OPINIÃO

Shakespeare, maconheiros e CEOs do mal

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Quem não lembra, dos tempos de escola ou de faculdade, de algum colega que se enquadraria, facilmente, no grupo das chamadas pessoas desagradáveis? Indivíduos cujos traços de personalidade mais marcantes eram a arrogância, o egoísmo, a truculência, a insensibilidade, a falta de empatia, a belicosidade e a predisposição inata para assediar moralmente os colegas. Idiotas perfeitos, para resumir tudo em um único adjetivo. Mas, o que você supõe que aconteça com esse tipo de gente fora do ambiente escolar? No mundo do trabalho, essas características de personalidade asseguram o sucesso profissional e a ocupação de postos de comando e poder mais facilmente do que para os outros? Os bons meninos e as boas meninas ficam sempre para trás? Afinal, ser idiota ajuda a ganhar poder nas organizações?

Foi para buscar esse tipo de resposta que um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, realizou um estudo de acompanhamento, no mundo do trabalho, do desempenho de um grupo de estudantes da área de administração, de três universidades americanas de elite. Os resultados foram publicados na edição de 31 de agosto da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Cameron Anderson et al., PNAS 2020, DOI:10.1073/pnas.2005088117). Dois estudos, na realidade, foram levados a cabo nessa pesquisa. No primeiro, 457 participantes, que tiveram seus traços de personalidade mensurados, ainda na Universidade, entre 1999 e 2008, e com carreiras consolidadas ao longo de um tempo médio de 14 anos (mínimo de 10 anos), foram reavaliados em 2018. E, no segundo, com um grupo menor (214 participantes), foi analisada a forma que as pessoas galgam o poder nas organizações. Surpreende, mas nem tanto, as conclusões encontradas.

A boa nova é que “idiotice” não é credencial para o atingimento de postos de comando e poder nas organizações. Também não houve influências de gênero, de raça ou da cultura interna às organizações (!?). Aqueles que possuíam traços de personalidade inversos dos “perfeitos idiotas” também chegaram aos postos de CEOs nas empresas. E a má noticia é que, sim, idiotas chegam a postos de poder nas organizações, e tão rapidamente quanto os demais. Mas, uma característica de personalidade que se sobressai, positivamente, é a extroversão. Timidez, lamentavelmente, não ajuda nas carreiras executivas.

As atitudes que levam um indivíduo a ganhar poder numa organização podem passar por ter comportamento agressivo e dominador, construindo sua autoridade pela intimidação; possuir redes de relacionamento político, buscando alianças estratégicas que lhe favoreçam; ser dotado de senso do bem comum, autoridade que acaba sendo reconhecida por favorecer a todos; e a competência, em que as suas habilidades fazem a diferença no desempenho da corporação. Mas, indubitavelmente, um idiota no poder, pelas suas atitudes, pode destruir uma empresa.

Leandro Karnal difundiu essa história, com a resposta, fictícia, dada a um aluno entusiasmado com a descoberta de vestígios de maconha em cachimbos que supostamente pertenceram a William Shakespeare: “sim, Shakespeare fumava maconha e foi Shakespeare. Agora se você fumar maconha isso não vai transformar você em Shakespeare. Você, provavelmente, será apenas um maconheiro”. Vale a analogia para os leitores da biografia de Steve Jobs, especialmente os jovens, como alertam os autores do artigo da PNAS.

Steve Jobs, ao primar pela conexão criatividade e tecnologia, produziu coisas que o consumidor nunca imaginou que precisaria tanto. Mas, o CEO bem-sucedido também deixou lembranças desagradáveis nos locais por onde passou. Assim, alguns leitores da famosa biografia de Steve Jobs, assinada pro Walter Isaacson, poderiam imaginar ...“e se eu me tornar um “panacão” (tradução amigável para bigger asshole) eu poderei ser tão bem-sucedido quanto Steve Jobs”. Ledo engano. Isso não vai transformar ninguém em Steve Jobs. No máximo teremos apenas mais um CEO do mal ou um chefete de plantão!

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