OPINIÃO

O primeiro passo-fundense na UAPPL – Parte 1

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Desde Strasbourg, na França, onde reside, Paulo Ernani Rezende de Rezende, às vésperas de completar 80 anos, resolveu escrever as suas memórias. O resultado, em tons autobiográficos e memorialísticos, pode ser encontrado no livro “Do Pinheiro Torto ao vasto mundo”, recém-publicado, pelo selo editorial Libretos, de Porto Alegre. Mas, se engana quem achar que se trata de uma obra meramente autobiográfica. Paulo Rezende, dono de rica história de vida e dotado de vasta cultura, surpreende e agrega conhecimentos ao leitor, com relatos vivenciados de uma cidade de Passo Fundo que não existe mais, de um Brasil que não existe mais, de uma URSS que não existe mais, de um mundo que não existe mais; porém sem perder o olhar contemporâneo e reflexivo sobre as ameaças que pairam contra liberdades duramente conquistadas.

Paulo Ernani Rezende de Rezende nasceu em Passo Fundo no dia 11 de novembro de 1940. Filho de Maria Severo Rezende de Rezende (professora de português e história no Instituto Educacional - IE) e Pedro Ribeiro de Rezende (funcionário da Viação Férrea do Rio Grande do Sul). O Rezende de Rezende do sobrenome tem origem na tradição familiar de casamentos entre primos. A família residia na “Calçada Alta”, Av. Brasil Oeste, 763 (edificação e número também não existem mais). O Ribeiro, do sobrenome do pai guarda relação com o Cemitério dos Ribeiros (na entrada da cidade, pela Rodovia RS 153). E o Pinheiro Torto, do titulo do livro, é uma alusão ao sitio do avô materno, nos atuais bairros Valinhos e Integração, onde, hoje, localiza-se o Parque Natural Municipal Pinheiro Torto.

Alfabetizado no Grupo Escolar Protásio Alves, em 1947, transferiu-se, no ano seguinte, para o IE, onde permaneceu até completar o Curso Científico, em 1958. Em 1959 e 1960, teve uma breve passagem pela Juventude Comunista. Foi amigo, nos anos 1950, de Miguel Kosma, Paulo Totti, Derli Machado da Silva, Tarso de Castro e Terezinha Portela; entre outros que também saíram da aldeia para o mundo.

Em 1960, enquanto fazia cursinho, em Porto Alegre, para prestar vestibular para a Faculdade de Medicina da UFRGS, foi despertado por uma noticia do Jornal Correio do Povo, anunciando que a União Soviética estava oferecendo bolsas de estudos para jovens do Terceiro Mundo interessados em ingressar na recém-fundada Universidade da Amizade dos Povos (inciativa de Nikita Khrushchev, voltada a proporcionar educação de qualidade e formar adeptos à causa comunista em tempos de Guerra Fria, evidentemente). Escreveu uma carta de candidatura e 15 dias depois recebeu a resposta positiva. Voltou a Passo Fundo, anunciou à novidade à família e aos amigos, e, apoiado por ambos, apesar da contrariedade do cônego da catedral que não entendia como uma família tradicional permitia que o filho fosse estudar na Rússia (um país comunista), decidiu partir para Moscou.

E assim, com 100 dólares no bolso, presenteados pelo pai para as despesas de viagem, via Varig, Porto Alegre ao Rio de Janeiro, e, na sequência, pela Air France, no roteiro Rio de Janeiro - Paris - Moscou; depois de 15 dias na Cidade Luz, visitando museus e hospedado no emblemático Grande Hotel Saint Michel, que tinha Jorge Amado e Gabriel García Márquez entre os frequentadores, decidiu procurar o consulado da URSS e obter o visto de entrada na Rússia. Em agosto de 1960, foi recepcionado, no aeroporto de Moscou, pelos representantes da Universidade, onde, com bolsa de estudo, cursaria a Faculdade de Medicina.

Na Universidade da Amizade dos Povos, que, em 1961, passou a se chamar Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba - UAPPL (homenagem ao líder anticolonialista do Congo) e, a partir de 1992, mudou novamente o nome para Universidade Russa da Amizade dos Povos, deixando de lado a gratuidade do ensino, estudaram mais de mil brasileiros. Paulo Rezende foi da primeira leva de brasileiros a estudar na UAPPL. Formado em Medicina na Rússia, com especialização como médico anestesista reanimador na França, retornou ao Brasil, acompanhado de uma esposa russa e uma filha moscovita, em agosto de 1967. E encontrou um outro Brasil. (...continua na próxima semana.)

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