestão política e econômica é defender os brasileiros ameaçados pelo vírus ainda desconhecido. Não há necessidade de invocar uma segunda guerra para esse momento, pela singela motivação eleitoral que trouxe incerteza à futura candidatura de Bolsonaro.

Torre de Babel

O Brasil vive crise de saúde e economia, que parece afligir de modo semelhante inúmeras nações. Não temos recursos como EUA, Alemanha ou Inglaterra, fortemente afetados. Temos, no entanto, um território enorme e rico e um povo que merece ser orientado, especialmente a pobreza. É hora da compaixão mútua. Ao contrário, as divergências partidárias internas do governo eleito tomam a força e destempero. Trava-se uma luta dentro do próprio governo em pleno combate à pandemia. Parece que ninguém mais se entende, como na Torre de Babel. Os homens de proa brigam entre si. Falam línguas estranhas. Os partidos de franca oposição ao governo estão quietos. O problema é o governo que não é governo. O povo pobre das favelas, onde o estado mal aparece, mesmo assim, promove sua defesa, alheio às ronhas e factóides que criam novos culpados.

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